sexta-feira, 14 de março de 2014

The Spectacular Now (2013)


"The Spectacular Now" é um filme surpreendente, que vi apenas para relaxar numa viagem longa. Destacado na internet por um desavisado como uma das "melhores comédias românticas de 2013", achei que seria um bom entretenimento. Mas eis que surge um drama intenso, ligado ao mundo adolescente e às escolhas do que fazer no futuro, que permeiam a cabeça de 10 entre 10 adolescentes que estão no último ano do colegial. Descobri depois que o filme é do mesmo produtor de "500 dias com ela", um outro longa que conta com status "comédia romântica" mas que é bastante reflexivo e trata da temática do relacionamento amoroso e as desilusões e reencontros da vida.

Milles Teller e Shailene Woodley interpretando Sutter e Aimee

O filme, narrado por Sutter (Milles Teller), um adolescente que busca viver o aqui e o agora, curtir o colegial, é popular, engraçado e bebe praticamente todo o dia, mostra o retrato de jovens que buscam esquecer problemas com bebida e muitas vezes drogas. Essa é a idade de curtir, diz Sutter, mas a falta de planejamento do futuro e as constantes bebedeiras mostram que o adolescente ocupa um bom espaço da sua vida não pensando em nada e fugindo das decisões. E a partir de um início que parece bobo, de um adolescente que vemos em tantos filmes americanos, temos a impressão que o filme vai ser um desfile de clichês de High School como estamos acostumados.

Sutter bebe...demais.
Mas é aí que ele surpreende: Sutton conhece uma menina centrada (Shailene Woodley), que parece ser a garota mais fofa e madura do mundo, começa a se envolver em um relacionamento sério onde ele se confronta com os próprios medos. E assim vários personagens que parecem tão superficiais, como a ex-namorada bonitona, rainha do baile, o líder do time de futebol e a família de Sutton começam a ganhar vida, se transformando em seres humanos frágeis e cheios de dúvidas, inseguranças e problemas.

Concordo com algumas críticas que contam que o desempenho dos dois coadjuvantes é o que faz o filme crescer, e sem dúvida eles conquistam o espectador. Interessante também pois são estreantes, tendo poucos filmes no currículo, mas super bem dirigidos. Para quem ainda não se convenceu a ver, o longa ganhou um prêmio especial do júri de Sundance ano passado e críticas positivas em vários blogs e jornais especializados. 

Os dois protagonistas na pequena cidade da Georgia

Não foi lançado no cinema no Brasil, mas para aqueles que veem pela internet ou estão dispostos a alugar, não vão se arrepender. O filme ainda me lembrou outro muito interessante, com temática bem parecida, "As melhores coisas do mundo" (2010) de Laiz Badansky, brasileiro e de primeiríssima qualidade. Para mim, filmes que tratam adolescentes como seres pensantes sempre são interessantes, afinal, todos que já passaram por essa fase sabem os conflitos que surgem nesse período da vida.

O casal na "prom"
(Publicado no facebook em 12.03.14)

12 Anos de Escravidão (2013)

Talvez eu esteja muito ligada à minha profissão, e não consegui ver o filme com olhos apenas de espectador. De fato, fiquei analisando o realismo e a veracidade dos acontecimentos do longa, pois é uma coisa que faço geralmente com filmes históricos. Vi 12 anos de Escravidão e gostei - mas não o achei sensacional ou atual. 

Escravos no mercado em Alexandria, VA
 (maior mercado de escravos dos EUA)
Excelentes atuações, especialmente de Chiwetel Ejiofor, que interpreta Solomon Northup, e de Michael Fassbender, que faz o dono de escravos Edward Epps. Porém, ouvi comentários de pessoas dizendo que ficaram chocadas e o acharam extremamente pesado. Eu particularmente não achei. Uma cena ou outra, mas no geral, o filme me pareceu ser aquilo que o roteirista propôs ser: realista. 

