domingo, 24 de julho de 2011

Meia-noite em Paris (Midnight in Paris)



O filme Meia-noite em Paris é uma agradável surpresa. Woody Allen é conhecidamente um autor que faz filmes bem distintos da indústria de cinema, simples, com diálogos deliciosos e uma análise psicólogica das personagens - em uma própria releitura dos seus pensamentos. Sua cidade natal, Nova York, deixou de ser cenário exclusivo de seus filmes há muito tempo, desde que ele decidiu utilizar incentivos em outras cidades e trazer um diferencial a seus filmes, que incluem a leveza e sensação de novidade a cada lugar que ele retrata. Em Meia-noite em Paris não é diferente, ele retrata a "cidade luz" de uma forma extremamente elogiosa e, claro, mostrando suas belezas, que são inúmeras.

O longa tem sido considerado um dos melhores do autor, que como sempre se sobressai a cada ano com uma novidade que cá entre nós, nos faz ter vontade de ir ao cinema. Já critiquei aqui filmes com efeitos especiais extremos e a falta de roteiros de qualidade no cinema Hollywoodiano. Por isso Allen não é Hollywoodiano - ele se recusa a transformar seus filmes em máquinas de dinheiro. Com poucos recursos, atores que pedem para ter um papel em seu filme - de graça - e com os incentivos das cidades que ele escolhe para filmar, Allen tem total liberdade de falar o que quer, mostrar o lado mais engraçado e interessante de suas personagens sem se preocupar com as críticas. É claro que as críticas são importantes - mas Allen deixou de dar bola para elas há muito tempo. Por isso, é sempre um prazer assistir a um filme de Allen no cinema. E recomendo que todos o façam. Baixar filmes dele...não vale a pena. A experiência do cinema é insubstituível.

O filme retrata a história de Gil (Owen Wilson), um roteirista de filmes na Califórnia que se aventura a escrever seu primeiro romance, devido à mesmice e falta de criatividade que acredita existir na indústria de Hollywood (alfinetada básica). Ele viaja com sua noiva e os pais dela para Paris, entusiasmado com as possibilidades de talvez convencer sua noiva a viver em uma cidade que, como ele mesmo diz, pode ser apreciada na chuva, onde é possível carregar uma baguete debaixo do braço, conversar em bistrôs com estranhos ou simplesmente sentar em um café e apreciar o ar nostálgico e "respirar história". Sua noiva, Inez (Rachel McAdams), por outro lado, sonha comprar uma casa em Malibu, quer que Gil ganhe dinheiro escrevendo roteiros para a indústria de cinema e não suportaria viver numa cidade como Paris. Nesse ambiente de tensão entre as duas personagens, Gil tenta finalizar seu primeiro romance, usando como referência autores americanos consagrados na literatura e que viveram a intensa atividade cultural da década de 1920 em Paris - cidade que abrigou artistas, intelectuais, cantores, e promovia uma cultura inovadora nos chamados "anos loucos" ou "era do jazz".

Cansado dos passeios de compras e culturais com o amigo "pseudo-intelectual" de sua esposa (papel de Michael Sheen, outra alfinetada de Allen a pessoas que tem "verborragia" sobre assuntos culturais mas que na verdade pouco entendem em profundidade do assunto), Gil decide passear em Paris sozinho e uma certa noite, uma antigo limusine modelo Ford para em sua esquina e eis que surgem Zelda e Scott Fitzgerald, o convidando para entrar e ir à uma festa. Estupefato, Gil é transportado no tempo e conhece todos os artistas e escritores que tanto admira do período. Conhece também uma jovem amante de Pablo Picasso, Adriana (Marion Cotillard), a qual começa a se interessar.

Maravilhado pelos encontros com Gertrude Stein (Kathy Bates), que gentilmente lê seu romance, e com as conversas com o novo amigo Ernest Hemingway, além da presença de Adriana, Gil começa, cada vez mais, a viver a cidade, a história e a cultura dos anos 1920. Porém, como Woody Allen bem mostra, o futuro de Gil não está no passado, mas sim naquilo que ele trilha no presente - seu relacionamento com Inez, sua vida como roteirista nos Estados Unidos e sua visão de mundo compartilhada com os novos amigos parisienses.

Meia-noite em Paris é uma história leve, porém que de despretensiosa não tem nada, sobre a vida e as decisões que tomamos - e como em um rápido segundo tudo pode mudar. É inevitável que lembremos da Rosa Púrpura do Cairo, filme de realismo fantástico também de Allen, cuja personagem de Jeff Daniels também se chama Gil. Através da personagem principal de Meia-noite em Paris, Woody Allen pode ser nitidamente percebido. A incorporação de seus trejeitos e forma de falar, cuidadosamente trabalhado pelo Owen Wilson, personagem principal, é impressionante. Talvez, este seja o melhor papel de sua carreira. Rachel McAdams, excelente atriz, está ótima no papel da noiva impaciente e mimada de Gil. O filme conta ainda com pequenas mas marcantes participações de atores como Kathy Bates, Adrien Brody, Marion Cotillard e até mesmo Carla Bruni, que ganhou um pequeno papel no longa (pequeno mesmo - e dispensável também).

