domingo, 24 de abril de 2011

Rio

Feriadão com sol no Rio de Janeiro e e eu acabei me despencando até uma salinha de cinema para ver um filme que instigou a minha curiosidade desde que estreou, Rio. Me instigou primeiro porque tenho um pequeno histórico de trabalhar com história do cinema e principalmente com imagens do Brasil no exterior. Segundo porque o filme foi amplamente divulgado na imprensa brasileira como uma "propaganda" do Rio para a Copa e Olimpíadas que estão chegando. E terceiro porque é dirigido pelo Carlos Saldanha, co-diretor de Era do Gelo e brasileiro radicado nos Estados Unidos. Portanto, fiquei na dúvida se o filme iria reiterar uma imagem estrangeira com estereótipos da cidade ou traria uma imagem diferente, mais ligada à nossa realidade. Bom, essas minhas dúvidas ocorreram porque as animações que já retrataram a cidade, do Disney, e os filmes estrangeiros de Hollywood sobre o Brasil geralmente reiteram estereótipos de samba, carnaval, futebol e natureza. As ideias de que o brasileiro é uma pessoa que não liga para nada, que samba todos os dias, "enrola" o trabalho com a barriga e que vive no meio da Floresta Amazônica são as mais comuns, infelizmente.

Posso assim, portanto, dizer que Rio é um filme com um olhar estrangeiro porém aparece como uma tentativa de não estereotipar da cidade. Ele mostra sim o samba, uma natureza exuberante e brasileiros alegres na comemoração do carnaval. Porém, o cuidado em revelar estas imagens conhecidas pelos estrangeiros vem com um olhar não preconceituoso nem comparativo, mas de tentativa de compreensão da nossa cultura e admiração.

Roteiristas e desenhistas norte-americanos e os brasileiros Renato Falcão (diretor de fotografia) e Saldanha desenham um Rio alegre, bonito e cheio de gente simpática, o que é ótimo para a Copa e para as Olimpíadas, mas também é uma homenagem à cidade que é sim bela e tem sim uma natureza de tirar o fôlego. Os cartões postais, mostrados no filme, são realistas pois a aquipe teve o cuidado de conhecer minuciosamente a geografia da cidade. O laboratório do especialista em pássaros Túlio, fica na Urca, e a livreira norte-americana Linda se hospeda em Copacabana (uma Copacabana hiper realista, com cadeiras de plástico no calçadão e uma Avenida Atlântica perfeita). Além disso, a história das aventuras das personagens-protagonistas da história, as ararinhas azuis Blu e Jade, se desenvolve também na Lapa e em Santa Teresa, mais uma vez retratados com exatidão pela equipe de animação do filme (alguém reparou que até a Catedral e o prédio da Petrobrás aparecem ao fundo do bondinho?)

Rio conta a história de Blu, uma ararinha azul que é pega por traficantes de aves e levada aos Estados Unidos. Porém, no meio do caminho ela é extraviada e encontrada por uma menina, Linda, que cuida da ararinha como se fosse seu melhor amigo. Blu cresce, desenvolve "habilidades" não muito comuns a aves que vivem na natureza (Blu não sabe voar, mas se exercita, lê livros, toma café e ajuda Linda nos afazeres domésticos). Para acabar com a paz de Blu, um belo dia o Dr. Túlio aparece na livraria de Linda, pedindo para que a moça leve a ave ao Rio de Janeiro para acasalar com uma ave fêmea, pois senão a espécie irá acabar. Comovida, Linda leva o leva e aí começa a aventura (dos dois), que inclui uma nova captura dos animais por traficantes, uma incursão de Linda em uma favela (provavelmente Rocinha, pelo que dá pra perceber) para encontrar seu bicho de estimação e o surgimento de personagens-pássaros que ajudam Blu e Jade, a ararinha fêmea, a se livrarem dos traficantes e reencontrarem Linda.

Minha conclusão ao assistir Rio é que, diferente da opinião de parte da crítica de cinema de que ele reitera estereótipos antigos da cidade e do brasileiro, Rio não nega os elementos culturais lugares-comuns no exterior, mas acrescenta a eles um olhar diferenciado, com naturalidade e sem preconceitos.