Não há novidade nenhuma nas cenas de terror psicológico, físico, castigos e outros infinitos tipos de tortura possíveis efetuadas em escravos ao longo da vergonhosa história do trabalho no novo mundo. Acho que o longa traz indignação a muitas pessoas, mas o realismo retratado já deveria estar presente no imaginário da população. São décadas e décadas de trabalho de historiadores e professores para mostrar que a escravidão foi uma realidade cruel, foi um sistema complexo se pensarmos na objetificação de seres humanos (em sociedade religiosas cristãs) e trouxe consequências terríveis até os dias atuais, que são o preconceito racial e a desigualdade social. 

Chiwetel Ejiofor, interpretando Northup em uma fazenda produtora
de algodão na Louisiana

Algumas cenas são bem interessantes, como o diálogo entre o carpiteiro canadense (Brad Pitt, produtor do longa) e Epps sobre liberdade de escolha e o mal social da escravidão, um adotando a visão clássica escravocrata e outro a visão liberal. Nao foi pra mim muito verídica, pareceu algo bem didático, inserido por Steve Mcqueen por achar necessário. Outra parte interessante é a relação de Patsy com a esposa de Epps, que a invejava, mas nada podia fazer contra a preferida do marido, e Patsy com a vizinha, casada com o seu dono, que se torna ela mesma dona de escravos, outro fato bastante relevante se pensarmos na escravidão como parte de um sistema social naturalizado. 

Lupita Nyong'o que interpreta Patsy (a fotografia
do filme é incrível)
Mas 12 anos tem seu mérito: insiste, na verdade, persiste em mostrar algo que deve ser relembrado constantemente. Que venham outros filmes então. Não vejo o filme como o melhor e mais emocionante dos últimos tempos no cinema, mas o vejo particularmente como um filme realista e relevante, que serve pra levantar, mais uma vez, o debate sobre as consequências do mal escravocrata em sociedades ocidentais, como a nossa. 

Destaque para a fotografia, figurino (o jogo de cores é deslumbrante) e a direção do filme, acho que estão sensacionais. E Anima Cris, concordo com você, talvez escolhesse outros filmes para trabalhar em sala. Mas este serviria como bom exemplo de uma biografia de tristeza e de luta, que tem um final relativamente feliz (pois Northup jamais será o mesmo), com algumas cenas bem interessantes de trabalhar. No caso de milhões de escravos que nunca experimentaram a liberdade, o final não foi tão feliz assim.

Michael Fassbender e Chiwetel Ejiofor, dono e escravo que
contracenam nas cenas mais tensas do filme
(Publicado em 09.03.14 no facebook)


Dallas Buyers Club (2013)


Nas duas últimas semanas vi três filmes que concorreram ao Globo de Ouro e creio que pelo menos dois concorrerão ao Oscar: August-Osage County, Philomena e Dallas Buyers Club. Engraçado que dos três dramas, diga-se de passagem muito bons, o que ficou martelando na minha cabeça foi o Dallas Buyers Club, que eu esperava menos. 

Matthew McConaughey surpreendente como Ron Woodrof
Não sei se foi por causa da impressionante atuação de Matthew McConaughey (que convenhamos, pra me impressionar ele tinha que bater as atuações de Meryl Streep e Judi Dench, ou seja, não foi mole não), que definhou para fazer o papel do cowboy de rodeio/eletricista/con man/white trash que descobre que é HIV positivo, em uma época em que o preconceito era escandalosamente maior e os remédios de combate à doença ainda estavam caminhando a passos pequenos (o filme começa em 1985).

O filme conta a história de Ron Woodroof, um texano que descobre a doença em fase já extremamente avançada e, desesperado com os poucos avanços do AZT, droga aprovada pela FDA e ainda em testes, busca novas drogas no México. Porém, com o tempo e sua melhora, Ron acaba não só tomando os remédios mas abrindo um negócio aparentemente muito comum naquela época chamado Buyers Club. Como as drogas estavam classificadas como vitaminas ou não catalogadas como ilegais no país pela FDA, ele passou a vendê-las para outras pessoas, em um valor mensal de 400 dólares, criando assim o Dallas Buyers Club. 