Meia-noite em Paris, como a maioria dos filmes de Allen, nos deixa feliz ao sair do cinema, esperançosos com os caminhos que a vida nos proporciona e com uma vontade muito, mas muito forte, de visitar a bela cidade que merecidamente foi escolhida como parte, e não apenas como cenário, de seu filme.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da morte - 1 e 2 (Harry Potter and the deathly hallows - Parts 1 and 2)

Harry Potter é o nome de uma série de filmes, baseada em uma saga de livros infanto-juvenis que conta a história de um menino órfão, rejeitado pela família, que descobre que na verdade é um bruxo e super conhecido em um estranho mundo mágico, onde ele pode fazer tudo que sempre quis e conquista carinho e amizade de pessoas que cruzam seu caminho. Bom, quem não conhece a história de Potter? A saga de livros escrita por J. K. Rowling ganhou status de blockbuster mundial ao ser lançada em filmes, e por isso mesmo, acabou gerando uma renda considerável cinemas afora. Se você é fã de Harry Potter - como eu - ou não é fã, pode assistir a todos os filmes e apreciar a história do pequeno bruxo que acaba se tornando um grande homem. E esta é a real história de Harry Potter: se tornar uma pessoa madura. Muitos jovens estão lamentando o fim da saga, pois esta atravessou a vida deles - a infância e a adolescência, justamente o momento em que eles estavam se tornando adultos.

O primeiro livro da saga, Harry Potter e a pedra filosofal, foi lançado em 1997, e o último, As relíquias da morte, em 2007. A geração de crianças de 11 anos, como Harry, em 1997, hoje tem 25 anos. Claro, todas cresceram. Harry Potter marcou época e é inegável que arrebatou recordes de vendas ( 450 milhões de exemplares de livros vendidos) e se tornou uma das maiores sagas contadas nas telas, traduzida pela Warner, que abocanhou bastante dinheiro com isso(cada filme contou com mais de 900 milhões de dólares de renda de bilheteria, além de jogos, produtos e até um parque temático inaugurado na Disney, que rendem também um dinheiro considerável a autora e aos estúdios Warner e Disney).

J. K. Rowling, uma ex-secretária que afundada em dívidas, escreveu o primeiro livro em um café com o carrinho de bebê do lado (pois não tinha dinheiro para pagar aquecimento em casa), é considerada uma verdadeira “self-made woman”: do nada, conquistou um império, se tornando a segunda mulher mais rica do Reino Unido (após a própria rainha). Assim sendo, vamos ao filme.

Harry Potter e as relíquias da morte conta a história do jovem bruxo (Daniel Radcliffe), já com 17 anos, que junto com Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint), seus fieis amigos e escudeiros, pretendem acabar com Lorde Voldemort (Ralph Fiennes), o bruxo que quer matar Harry Potter e dominar o mundo mágico, destruindo os hoarcruxes, que são objetos mágicos que permitem que Voldemort continue vivo. No meio do caminho, Harry descobre o que Voldemort deseja, além de dominar o mundo mágico: os três amuletos (ou relíquias) que podem fazer com que um homem seja imortal. Assim, Harry e seus amigos se lançam em uma jornada para atingir seu objetivo, fugindo dos dementors e caçadores de recompensa, além dos soldados de Voldemort, que os procuram (Harry se torna o procurado número um do mundo mágico), após a morte do diretor da escola Hogwarts, Alvus Dumbledore (Michael Gambon). Dominada pelos mágicos que apoiam Voldemort, e com Severus Snape (Alan Rickman) como diretor, Hogwarts vive dias sombrios: os alunos não podem se expressar e são punidos severamente, além de serem obrigados a ter aula de magia negra todos os dias. Harry, Hermione e Ron desistem do ano escolar, e escondidos em uma floresta, tentam desvendar onde estão os hoarcruxes que restam, além daqueles já destruídos.

No meio do caminho, Harry é ajudado pelos bruxos da Ordem de Fênix que, mesmo sofrendo baixas e com a morte do Ministro da Mágica, permanece escondida apostando em Harry a única esperança que resta para acabar com o exército de Voldemort e para que impere a paz no mundo mágico. Em uma alusão ao nazismo, Harry, Ron e Hermione vêem esse exército sendo treinado cegamente e a propaganda de ordem sendo imposta nas ruas de Diagonal Alley e no próprio Ministério da Mágica, em uma verdadeira ditadura imposta por Voldemort. No decorrer do segundo filme, a situação fica mais difícil de ser controlada, uma vez que Voldemort se torna mais poderoso, matando e prendendo inimigos, e Harry retorna a Hogwarts, para, junto com os jovens alunos, lutar de igual para igual com os mágicos malvados que acompanham o “Lorde das trevas”.

Destaca-se nesse filme Neville Longbottom (Matthew Lewis), a criança gordinha e desajeitada, que cresce e se torna o líder de Hogwarts contra o exército de Voldemort, o verdadeiro herói do filme. Outro destaque vai para Alan Rickman, que interpreta Severus Snape, em uma atuação emocionante de Rickman e um dos melhores momentos dos filmes/livros de Potter. É claro, não podemos deixar de destacar Ralph Fiennes, o Lorde Voldemort, que também está brilhante no papel, e em toda a saga interpreta de forma perfeita o verdadeiro “mestre do mal”. Outra personagem que é necessário destacar é Dobby, o elfo livre, que se transforma em um verdadeiro herói no final da primeira parte do filme.