Uma das cenas mais interessantes se desenvolve na Avenida Atlântica, quando Linda e Túlio avistam um bloco de carnaval, o qual Túlio logo avisa que ela chegou no meio do feriado que é considerada a maior festa do país, e uma bela mulher aparece sambando. Linda, admirada, pergunta se ela é dançarina profissional, e Túlio diz que ela na verdade é a sua dentista, ou seja, uma mulher com uma profissão absolutamente séria e que se diverte no carnaval. Uma segunda cena, dos dois comendo churrasco, demonstra o embaraço da norte-americana ao ver a quantidade de carne servida no restaurante. Não há crítica embutida, mas um recurso de "exagero" da cena, tornando-a mais divertida, muito comum em desenhos infantis.

Para além de um filme infantil com belas paisagens (agora turbinadas com o 3D) e apesar de alguns pequenos escorregões que alguns críticos cismam em reiterar para reafirmar seu discurso de que o Brasil só é retratado como país do samba, mulatas e floresta amazônica, Rio é um retrato absolutamente bem feito da cidade e com uma narrativa cuidadosamente elaborada para que o Rio seja visto de uma forma simpática e bonita. É claro que o filme não mostra os problemas da cidade, ele é uma animação positiva dela e desta forma sim se transforma em um grande carro chefe do país para os eventos que estão por vir. Existem mil problemas na cidade? Existem. Porém, a intenção da animação é entreter. Neste sentido, não cabe a ele criticar coisas que cabem a nós fazermos, como moradores dela ou como brasileiros, até mesmo pelo propósito do desenho, que é infantil.

Saldo final do filme: animação bem feita, com efeitos 3D discretos, uma fotografia linda, história leve, que agrada a todas as idades, e a projeção positiva da cidade no exterior. Bom, alguns deslizes ocorrem, como já comentei, por exemplo quando toca uma música em que os pássaros cantam que estão em Ipanema quando estão na Lapa e a imagem do avião de Linda descendo no Santos Dumont ao invés do Galeão ( e eu li críticas a isso...), que não tiram a beleza do filme. Ele serve para entreter, é claro. É uma animação com um olhar estrangeiro sobre o Brasil, mas sem a intenção de não a ser. E, para terminar, acredito que a tentativa de retratar a cidade e o povo brasileiro sem caricaturá-los foi maior do que a necessidade de mostrar samba, mulher e futebol. Valeu meu dinheiro e eu curti o cinema.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A Época da Inocência (The Age of Innocence)




Estava eu em casa cansada ontem e resolvi rever A Época da Inocência, filme de Martin Scorsese de 1993. Não me lembrava de praticamente nada do filme, só das paisagens da Nova York do final do século XIX e do triângulo amoroso formado por Michele Pfeiffer, Daniel Day-Lewis e Winona Ryder. Como estou estudando o movimento Progressista deste período, achei que o filme seria interessante para visualizar a época. Ver filmes históricos, bem montados, como este, dão uma dimensão muito boa de realidades estranhas à nossa e pouco estudadas no Brasil.

Sem efeitos especiais sofisticados, computação gráfica ousada e com uso de cenários e montagem de época extremamente bem feitos (palavra de historiadora!), Martin Scorsese conseguiu retratar bem um período em que os valores tradicionais esbarravam nas mudanças do mundo moderno - em uma América marcada pelo individualismo, tradicionalismo e círculos fechados de amizade e poder, presentes nas famílias tradicionais da costa leste.

Em 1877, época em que o filme começa, começava também um período de grandes reformas no país. As ruas das grandes cidades, como Nova York, Boston, Filadélfia e Washington, estavam tomadas por obras e fábricas e as cidades aumentavam gradativamente, à medida em que chegavam novos imigrantes. Este período, chamado Progressista, foi um período de luta por direitos da população trabalhadora, das mulheres e foi marcado também pela moralização da sociedade e das instituições políticas. A disputa de poder entre partidos, as greves e manifestações nas ruas, as visíveis modificações nas cidades com o crescimento da pobreza e dos cortiços eram algumas das mudanças verificadas. A ideia da moralização da sociedade, baseada em um protestantismo missionário, na evangelização de imigrantes e na busca por valores familiares trazia incertezas e agitações a uma vida antes bucólica e isolada.