Não vou contar mais da trama, mas o filme é bom, conta uma história verídica (o que eu também não sabia), e faz uma crítica ferrenha à FDA e sua relação com a indústria farmacêutica nos Estados Unidos. A crítica não é infundada, vide a enorme influência política que essa indústria exerce lá. Ron, nos percalços de sua busca pela sobrevivência, conhece o drama de muitas pessoas com HIV, aprende a ser tolerante, dá um show de persistência e ainda ignora os médicos que, calados por força da carreira, não questionavam os terríveis testes feitos com doses altíssimas de AZT em pacientes com estágio avançado da doença.

Ron e Rayon, a transsexual vivida por Jared leto

Pena que a Jennifer Garner não acompanha McConaughey na atuação. Está sofrível, acho que melhor um pouquinho do que seu papel como Electra (que convenhamos, está longe de ser seu melhor desempenho vide a tragédia cômica que foi Demolidor, né?) Em compensação, Jared Leto está ótimo como o transsexual Rayon. Emagreceu horrores também para o papel!

De quebra vou postar uma foto de McConaughey que está incrivelmente magro, esquelético, e com certeza se doou para o papel, não só pelo sacrifício do corpo mas também pela atuação incrível, que creio eu baterá Leonardo di Caprio em O Lobo de Wall Street (se bem que o páreo é duro).

Este é o Matthew McConaughey!


(Publicado no facebook em 20.02.14)

Blue Jasmine (2013)


Vi Blue Jasmine ontem. Engraçado que não sou fã do Woody Allen de carteirinha, não conheço a trama de muitos dos seus filmes mais famosos e não tenho um filme preferido dele, mas gosto muito de seus roteiros (nem vou discutir a polêmica recente sobre ele, mas sim seu filme). Muitos filmes dele que vi têm roteiros ótimos e que se baseiam em ações do cotidiano que nos fazem refletir bastante sobre as relações humanas. Acho que existem muitas expectativas do público em ver comédias feitas por Allen, mas Blue Jasmine não é um filme engraçado. É um drama que não nos faz rir da protagonista ex-milionária e ex-socialite que perde tudo o que tem. 

Cate Blanchett sensacional como Jasmine
Nos faz sentir pena da protagonista, às vezes raiva, às vezes empatia. As situações tragicômicas que Allen descreve tão bem estão ali no filme, mas tive a impressão que o olhar crítico sobre as diferenças de classe está muito mais aguçado neste filme. Jasmine, personagem título, interpretada por Cate Blanchett, é um ótimo exemplo da premissa "dinheiro não traz felicidade". Tanto dinheiro, tantos remédios, tantas redes de relacionamento, tantas poses de família perfeita na casa de praia, tantas roupas de marca...ter não significa ser feliz. Mas para Jasmine, o dinheiro e a vida de luxo a farão feliz, e ela acredita nisso piamente - mesmo quando as únicas coisas que tem são a compaixão da irmã, de seu namorado e de seus sobrinhos. Em compensação, sua irmã adotiva, pobre, divorciada, cafona, namorada de um mecânico de carros e com dois filhos é muito mais feliz que Jasmine, pois não sonha com aquilo que não tem - ou que não é. 

Jasmine, Ginger (Sally Hawkings) e amigos e Ginger em selfie coletivo 



Engraçado que deu vontade de ver o filme novamente assim que ele acabou. É assim com os filmes de Allen, cada vez que os vejo, dá vontade de refletir sobre outras questões vendo-os de novo. 