Dirigido por David Yates, e com a participação de alguns dos atores mais brilhantes da Grã-Bretanha, como Alan Rickman (Snape), Ralph Fiennes (Voldemort), Helena Bonham Carter (Belatrix, em um papel feito para ela), Julie Walter (Molly Weasley), Robbie Coltrane (Hagrid), Gary Oldman (Sirius Black), a espetacular Maggie Smith (Prof. Mcgonagall), o incrível John Hurt (Ollivander), entre muitos, muitos outros que participaram dos filmes e especialmente destes dois últimos, Harry Potter é um filme que vale - e muito - a ida a um cinema. Não somente pelas interpretações, mas pela história envolvente, bem dirigida e finalização da saga de forma impecável.

O filme As relíquias da Morte é um bom desfecho para a saga do bruxo - quem leu o livro, provavelmente chorou no final (eu não chorei...quase :P). Os fãs de Harry Potter com certeza também ficaram emocionados no desenvolvimento da amizade de Hermione e Harry e no desenvolvimento do romance de Hermione com Ron. O livro é enervante em algumas partes, descritivo demais em outras, mas emocionante no final. Tudo traduzido para as telas de forma excepcional.

Geralmente as traduções de livros pro cinema deixam a desejar, mas aqui, é o contrário: os filmes traduzem em imagens a mágica proporcionada por Rowling, e os detalhes, em exatidão àquilo que é lido. À medida que o filme passa, você relembra os diálogos desenvolvidos no livro, com a mesma intensidade, na trama. É bom reiterar que Ron, Hermione e Harry, mesmo que personagens principais, são ofuscados nesta obra por Neville Longbottom, em um final heróico e espetacular (que é claro que eu não vou comentar aqui, não sou spoiler). Ver a evolução de Neville na saga é emocionante.

Ok, ok, sei que geralmente faço críticas positivas dos filmes e deixo de lado as partes negativas. Mas, neste filme, não há o que contestar: a história flui rapidamente (até por ser uma continuação) e ocorre o fechamento de uma história bem escrita e bem pensada para as telas, com efeitos especiais excelentes (o que era de se esperar) e atuações emocionantes. Não há muito mesmo o que reclamar. Os atores principais são jovens atores que, apesar dos dez anos de filme, ainda estão começando na arte de atuar – por isso, é previsível que sejam ofuscados por atores antigos e premiados. Mesmo dividido em dois que, é claro, gerou lucros imensos para a Warner, seria necessário um filme de quatro horas mesmo para contar a história do livro de 780 páginas, de uma forma bonita e merecedora de atenção.

Eu sou fã de Harry Potter e por isso, assistir as Relíquias da Morte foi uma experiência emocionante - mesmo já sabendo o final há três anos. Não cresci lendo os livros, e por isso acho que o final da saga foi muito mais impactante para os milhares de adolescentes e jovens adultos que, de repente, viram sua infância passar e a idade adulta chegar – acompanhando a vida do bruxinho famoso e vendo que ele, também, como todo o mundo um dia, se tornou adulto.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A Revolução de Dagenham (Made in Dagenham)


Assisti ao ótimo A Revolução de Dagenham, filme britânico de 2010, dica da blogueira Lola (www.escrevalolaescreva.blogspot.com), cujo blog comecei a visitar recentemente. Filmes com mulheres poderosas ocupando lugares dominados por homens sempre pareceram interessantes para mim (vou rever Norma Rae, filmaço, com Sally Fields como ativista sindical, e postarei a crítica aqui). Ainda mais esse filme, que contém depoimentos das verdadeiras costureiras da fábrica Ford de Dagenham no final, cujo roteiro foi baseado no depoimento das mesmas - como historiadora, deu vontade de entrevistar todas elas.

O filme conta a história das costureiras/maquinistas da fábrica britânica da Ford, em Dagenham, bairro do subúrbio de Londres, que em 1968 ganhavam menos da metade dos salários masculinos e trabalhavam em condições muito ruins, em galpões mal arejados e quentes no bairro. 187 mulheres trabalhavam na montadora no país, que em contrapartida contava com 55 mil homens, e muitos deles faziam serviços considerados skilled (ou seja, especializados), enquanto o trabalho de costura delas era considerado unskilled (não especializado) - o que fazia cair seus salários. A conformidade das mulheres estava prestes a acabar naquele ano: em uma sociedade machista mas que até hoje é pautada na força dos trabalhadores e poder do Partido Trabalhista, elas começaram a reivindicar mudanças. Vale lembrar que em 1968 muitas coisas aconteciam no mundo: corrida espacial, descoberta da pílula e revolução jovem, entre diversos outros movimentos de busca por direitos femininos, de minorias e de liberdade de expressão que ocorreram na mesma época. Assim, as reivindicações das costureiras de Dagenham estavam de acordo com as mudanças culturais que surgiam. Porém, em um mercado de trabalho tipicamente masculino, a luta a ser travada seria difícil.