Visto sob uma perspectiva histórica, o filme é ótimo, pois retrata bem em pequenos detalhes as transformações que ocorriam. São pequenas mudanças, como o relance da janela da casa da família de Newland Archer (Daniel Day-Lewis), com a fumaça vinda das chaminés das fábricas, ou a caneta tinteiro nova, oferecida por Archer à Condessa Olenska (Michelle Pfeiffer), para escrever um bilhete. Os costumes tradicionais também estão presentes, como na ópera italiana para onde conflui toda a alta sociedade nova-iorquina ou nos bailes proporcionados pela família Beaufort.

O minimalismo de Scorsese na adaptação do romance de Edith Wharton, e na apresentação do mundo da elite burguesa nova-iorquina, de fato é extraordinário. Dentro da mesma lógica tradicional da sociedade, era inaceitável levar para o círculo social uma pessoa como Condessa Olenska, americana de origem mas vinda da aristocracia francesa, e que deixava para trás regras vistas como obrigatórias nesta sociedade. O uso de roupas pouco apropriadas, atitudes inaceitáveis como se dirigir a homens para conversar, além dos rumores de sua separação com o Conde, que deixara na Europa, eram inaceitáveis. A partir de então, o envolvimento pouco usual da Condessa com Newland Archer, advogado e noivo de sua prima, May Welland, segue uma lógica também minimalista, levando o espectador a cada vez mais compreender a mente de Archer, que sofre por amar alguém que não pode ser amada.

Engana-se quem acha que o filme retrata este triângulo amoroso com cenas fortes ou paixões arrebatadoras. Tudo é muito discreto. Diferente de Ligações Perigosas (de Stephen Frears), que retrata os jogos de sedução e poder entre nobres na França aristocrática, A Época... não nos conduz ao mesmo sentimento de ódio, raiva, ou angústia. Ele simplesmente nos deixa devanear sobre aquilo que era possível e o que não era, em um drama que não nos faz nem chorar, mas suspirar pelos mocinhos, na medida em que May se torna uma figura pouca inocente e manipuladora da vida de Archer.

Em uma das cenas mais emblemáticas do filme, uma das "matronas" da alta sociedade nova-iorquina, Manson Mingott (Miriam Margolyes), envia um convite a toda a alta roda para que compareçam a um jantar de boas vindas à Condessa Olenska. Educadamente, todas as famílias declinam o convite, alegando os mais diferentes motivos. A narradora, neste ponto, aponta que todos viviam em Nova York como em um mundo "hieroglífico", onde a verdade nunca era dita ou realizada, mas representada por sinais arbitrários. Esta cena retrata, de fato, aquilo que é a tônica do filme: o jogo de poderes, a aceitação do novo e a sua mesma rejeição pela tradicional sociedade nona-iorquina da época.

Vale dizer que o conflito interno de Archer é brilhantemente retratado por Lewis. Conhecido por ser uma pessoa extremamente metódica nos sets, Lewis se tornou um "queridinho" de Scorsese, que o dirigiu novamente em Gangues de Nova York (onde interpretou Bill "The butcher" Cutting) e também o fará no novo filme, Silence, novamente um filme histórico, mas passado no século XVIII (que só será lançado em 2013). Sua interpretação é conduzida de forma perfeita, Archer sofre por amar uma pessoa que não poderia, e percebe, com o passar do tempo, estar preso a uma realidade que o faz ser infeliz.

Sobre a chamada "obsessão" de Scorsese pelo período Progressista, não sou lá muito conhecedora do diretor para comentar essa fato. Sei que curti o filme, não só pelo fato de ser historiadora mas porque acho que qualquer um pode gostar da adaptação de Scorsese e como ele retrata, muito bem, esta sociedade e o romance. Para quem quiser ler algumas críticas neste sentido, aqui vão duas que achei muito bem feitas:



Prometo que verei novamente Gangues de Nova York (2002), que se passa nessa época, e postarei aqui a crítica. Vale (muito) a pena rever estes filmes, para quem já viu, e vê-los, para quem não os viu ainda.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei (The king's speech)

Aproveitando o ensejo, aqui vai mais uma crítica de um agora vencedor do Oscar. Eu vi o filme sábado, portanto acho que não estou tão atrasada...:P

O Discurso do Rei é um filme sublime. Bom de todas as formas para todos que gostam de um bom filme, ele ainda causa aquela sensação de satisfação e felicidade quando termina. O Discurso é um filme ganhador de Oscar, de fato. Agrada a todos os públicos, encanta também crianças (e vi muitas na sessão que assisti, assim como adolescentes que se divertiram) e faz os adultos se sentirem mais leve. Ele tem a leveza de um filme despretensioso que por ser tão redondinho e tão agradável de assistir, acabou caindo nas graças do grande público (e críticos de cinema, e votantes do Oscar...).