É importante ressaltar que Blue Jasmine também não seria a mesma coisa se Cate Blanchett não tivesse uma interpretação tão arrebatadora quanto esta. Pra mim, disparada uma das melhores interpretações de 2013. Ela domina a cena, brinca com o espectador, fazendo-nos sentir empatia e raiva, ao mesmo tempo, por sua personagem. Mas Cate não está sozinha. Apesar da atuação maravilhosa da protagonista, a coadjuvante Sally Hawkins (de A Revolução de Dagenham) também tem uma atuação primorosa. Elas são opostos em personalidade e atitude, e são absolutamente sensacionais na criação desta oposição. Não me surpreendo se Blanchett e Hawkins ganharem o Oscar este ano.


(Publicado 06.02.14 no facebook)

domingo, 20 de outubro de 2013

Gravidade (EUA, 2013)

Vi ontem Gravidade, no Imax da Barra, e não podia ter tomado decisão mais acertada. Gravidade é um daqueles filmes pra se ver em grandes salas com som e projeção impecáveis, pois ele é um deleite para os espectadores. As imagens do espaço são inacreditáveis, e o filme prima pela beleza estética o tempo todo.

 Cena do espaço lindíssima

Dito isso, achei Gravidade, enquanto enredo e história cheia de nuances filosóficas, não aquilo que eu esperava. Se por um lado eu sabia que ia me deslumbrar com o visual, por outro as críticas diziam que o roteiro do mexicano Alfonso Cuarón (que eu conhecia por dois filmes bem díspares, E tua mãe também e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) era impecável e de tirar o chapéu. Sob a direção também de Cuarón, o filme é um belíssimo exemplo de direção de atores, que interpretam de forma belíssima no longa. Porém, o que eu achei que deixou a desejar no filme foi justamente o roteiro, pois parece que ele transita entre 2001 Uma Odisseia no Espaço com uma aventura espacial empolgante, como Apollo 13, me deixando um pouco confusa em relação ao objetivo dos autores: ação Hollywoodiana típica ou filme existencial e desafiador, no que concerne principalmente aos desafios enfrentados no espaço pela Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock).

 Bullock no espaço

O filme se inicia justamente com a Dra. Stone e o Comandante Matt Kowalski (interpretado por George Clooney) fazendo reparos na estação espacial norte-americana, quando, devido à uma chuva de detritos provocada por uma destruição de satélite russo pelo próprio país, os astronautas se veem numa situação de risco enorme e começam a se virar para sobreviver à catástrofe, se tornando os únicos sobreviventes nesta viagem.

Visto este roteiro inicial, que já começa de forma bastante tensa, o telespectador se vê envolvido por uma série de situações angustiantes, mergulhando no filme de cabeça. os efeitos visuais aumentam essa situação de angústia, pois a impressão que o filme dá é que de fato, estamos no espaço. Dra. Stone e o Comandante Kowalski são personagens feitos para nós gostarmos deles, um pela simpatia e definição típica do herói, e ela pela angústia de ser "astronauta" de primeira viagem, uma cientista no espaço, que tem dificuldades em estabelecer uma relação de amizade ou camaradagem com a tripulação.


 Sandra Bullock e George Clooney em cena inicial do filme

Os dois personagens foram muito bem construídos e, diga-se de passagem, muito bem dirigidos. Mais uma vez acho que o trabalho do diretor foi brilhante, pois os atores estão tão bem, mas tão bem nos papeis, que em apenas cinco minutos de filme você já tem empatia com eles. O filme tem uma técnica incrível, não à toa Cuarón demorou cinco anos para finalizá-lo, e por si só, seus efeitos especiais já ganharam o Oscar (minha aposta, pois merece). Porém, o filme, na minha opinião, peca pela quantidade de cenas angustiantes e de ação em que os personagens o tempo todo se veem envolvidos, o que faz a gente achar o roteiro um pouco "demais", já que a ideia é que ele seja bastante fiel ao que ocorre com astronautas no espaço.