Liderando as costureiras nas reuniões sindicais (cem por cento masculinas), Rita O'Grady (Sally Hawkins) decide dar voz ao movimento e em uma demonstração que as mulheres deveriam ser consideradas especializadas e com direitos iguais aos homens na fábrica, se impõe de forma inédita como negociadora, renegando o uso de porta-vozes masculinos na reunião. A greve encabeçada pelas costureiras custou caro a Rita (que no filme, é uma personagem fragilizada, que descobre a sua força na luta sindical - não creio que na vida real fosse assim), e ela sofreu retaliações, ameaças e viu seu casamento quase acabar. Porém, as maquinistas da Ford em Dagenham não cederam - e isso começou a incomodar chefões da indústria e o próprio governo britânico, que estava às voltas com uma série de manifestacões e ações grevistas no país.

O filme enfoca o papel de O'Grady na luta das mulheres, mas também mostra diferentes mulheres na luta pela sua própria libertação. Sandra (Jaime Winstone), maquinista que sonhava em ser modelo, em uma cena brilhante resolve usar seu corpo para uma manifestação contra salários desiguais. Outra personagem interessante é Lisa Hopkins (Rosamund Pike), a esposa de um dos diretores da fábrica e que se sente tolhida intelectualmente por ser uma dona de casa formada em uma das mais renomadas universidades do país porém pouco ouvida pelo marido (me lembrou o filme O sorriso de Mona Lisa, que retrata a situaçao vivida pelas alunas de uma prestigiada escola particular norte-americana que se preparam para o casamento e as funções de uma dona de casa, apesar de muitas prosseguirem os estudos na faculdade - isso na década de 1950).

Entretanto, o papel mais interessante - além de O'Grady - é o interpretado por Miranda Richarson, de forma brilhante, como a Secretária de Estado Barbara Castle. Castle foi uma ativista socialista, com princípios e personalidade fortes e papel de destaque na política britânica, que, entretanto, se viu na situação delicada de conter as manifestações das grevistas, além de ter que ouvir comentários machistas à sua volta sobre a incapacidade das mulheres de tomarem decisões. Richardson interpreta Barbara com imponência e firmeza, algo que não é nem um pouco fácil, devido à trajetória de Barbara Castle e sua força política na Grã-Bretanha.

A Revolução de Dagenham, dirigido por Nigel Cole (lembram? O mesmo de O Barato de Grace), é um filme interessantíssimo por mostrar diferentes mulheres e um mesmo propósito - sua afirmação no mercado de trabalho, com igualdade de direitos. Algo que discutimos hoje de forma tão banal, pois é inaceitável você ganhar menos realizando a mesma função de um colega homem, há quarenta anos atrás era um tabu. O filme tem também uma excelente reconstituição de época (como de praxe nos filmes britânicos), uma participação muito boa de Bob Hoskins (mesmo que pequena) e tem roteiro ágil, sutil e divertido, com situações que vão do completo drama (como o suicídio de uma personagem) aos risos (como a atuação do marido de O'Grady tomando conta da casa e dos filhos, enquanto ela participa das reuniões sindicais e manifestações). Vale a pena conferir - homens e mulheres.

domingo, 22 de maio de 2011

Rio Congelado (Frozen River)


Assistir Rio Congelado (Frozen River, 2008) com esse friozinho que tem feito no Rio pode ser um tanto quanto incômodo. Isso porque como o nome diz, Rio Congelado se passa numa região muito, muito fria, de fronteira entre o estado de Nova York, EUA, e a província de Quebec, no Canadá, no inverno congelante habitual. Você chega a sentir o friozinho na espinha em algumas cenas. Entretanto, não deixem de ver o filme por isso. Eu assisti e gostei bastante. Me lembrou Inverno da Alma (Winter’s bone), pela mesma sensação que me deu. Apesar de não ser um suspense como Inverno e sim uma história dramática, ele tem o mesmo clima escuro/noir e uma temática de crítica social e realista. O longa conta a vida de uma mãe de família miserável (apelidados de white trash, brancos e pobres do interior), Ray (Melissa Leo), que para se sustentar e sustentar seus filhos, e não perder a casa nova comprada (daquelas já prontas por encomenda, coisa que só tem por lá mesmo), acaba entrando na contravenção, traficando imigrantes ilegais pela fronteira.

Rio Congelado também retrata a vida de uma outra mulher, que acaba “esbarrando” em Ray, e que tem peso igual ao da protagonista no filme. Lila (Misty Upham) é uma jovem moicana, que vive na reserva indígena retratada pelo longa, na região de Akwesasne (St Regis Mohawk Reservation). Lila vive, como bem é retratado, à margem da sociedade, passeando por diversos locais na reserva e convivendo com diversas personagens como ela, invisíveis. Na reserva a jogatina é liberada, ninguém pode ser preso, mas também não há oportunidades para nada. Lila vive de “bicos”, pois se envolvera com o tráfico de pessoas para ganhar dinheiro fácil, passando imigrantes pelo território moicano onde a legislação norte-americana não a atinge, e por isso não consegue emprego fora da reserva. O tráfico só é possível devido ao congelamento do rio Saint Lawrence que separa as duas regiões na época do inverno. A travessia, feita por carro, leva menos de uma hora, e já na fronteira norte-americana, os imigrantes são recebidos por um dono de hotel ligado ao esquema. Ray, desesperada em com medo de perder a casa nova por falta de pagamento na semana de véspera do natal, dirige até a reserva indígena para procurar o marido no cassino local. Lá encontra Lila, que lhe faz uma oferta generosa para transportar uma mercadoria entre os países. Ray aceita quase que prontamente, mas ao chegar lá, se surpreende com a “mercadoria”: imigrantes chineses e indianos, que se escondem no porta-malas de seu carro para fazer a travessia. Após o susto da primeira viagem, Ray acaba querendo mais dinheiro e procura Lila, que se torna sua companheira de viagens pela reserva, dividindo os lucros.