Pra quem ainda não sabe a história, vamos lá: ele conta a história real (sem trocadilhos!) de George VI, ou o Duque de York, que assumiu o trono em 1936 após seu irmão, rei Eduardo VIII, ter que deixar o mesmo pelo parlamento britânico não aceitar seu comportamento “libertino” e seu casamento com uma norte-americana divorciada (duas vezes, é bom reiterar. Escândalo total :D).

O Príncipe Albert tinha tudo para não ser rei da Inglaterra. Desde jovem, sofria com gagueira e com uma série de doenças estomacais, sendo sempre excluído de eventos com a nobreza. Não tinha aptidão para falar e estar em público, mantendo-se sempre reservado. Além disso, não tinha a personalidade extravagante do seu irmão, que pilotava aviões, viajava pela Europa e era capa de jornais o tempo todo.

O duque (ou príncipe) sofria principalmente de problemas de dicção, que ele adquiriu quando criança, e não conseguia falar em público. Para um filho de estadista, isso é uma coisa séria. Mesmo não prevendo que seria rei um dia, e mesmo que que governasse (no Parlamento britânico o rei não tem poderes maiores do que as câmaras, mas é uma figura simbólica), Albert tinha que saber falar em público, porque muitos ingleses amam sua família real e vêem neles a imagem do Reino. Por esse motivo, Albert era pressionado de todas as formas pelo pai, governantas, professores e a própria esposa, Elizabeth (sim , ela mesmo, a rainha mãe!) a buscar aulas de dicção e médicos que pudessem curar sua gagueira.

Desta forma, o duque de York acaba conhecendo Lionel Logue (com uma interpretação mais uma vez fantástica de Geoffrey Rush), que é um especialista em dicção. Não era médico, não era fonoaudiólogo, mas para a época, convenhamos, a fonoaudiologia ainda era uma especialidade médica, e muitos especialistas em fala não tinham mesmo diploma. Logue era um ator nas horas vagas e especialista em dicção que acabou recebendo Albert de uma maneira um tanto quanto inusitada. O tratava no mesmo tom, não o reconhecia como um nobre dentro de seu consultório e usava de técnicas um tanto quanto ousadas para a época (as cenas dele falando palavrão para impedir a gagueira, por exemplo, são fantásticas).

A relação entre Logue e o príncipe de York dão o tom ao filme, que através de cenas divertidas e também dramáticas, e dos conflitos entre os dois, que muitas vezes acabava em um “tapinha nos ombros” e uma conversa amiga, Albert conseguiu se desvencilhar do seu terror pessoal e avançar na arte da oratória.

O Discurso do Rei é, portanto, um filme que trata de um tema um pouco frívolo de uma certa forma, mas um tanto interessante por outra. Por meio da gagueira do príncipe (e futuro rei do Reino Unido), ele relata a vaidade e os sacrifícios impostos àqueles de sangue azul, em uma época que as coisas não eram tão “light” como hoje (vide o casamento de Middletown com o Príncipe William, uma jovem filha de industrial...uma burguesa!). Assim como o outro lado da nobreza já foi retratado em diversos filmes (como o com nome idem, Maria Antonieta, Ligações Perigosas, A Rainha, e por aí tem vários), o Discurso é imperativo ao avaliar que todo rei, por mais título que tenha, é humano. E assim é Albert, que de príncipe preterido pelo pai se torna rei no momento em que estourava uma guerra que mudou o contexto geopolítico da Europa – e mundial.