 Mais uma cena com visual lindo do filme

No final das contas, saí do cinema um pouco zonza (o Imax tem um som altíssimo e a definição das imagens até assusta, mas o filme tem muitas cenas de astronautas girando, cápsulas espaciais girando, objetos espaciais vindo em sua direção, então prepare-se!) e com a impressão de que o roteiro poderia ser melhor trabalhado, analisando mais a condição humana no melhor sentido "nós somos apenas um grão no universo", e deixando um pouco de lado cenas de ação encadeadas que acabam deixando o filme inverossímil demais.

 Uma das cenas mais bonitas do longa, com Bullock parecendo um bebê no útero

Para concluir, aplaudo Gravidade pelos efeitos especiais impressionantes, pela atuação de Bullock, principalmente, que está muitíssimo bem no papel da Dra. Ryan Stone, e pela direção, que só fez o filme ficar melhor. De fato, é um filme que deve ser visto.

domingo, 13 de outubro de 2013

Jobs (2013) & Piratas do Silicon Valley (1999)

                                                  Ashton Kutcher interpretando Jobs

Voltando ao blog! Agora, mais serena e com mais gás, com o objetivo de continuar aquilo que comecei há três anos e amo: falar, assistir, discutir e respirar cinema!

Muitos foram os empecilhos para que eu retornasse: terminei minha tese de doutorado e estou mais descansada depois de quatro anos e meio muito confusos e muito atarefados. Além de, é claro, serem mentalmente estressantes.

Começo esta nova fase do meu movieblog falando sobre não só um filme, mas dois que resolvi assistir logo após o outro. Na verdade, um me trouxe muitas perguntas, e assim busquei o outro atrás de respostas.

Steve Jobs e o grupo de amigos construindo o Apple I na sua garagem

Jobs é um filme novo, bem recente, que fala sobre o Steve Jobs, criador da Apple, e sua vida polêmica no mundo da Informática. Sem dúvida, Jobs foi importantíssimo para a mudança que ocorreu do computador profissional para o pessoal, na década de 1970. Revolucionária, de fato, pois mudou a nossa concepção de mundo. Porém, o filme Jobs deixou lacunas que foram preenchidas, é claro, após ver Os Piratas de Silicon Valley, de 1999, que conta a mesma história mas sob um enfoque bastante diferente.

O filme relata a vida do fundador da Apple de forma intimista e focando na relação dele com Steven Wozniak e as pessoas que o rodearam - namorada, diretores, funcionários, amigos (ou amigo: Wozniak). Steve Jobs foi uma pessoa polêmica porque apesar de toda a revolução proporcionada pelo PC, que foi sim, de certa forma, visionada por ele, ele tinha atitudes bastante desagradáveis com as pessoas que o rodearam. Era reconhecido como narcisista, sádico, tratava mal seus funcionários (criava turnos de 50 horas para o "funcionário que vestia a camisa da empresa", um verdadeiro "Pirata"), e por aí vai.

Como que alguém tão mal vista pela maioria das pessoas que já tiveram trato com ele pode ser tema de um filme na atualidade? Bom, penso eu que a vida dele teve um final trágico mas ao mesmo tempo, de triunfo. Além disso, disse o meu namorado, ele era extremamente midiático - o que o filme deixa transparecer bem.

Jobs e Wozniak com o Apple I

Jobs, entretanto, me deixou algumas dúvidas, que sanei vendo um segundo filme, mais antigo e menos conhecido, de 1999, e que por isso não mostra as mudanças enormes que a Apple passou com lançamento do Iphone, Ipod e Ipad. Os Piratas de Silicon Valley é um filme bem mais interessante, na minha opinião, e muito mais fiel à realidade. Não foca no Jobs, mas na trajetória de vários personagens que viveram o momento de crescimento da indústria da informática e de transformações nas décadas de 1970 e 1980. Nele, são retratados com muito mais ênfase Steve Wozniak (que foi, de fato, o gênio por trás da empreitada da construção do primeiro PC, ele foi o engenheiro que fez toda a máquina!), Bill Gates, Paul Allen, entre outros. Os protagonistas são vários, e não um só.