Rio Congelado acaba focando, no final das contas, na relação de amizade entre as duas, que de desconhecidas acabam criando laços: Lila tem um filho pequeno que não vive com ela, Ray tem dois filhos e tenta ser uma mãe presente; Lila vive em um trailer e na pobreza da reserva, sem perspectiva de vida; Ray não tem perspectiva nenhuma de vida, reservando isso para seus filhos, a quem proíbe de trabalhar para que completem os estudos e “procurem ser alguém na vida”. As duas acabam conhecendo melhor a outra, e acabam se solidarizando com a situação da companheira.

Bom, o filme é um drama, oficialmente, e tem cenas bem duras (como a de um bebê filho de imigrantes “esquecido” na neve), portanto, aconselho quem não está acostumado com filmes pesados a ver com calma. Porém, ele retrata um quadro dos Estados Unidos que, mais uma vez, só o cinema independente mostra: a pobreza, miséria e a situação de vida da população indígena (que se não me engano, só vi uma crítica igual em Sinais de Fumaça, de 1995!). A vida em “preto e branco” da população miserável do interior, em uma época de recessão e desemprego, é sempre um ótimo “prato” para as críticas governistas, mas creio que retratam uma realidade que é importante ser vista. Enquanto no Brasil as pessoas insistem em afirma que os filmes só mostram pobreza, favela e violência e os estrangeiros acabam associando esta imagem ao país como um todo, é enganoso achar que nos Estados Unidos só existem subúrbios bonitos, uma vida de luxo e praia na Califórnia e adolescentes de High Schools que não tem mais nada o que fazer a não ser praticar bullying com colegas. Claro que seriados e filmes de ação mostram roubos, gangues, máfia, e violência. Mas não é esse o objetivo de Rio Congelado. O filme faz um retrato simples e realista de duas vidas sofridas e de exclusão, de Ray e de Lila. A interação entre as duas pessoas até então totalmente diferentes dá a tônica ao filme, além, é claro, da crítica social presente no longa.

OBS: destaque para Melissa Leo, atriz que concorreu ao Oscar pelo longa, que está belíssima como Ray. A cena inicial já mostra a personalidade da personagem e detalhe, sem nenhuma fala. Poucas vezes vi um filme com uma primeira cena tão emblemática.

domingo, 24 de abril de 2011

Rio

Feriadão com sol no Rio de Janeiro e e eu acabei me despencando até uma salinha de cinema para ver um filme que instigou a minha curiosidade desde que estreou, Rio. Me instigou primeiro porque tenho um pequeno histórico de trabalhar com história do cinema e principalmente com imagens do Brasil no exterior. Segundo porque o filme foi amplamente divulgado na imprensa brasileira como uma "propaganda" do Rio para a Copa e Olimpíadas que estão chegando. E terceiro porque é dirigido pelo Carlos Saldanha, co-diretor de Era do Gelo e brasileiro radicado nos Estados Unidos. Portanto, fiquei na dúvida se o filme iria reiterar uma imagem estrangeira com estereótipos da cidade ou traria uma imagem diferente, mais ligada à nossa realidade. Bom, essas minhas dúvidas ocorreram porque as animações que já retrataram a cidade, do Disney, e os filmes estrangeiros de Hollywood sobre o Brasil geralmente reiteram estereótipos de samba, carnaval, futebol e natureza. As ideias de que o brasileiro é uma pessoa que não liga para nada, que samba todos os dias, "enrola" o trabalho com a barriga e que vive no meio da Floresta Amazônica são as mais comuns, infelizmente.

Posso assim, portanto, dizer que Rio é um filme com um olhar estrangeiro porém aparece como uma tentativa de não estereotipar da cidade. Ele mostra sim o samba, uma natureza exuberante e brasileiros alegres na comemoração do carnaval. Porém, o cuidado em revelar estas imagens conhecidas pelos estrangeiros vem com um olhar não preconceituoso nem comparativo, mas de tentativa de compreensão da nossa cultura e admiração.

Roteiristas e desenhistas norte-americanos e os brasileiros Renato Falcão (diretor de fotografia) e Saldanha desenham um Rio alegre, bonito e cheio de gente simpática, o que é ótimo para a Copa e para as Olimpíadas, mas também é uma homenagem à cidade que é sim bela e tem sim uma natureza de tirar o fôlego. Os cartões postais, mostrados no filme, são realistas pois a aquipe teve o cuidado de conhecer minuciosamente a geografia da cidade. O laboratório do especialista em pássaros Túlio, fica na Urca, e a livreira norte-americana Linda se hospeda em Copacabana (uma Copacabana hiper realista, com cadeiras de plástico no calçadão e uma Avenida Atlântica perfeita). Além disso, a história das aventuras das personagens-protagonistas da história, as ararinhas azuis Blu e Jade, se desenvolve também na Lapa e em Santa Teresa, mais uma vez retratados com exatidão pela equipe de animação do filme (alguém reparou que até a Catedral e o prédio da Petrobrás aparecem ao fundo do bondinho?)