O Rei George VI, saiu nos jornais, era simpático aos nazistas, assim como o herdeiro do trono, que visitou a Alemanha hitlerista. Acho que esse argumento para desqualificar o filme é fraco – somente para desqualificar o filme, pois o filme trata da luta de George VI com sua gagueira. Não vou também defender se George Vi era anti-semita ou não, pois não conheço bem sua biografia para afirmar isso. Porém, infelizmente o anti-semitismo era comum na Europa na década de 1930 e muitos países adotaram políticas preconceituosas contra judeus antes da guerra estourar (não me interpretem mal, sou absolutamente contra o anti-semitismo, políticas e ações racistas em qualquer sentido e também acho que Hitler foi um assassino de massa, ok? Estou só fazendo uma avaliação de porque acho que desqualificar o filme pelo fato de se ter indícios de que George VI era racista não é um argumento forte. E de fato o filme não foi desqualificado por isso, pois ganhou o Oscar principal, dado pela Academia que tem uma boa parte de seus integrantes de origem judia).

Voltando ao filme, O Discurso tem, por conseqüência, uma temática que traz à tona questões muito sérias e conscientes da relação entre o povo e seu governante e também do peso que a exposição traz às pessoas.

Sobre o filme, ainda, que arrebatou três oscars, incluindo direção (Tom Hooper) e ator (Colin Firth, o eterno e impecável Mr. Darcy) e roteiro original, para David Seidler, acho que Rush merecia o Oscar de coadjuvante. Porém, não vi a atuação de Christian Bale, o favorito da noite. Reparei muito na estética azulada do filme, bem condizente com a foggy britânica, e também na fotografia fantástica do consultório de Logue.

O Discurso do Rei é um filme, como eu disse, sublime. E posso garantir que não tem quem não goste.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Inverno da alma (Winter's bone)


Inverno da Alma é um dos filmes concorrentes ao Oscar, que você vê que faz parte daquele seleto grupo de películas que são independentes, mas fazem um contrapeso à falta de filmes com roteiros fortes e atuações idem no Oscar.Pois é, a premiação já foi uma referência para o cinema, mas hoje em dia parece que a crise no cinema americano está abrindo espaço para os festivais independentes, como o Sundance, e às premiações europeias, como Cannes e Berlim.

A história de Inverno da Alma é impactante, e aquilo que mais chama atenção logo de início é a caracterização da vida e do local onde moram a personagem principal e sua família, Ree Dolly (Jennifer Lawrence, jovem atriz e já indicada ao Oscar e outros inúmeros prêmios). Ree, seus dois irmãos pequenos e sua mãe que sofre de uma doença mental vivem nas montanhas Ozark, no Missouri, em uma região muito, muito pobre, muito, muito fria e esquecida no meio-oeste americano. Com o pai na prisão por tráfico, eles vivem comendo esquilos e veados de caça, sem eletricidade, e têm apenas as montanhas e sua madeira para salvá-los do frio. Jennifer Lawrence se despe de qualquer vaidade para fazer o suspense, que retrata ela, e somente ela, na busca de seu pai para não perder a casa onde vivem - e a única forma se sobrevivência que conhece.

O problema é que Jessup Dolly, pai da menina, some após sair da prisão e coloca sua casa e o terreno nas montanhas como fiança. Se ele não comparecer ao tribunal, ele perde tudo e por isso Ree busca desesperadamente pelo pai na cidade, passando por personagens medonhos (no sentido literal!) e tristes do universo em que circula. Traficantes, mulheres de traficantes, avôs, primos e tios que a espancam ou a ignoram por ser filha de quem é e perguntar demais. Essa é a rotina de Ree, que persiste, como uma boa heroína, na sua luta para salvar sua casa e seus irmãos.

Baseado numa série de livros que não chegou ao Brasil, Inverno da Alma é mais um dos oito livros de suspense escrito por Daniel Woodrell, em um estilo que - nem sabia - é caracterizado por "country noir", inaugurado aparentemente pelo próprio Woodrell. Me espantei em saber que o filme é baseado em um thriller, porque não parece. O que parece é que, pelo menos nas mãos da roteirista e diretora Debra Granik, ele se transforma no retrato de um região desconhecida e de uma "América" pouco vista fora do país. Bom, não é preciso dizer que os Estados Unidos são um país com um índice de pobreza não tão grande como o Brasil, mas considerável comparado a regiões mais desenvolvidas, e ninguém parece reparar muito nisso, pois estamos acostumados a ver uma "América dourada" em filme Hollywoodianos. Porém, volta e meia é lançado no cenário independente um filme desses, como foi Preciosa, em 2009, que acaba arrebatando prêmios e consagração da crítica.