Os Piratas segue uma linha um pouco mais ligada à meta-linguagem, e deixa bem claro a evolução dos PCs para o espectador que não entende (nem um pouco) estas mudanças operacionais, de sistemas, de hardware.

Noah Wyle interpretando Jobs

Fiquei bastante impressionada quando soube, por exemplo, que a Xerox tinha um centro de pesquisas em Palo Alto que criou o mouse, a interface gráfica, entre outros vááários componentes importantíssimos para o PC que hoje são usados no mundo inteiro, e a empresa rejeitou os mesmos, cujas patentes foram vendidas para a Apple. Fiquei mais impressionada ainda de ver que Bill Gates não foi tão bom moço assim. Era um belo capitalista, se envolveu em uma enorme polêmica por literalmente criar o Windows, um sistema aperfeiçoado, a partir do software da Apple que teve contato devido a um acordo firmado entre a Microsoft e a empresa. No meu entender, ele visualizou algo novo (mais fácil de ser usado e mais bonito esteticamente), e lançou com peso no mercado. Além disso, o filme enfatiza o papel importantíssimo que Wozniak teve nessa empreitada toda e, além de tudo, sua trajetória humilde com as pessoas que o conhecem.

Jobs e Gates

No final das contas, creio que ver os dois filmes é bem mais interessante que um só - quem quiser saber um pouco mais da vida do Steve Jobs, veja Jobs, mas pra entender melhor este momento de transformações na Ciência da Computação, acho melhor ver Piratas. Os dois, na verdade, se completam.

Em relação à estética, creio que Piratas teve um orçamento bem mais baixo, mas com um roteiro bem mais fiel à realidade. No final, gostei de ver os dois filmes e me interessei bastante pois descobri que aqueles objetos que fazem parte do meu cotidiano (internet, notebook, e-mail) foram, um dia, apenas sonhados por várias pessoas - que tornaram isso tudo realidade. O mundo mudou, e vem do desenvolvimento da computação a boa parte das mudanças das quais usufruímos hoje. Uma verdadeira revolução, pois é inegável dizer que vivemos uma nova era com o surgimento do computador pessoal.

PS: Passei a adorar o Steven Wozniak :D

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O casamento de Muriel (Muriel's Wedding)






Bem, falei que ia rever O Casamento de Muriel, e acabei revendo! Era algo que queria fazer há muito tempo, pois é um filme que gosto muito.

O Casamento de Muriel é uma produção australiana de 1994, que tem no papel principal Toni Collette, interpretando Muriel Heslop. O longa pra mim é uma fábula de Cinderela (ou Uma Linda Mulher) ao avesso, pois na verdade, é bem mais consciente e Muriel se descobre, ao invés de atribuir a um homem ou como é vista pela sociedade, as respostas para a sua felicidade, vivendo uma viagem ao seu próprio interior, se valorizando por suas qualidades ao longo do filme.

Muriel é uma jovem de vinte e poucos anos, que vive em uma família repleta de problemas e em uma vida de marasmo na fictícia Porpoise Spit, na região de Queensland, a "Gold Coast" da Austrália(o nome da cidade é algo como "cuspe de boto", uma brincadeira provavelmente muito divertida para o roteirista, que é o diretor também e que nasceu em Queensland, P.J. Hogan). A cidade é turística e de praia, e não oferece muitas oportunidades além do turismo e do envolvimento político, atividade do pai de Muriel, Bill (interpretado pelo premiado ator australiano Bill Hunter),ex-vereador, ex-deputado e "quase governador". Seu poder local e seu "jeitinho" para resolver as coisas acaba o levando a ser uma das figuras mais emblemáticas do filme, pois ele atribui todos os problemas à família, que chama de inúteis, sem atribuir a seus próprios atos ilícitos e jeito de viver a personalidade que os filho desenvolvem.