Rio conta a história de Blu, uma ararinha azul que é pega por traficantes de aves e levada aos Estados Unidos. Porém, no meio do caminho ela é extraviada e encontrada por uma menina, Linda, que cuida da ararinha como se fosse seu melhor amigo. Blu cresce, desenvolve "habilidades" não muito comuns a aves que vivem na natureza (Blu não sabe voar, mas se exercita, lê livros, toma café e ajuda Linda nos afazeres domésticos). Para acabar com a paz de Blu, um belo dia o Dr. Túlio aparece na livraria de Linda, pedindo para que a moça leve a ave ao Rio de Janeiro para acasalar com uma ave fêmea, pois senão a espécie irá acabar. Comovida, Linda leva o leva e aí começa a aventura (dos dois), que inclui uma nova captura dos animais por traficantes, uma incursão de Linda em uma favela (provavelmente Rocinha, pelo que dá pra perceber) para encontrar seu bicho de estimação e o surgimento de personagens-pássaros que ajudam Blu e Jade, a ararinha fêmea, a se livrarem dos traficantes e reencontrarem Linda.

Minha conclusão ao assistir Rio é que, diferente da opinião de parte da crítica de cinema de que ele reitera estereótipos antigos da cidade e do brasileiro, Rio não nega os elementos culturais lugares-comuns no exterior, mas acrescenta a eles um olhar diferenciado, com naturalidade e sem preconceitos.

Uma das cenas mais interessantes se desenvolve na Avenida Atlântica, quando Linda e Túlio avistam um bloco de carnaval, o qual Túlio logo avisa que ela chegou no meio do feriado que é considerada a maior festa do país, e uma bela mulher aparece sambando. Linda, admirada, pergunta se ela é dançarina profissional, e Túlio diz que ela na verdade é a sua dentista, ou seja, uma mulher com uma profissão absolutamente séria e que se diverte no carnaval. Uma segunda cena, dos dois comendo churrasco, demonstra o embaraço da norte-americana ao ver a quantidade de carne servida no restaurante. Não há crítica embutida, mas um recurso de "exagero" da cena, tornando-a mais divertida, muito comum em desenhos infantis.

Para além de um filme infantil com belas paisagens (agora turbinadas com o 3D) e apesar de alguns pequenos escorregões que alguns críticos cismam em reiterar para reafirmar seu discurso de que o Brasil só é retratado como país do samba, mulatas e floresta amazônica, Rio é um retrato absolutamente bem feito da cidade e com uma narrativa cuidadosamente elaborada para que o Rio seja visto de uma forma simpática e bonita. É claro que o filme não mostra os problemas da cidade, ele é uma animação positiva dela e desta forma sim se transforma em um grande carro chefe do país para os eventos que estão por vir. Existem mil problemas na cidade? Existem. Porém, a intenção da animação é entreter. Neste sentido, não cabe a ele criticar coisas que cabem a nós fazermos, como moradores dela ou como brasileiros, até mesmo pelo propósito do desenho, que é infantil.

Saldo final do filme: animação bem feita, com efeitos 3D discretos, uma fotografia linda, história leve, que agrada a todas as idades, e a projeção positiva da cidade no exterior. Bom, alguns deslizes ocorrem, como já comentei, por exemplo quando toca uma música em que os pássaros cantam que estão em Ipanema quando estão na Lapa e a imagem do avião de Linda descendo no Santos Dumont ao invés do Galeão ( e eu li críticas a isso...), que não tiram a beleza do filme. Ele serve para entreter, é claro. É uma animação com um olhar estrangeiro sobre o Brasil, mas sem a intenção de não a ser. E, para terminar, acredito que a tentativa de retratar a cidade e o povo brasileiro sem caricaturá-los foi maior do que a necessidade de mostrar samba, mulher e futebol. Valeu meu dinheiro e eu curti o cinema.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A Época da Inocência (The Age of Innocence)




Estava eu em casa cansada ontem e resolvi rever A Época da Inocência, filme de Martin Scorsese de 1993. Não me lembrava de praticamente nada do filme, só das paisagens da Nova York do final do século XIX e do triângulo amoroso formado por Michele Pfeiffer, Daniel Day-Lewis e Winona Ryder. Como estou estudando o movimento Progressista deste período, achei que o filme seria interessante para visualizar a época. Ver filmes históricos, bem montados, como este, dão uma dimensão muito boa de realidades estranhas à nossa e pouco estudadas no Brasil.

Sem efeitos especiais sofisticados, computação gráfica ousada e com uso de cenários e montagem de época extremamente bem feitos (palavra de historiadora!), Martin Scorsese conseguiu retratar bem um período em que os valores tradicionais esbarravam nas mudanças do mundo moderno - em uma América marcada pelo individualismo, tradicionalismo e círculos fechados de amizade e poder, presentes nas famílias tradicionais da costa leste.

Em 1877, época em que o filme começa, começava também um período de grandes reformas no país. As ruas das grandes cidades, como Nova York, Boston, Filadélfia e Washington, estavam tomadas por obras e fábricas e as cidades aumentavam gradativamente, à medida em que chegavam novos imigrantes. Este período, chamado Progressista, foi um período de luta por direitos da população trabalhadora, das mulheres e foi marcado também pela moralização da sociedade e das instituições políticas. A disputa de poder entre partidos, as greves e manifestações nas ruas, as visíveis modificações nas cidades com o crescimento da pobreza e dos cortiços eram algumas das mudanças verificadas. A ideia da moralização da sociedade, baseada em um protestantismo missionário, na evangelização de imigrantes e na busca por valores familiares trazia incertezas e agitações a uma vida antes bucólica e isolada.

Visto sob uma perspectiva histórica, o filme é ótimo, pois retrata bem em pequenos detalhes as transformações que ocorriam. São pequenas mudanças, como o relance da janela da casa da família de Newland Archer (Daniel Day-Lewis), com a fumaça vinda das chaminés das fábricas, ou a caneta tinteiro nova, oferecida por Archer à Condessa Olenska (Michelle Pfeiffer), para escrever um bilhete. Os costumes tradicionais também estão presentes, como na ópera italiana para onde conflui toda a alta sociedade nova-iorquina ou nos bailes proporcionados pela família Beaufort.

O minimalismo de Scorsese na adaptação do romance de Edith Wharton, e na apresentação do mundo da elite burguesa nova-iorquina, de fato é extraordinário. Dentro da mesma lógica tradicional da sociedade, era inaceitável levar para o círculo social uma pessoa como Condessa Olenska, americana de origem mas vinda da aristocracia francesa, e que deixava para trás regras vistas como obrigatórias nesta sociedade. O uso de roupas pouco apropriadas, atitudes inaceitáveis como se dirigir a homens para conversar, além dos rumores de sua separação com o Conde, que deixara na Europa, eram inaceitáveis. A partir de então, o envolvimento pouco usual da Condessa com Newland Archer, advogado e noivo de sua prima, May Welland, segue uma lógica também minimalista, levando o espectador a cada vez mais compreender a mente de Archer, que sofre por amar alguém que não pode ser amada.

Engana-se quem acha que o filme retrata este triângulo amoroso com cenas fortes ou paixões arrebatadoras. Tudo é muito discreto. Diferente de Ligações Perigosas (de Stephen Frears), que retrata os jogos de sedução e poder entre nobres na França aristocrática, A Época... não nos conduz ao mesmo sentimento de ódio, raiva, ou angústia. Ele simplesmente nos deixa devanear sobre aquilo que era possível e o que não era, em um drama que não nos faz nem chorar, mas suspirar pelos mocinhos, na medida em que May se torna uma figura pouca inocente e manipuladora da vida de Archer.

Em uma das cenas mais emblemáticas do filme, uma das "matronas" da alta sociedade nova-iorquina, Manson Mingott (Miriam Margolyes), envia um convite a toda a alta roda para que compareçam a um jantar de boas vindas à Condessa Olenska. Educadamente, todas as famílias declinam o convite, alegando os mais diferentes motivos. A narradora, neste ponto, aponta que todos viviam em Nova York como em um mundo "hieroglífico", onde a verdade nunca era dita ou realizada, mas representada por sinais arbitrários. Esta cena retrata, de fato, aquilo que é a tônica do filme: o jogo de poderes, a aceitação do novo e a sua mesma rejeição pela tradicional sociedade nona-iorquina da época.

Vale dizer que o conflito interno de Archer é brilhantemente retratado por Lewis. Conhecido por ser uma pessoa extremamente metódica nos sets, Lewis se tornou um "queridinho" de Scorsese, que o dirigiu novamente em Gangues de Nova York (onde interpretou Bill "The butcher" Cutting) e também o fará no novo filme, Silence, novamente um filme histórico, mas passado no século XVIII (que só será lançado em 2013). Sua interpretação é conduzida de forma perfeita, Archer sofre por amar uma pessoa que não poderia, e percebe, com o passar do tempo, estar preso a uma realidade que o faz ser infeliz.

Sobre a chamada "obsessão" de Scorsese pelo período Progressista, não sou lá muito conhecedora do diretor para comentar essa fato. Sei que curti o filme, não só pelo fato de ser historiadora mas porque acho que qualquer um pode gostar da adaptação de Scorsese e como ele retrata, muito bem, esta sociedade e o romance. Para quem quiser ler algumas críticas neste sentido, aqui vão duas que achei muito bem feitas:



Prometo que verei novamente Gangues de Nova York (2002), que se passa nessa época, e postarei aqui a crítica. Vale (muito) a pena rever estes filmes, para quem já viu, e vê-los, para quem não os viu ainda.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei (The king's speech)

Aproveitando o ensejo, aqui vai mais uma crítica de um agora vencedor do Oscar. Eu vi o filme sábado, portanto acho que não estou tão atrasada...:P

O Discurso do Rei é um filme sublime. Bom de todas as formas para todos que gostam de um bom filme, ele ainda causa aquela sensação de satisfação e felicidade quando termina. O Discurso é um filme ganhador de Oscar, de fato. Agrada a todos os públicos, encanta também crianças (e vi muitas na sessão que assisti, assim como adolescentes que se divertiram) e faz os adultos se sentirem mais leve. Ele tem a leveza de um filme despretensioso que por ser tão redondinho e tão agradável de assistir, acabou caindo nas graças do grande público (e críticos de cinema, e votantes do Oscar...).