Muriel não se veste bem, não é muito bonita, é gordinha, nunca teve emprego fixo por muito tempo, vive de mesada nas casas do pai, nunca teve namorado e sempre sonha acordada em seu quarto ouvindo Abba, seu grupo musical favorito. Muriel vive em uma bolha de conforto e de marasmo, até que suas supostas "amigas", que vivem a botando pra baixo, a excluem do grupo, alegando ela não estar no mesmo nível delas - muito amigas, certo?

Já vou dizendo aqui que a caracterização das amigas e do ambiente em Porpoise Spit é muito legal, pois o local é considerado tão atrasado e cafona que na verdade elas usam uma moda misturada de anos 80 e anos 90, breguérrima. O corte de cabelo, as roupas, a maquiagem exagerada, tudo é bem exagerado mesmo, e hilário para nós hoje, que vemos os anos 1980 como o buraco da moda do século XX.

Assim que Muriel é excluída do grupo, acredita que não tem nada mais para viver e acaba pegando o dinheiro dos pais para conseguir ganhar de volta a amizade das supostas "amigas", que viajaram para uma cara ilha no Taiti. Lá, é ignorada pelas amigas e reencontra Rhonda (Rachel Griffiths), uma ex-colega de escola, que mora em Sidney e conhece uma Muriel legal e divertida. Após o contato com Rhonda, e com medo dos pais devido ao sumiço do dinheiro, Muriel foge para Sidney para dividir apartamento com ela. Lá ela se redescobre, vivendo uma vida feliz e longe de todos que sempre a zombaram.

Porém, a felicidade de Muriel não dura muito. Com seu pai sendo investigado pela Receita Federal e com a repentina doença de Rhonda, Muriel volta a sonhar com aquilo que sempre achou que lhe traria felicidade: o casamento. Assim, acaba respondendo a um anúncio de jornal aonde o técnico de um nadador sul-africano premiado busca uma esposa para que ele fiquei treinando na Austrália e não tenha que retornar à África do Sul. O lindo nadador era tudo o que Muriel queria para realizar seu sonho de casar de branco. Questionada por Rhonda o porque casar era tão importante para ela, ela diz que todas as pessoas que conhece são felizes porque casam, então ela queria mostrar ao mundo que era feliz casando.

No meio tempo de toda a confusão mental na cabeça de Muriel, Muriel acaba redescobrindo o seu valor e o valor da amizade. Um dos papéis importantes do filme é o de sua mãe, uma dona de casa totalmente sem voz e que "vive por viver", na bucólica cidade de veraneio. Sem ser escutada pelos filhos e marido, Betty Heslop (Jeanie Drynan) vê sua filha a roubar, seu marido a trair e sua vida ser reduzida a televisão e afazeres domésticos, ficando depressiva. A depressão da mãe, claramente vista do início ao fim do filme, é um dos pontos fundamentais de mudança de Muriel - ela sempre quis o bem dos filhos, e Muriel a ignorava, como seu pai.

Por esse e mais vários motivos (que não contarei aqui pois já contei demais partes do filme importantes, e daí vão dizer depois que eu estrago o fim do filme) acredito que O Casamento de Muriel é um filme bem feito e interessante, pois ele não trabalha com estereótipos, mas como superar os tais rótulos que a sociedade geralmente cria para que você seja uma "vencedora na vida". Marido, emprego com status, vida social ativa, amigas bonitas, roupas e aparência magra nos padrões das revistas de moda, tudo isso não condiz com Muriel, que se vê desprezada e ignorada, até encontrar forças nela mesma e descobrir que ela tem sim valor, e mesmo que seja diferente dos padrões da sociedade, tem pessoas que a amam e querem estar ao seu lado. Meio clichê? Pode ser. Mas só sei que de Cinderela e Uma Linda Mulher já estamos todas cheias, né? Nenhuma mulher é perfeita, e nenhum príncipe vai vir te buscar no cavalo branco se no final, você não buscar dentro de si mesma a felicidade.