Pra quem ainda não sabe a história, vamos lá: ele conta a história real (sem trocadilhos!) de George VI, ou o Duque de York, que assumiu o trono em 1936 após seu irmão, rei Eduardo VIII, ter que deixar o mesmo pelo parlamento britânico não aceitar seu comportamento “libertino” e seu casamento com uma norte-americana divorciada (duas vezes, é bom reiterar. Escândalo total :D).

O Príncipe Albert tinha tudo para não ser rei da Inglaterra. Desde jovem, sofria com gagueira e com uma série de doenças estomacais, sendo sempre excluído de eventos com a nobreza. Não tinha aptidão para falar e estar em público, mantendo-se sempre reservado. Além disso, não tinha a personalidade extravagante do seu irmão, que pilotava aviões, viajava pela Europa e era capa de jornais o tempo todo.

O duque (ou príncipe) sofria principalmente de problemas de dicção, que ele adquiriu quando criança, e não conseguia falar em público. Para um filho de estadista, isso é uma coisa séria. Mesmo não prevendo que seria rei um dia, e mesmo que que governasse (no Parlamento britânico o rei não tem poderes maiores do que as câmaras, mas é uma figura simbólica), Albert tinha que saber falar em público, porque muitos ingleses amam sua família real e vêem neles a imagem do Reino. Por esse motivo, Albert era pressionado de todas as formas pelo pai, governantas, professores e a própria esposa, Elizabeth (sim , ela mesmo, a rainha mãe!) a buscar aulas de dicção e médicos que pudessem curar sua gagueira.

Desta forma, o duque de York acaba conhecendo Lionel Logue (com uma interpretação mais uma vez fantástica de Geoffrey Rush), que é um especialista em dicção. Não era médico, não era fonoaudiólogo, mas para a época, convenhamos, a fonoaudiologia ainda era uma especialidade médica, e muitos especialistas em fala não tinham mesmo diploma. Logue era um ator nas horas vagas e especialista em dicção que acabou recebendo Albert de uma maneira um tanto quanto inusitada. O tratava no mesmo tom, não o reconhecia como um nobre dentro de seu consultório e usava de técnicas um tanto quanto ousadas para a época (as cenas dele falando palavrão para impedir a gagueira, por exemplo, são fantásticas).

A relação entre Logue e o príncipe de York dão o tom ao filme, que através de cenas divertidas e também dramáticas, e dos conflitos entre os dois, que muitas vezes acabava em um “tapinha nos ombros” e uma conversa amiga, Albert conseguiu se desvencilhar do seu terror pessoal e avançar na arte da oratória.

O Discurso do Rei é, portanto, um filme que trata de um tema um pouco frívolo de uma certa forma, mas um tanto interessante por outra. Por meio da gagueira do príncipe (e futuro rei do Reino Unido), ele relata a vaidade e os sacrifícios impostos àqueles de sangue azul, em uma época que as coisas não eram tão “light” como hoje (vide o casamento de Middletown com o Príncipe William, uma jovem filha de industrial...uma burguesa!). Assim como o outro lado da nobreza já foi retratado em diversos filmes (como o com nome idem, Maria Antonieta, Ligações Perigosas, A Rainha, e por aí tem vários), o Discurso é imperativo ao avaliar que todo rei, por mais título que tenha, é humano. E assim é Albert, que de príncipe preterido pelo pai se torna rei no momento em que estourava uma guerra que mudou o contexto geopolítico da Europa – e mundial.

O Rei George VI, saiu nos jornais, era simpático aos nazistas, assim como o herdeiro do trono, que visitou a Alemanha hitlerista. Acho que esse argumento para desqualificar o filme é fraco – somente para desqualificar o filme, pois o filme trata da luta de George VI com sua gagueira. Não vou também defender se George Vi era anti-semita ou não, pois não conheço bem sua biografia para afirmar isso. Porém, infelizmente o anti-semitismo era comum na Europa na década de 1930 e muitos países adotaram políticas preconceituosas contra judeus antes da guerra estourar (não me interpretem mal, sou absolutamente contra o anti-semitismo, políticas e ações racistas em qualquer sentido e também acho que Hitler foi um assassino de massa, ok? Estou só fazendo uma avaliação de porque acho que desqualificar o filme pelo fato de se ter indícios de que George VI era racista não é um argumento forte. E de fato o filme não foi desqualificado por isso, pois ganhou o Oscar principal, dado pela Academia que tem uma boa parte de seus integrantes de origem judia).

Voltando ao filme, O Discurso tem, por conseqüência, uma temática que traz à tona questões muito sérias e conscientes da relação entre o povo e seu governante e também do peso que a exposição traz às pessoas.

Sobre o filme, ainda, que arrebatou três oscars, incluindo direção (Tom Hooper) e ator (Colin Firth, o eterno e impecável Mr. Darcy) e roteiro original, para David Seidler, acho que Rush merecia o Oscar de coadjuvante. Porém, não vi a atuação de Christian Bale, o favorito da noite. Reparei muito na estética azulada do filme, bem condizente com a foggy britânica, e também na fotografia fantástica do consultório de Logue.

O Discurso do Rei é um filme, como eu disse, sublime. E posso garantir que não tem quem não goste.