Não é preciso dizer também que a atuação de Jennifer Lawrence faz toda a diferença. E que, para a idade dela, é realmente interessante o papel que ela escolheu interpretar. Inverno da Alma é sim um drama violento, é sim meio noir, mas o que o difere dos outros é também a delicadeza na forma que Granik mostra o cotidiano desta família. Chega uma certa hora que você não consegue nem mais sentir pena da menina, mas a vê como um mártir na história toda. Há destaque também para John Hawkes, que interpreta Teardrop, o tio dela e irmão de Jessup, e a forma como a relação deles muda com o passar do filme, de tio desalmado para defensor dos sobrinhos. É claro que isso tudo de forma bem discreta, pois o filme não tem atuações com muitas lágrimas. Ele é duro, como o inverno da região de Ozark (parece esquisito falar em delicadeza e dureza, mas o filme passa essas duas características, claro que nas mãos de uma boa direção).

Para quem gosta de ver filmes independentes e com uma temática mais inovadora, Inverno da Alma é uma boa opção. Mas quem não gosta de ver uma história baseada em personagens duros e sofridos, e que não tenha muito "estômago" para cenas fortes, não recomendo. Vai estar perdendo, é claro, um ótimo filme. E eu estou torcendo, mais uma vez, pelo cinema independente no Oscar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Férias frustradas de verão (Adventureland)



Taí um filme que eu não dava nada e achei interessante. Produção independente, baixo orçamento e um roteiro basicamente que fala de descobertas. Meio dramático, meio engraçado, meio filosófico...enfim, Adventureland definitivamente não é uma comédia. E o nome em português, como sempre, é péssimo.

Adventureland (novamente usando o nome do filme no original...) é meio que um A Primeira Noite de um Homem recontado. James, o protagonista, interpretado por Jesse Eisenberg (sim, o Mark Zuckerberg da Rede Social), é um recém-formado que volta a morar no subúrbio com a família devido à falta de grana dos pais em mantê-lo em Nova York estudando (crise econômica em 1987 - o filme se passa neste ano). É claro que os dois filmes partem de premissas diferentes. Em A Primeira noite..., Ben (Dustin Hoffman) decide voltar a morar com os pais no subúrbio para dar um tempo e pensar nos rumos que a vida está tomando, antes de iniciar sua carreira tão planejada. James deseja desesperadamente fazer o contrário de Ben, planeja todo o seu futuro, mas fica "preso" aos pais e à vida pacata. Mas no final das contas, os dois filmes acabam se parecendo: os dois protagonistas vivem um momento de escolhas e repensam aquilo que eles querem - e isso fica claro com o decorrer do filme.

Voltado a Adventureland: James é virgem, espera a mulher perfeita e encontra a menina perfeita trabalhando em um lugar que detesta durante o verão, o parque de diversões da cidade. A garota perfeita, Emily, é interpretada por Kristen Stewart (sim, a menina de Crepúsculo), que aliás, já percebi que não muda muito a atuação em nenhum filme. Parece a Bella Swam. Mas nos anos 1980. Só que a menina se envolve com um cara mais velho e casado (Ryan Reynolds, em uma singela participação especial). Enquanto isso, James volta às antigas amizades e começa a repensar as escolhas que queria fazer da vida e as alternativas que a vida lhe ofereceu.

O destaque de Adventureland está no elenco de apoio e no próprio ator principal, Jesse Eisenberg, que realmente já mostrou nesse filme que tinha talento. Não é a toa, ele dá um show na Rede Social. Com algumas pitadas de humor negro (principalmente na parte em que aparecem os donos do parque de diversão, personagens beeem esquisitos - e divertidos), o filme não tem nada de férias frustradas. O que seriam as férias frustradas se transforma em uma descoberta daquilo que realmente é importante para o personagem principal: o amor. Não vou contar o final, mas quem viu A primeira noite de um homem pode imaginar.

A direção e o roteiro ficaram a cargo de Greg Motolla, diretor de Superbad. Achei a direção boa, mas gostei principalmente do roteiro. A partir de uma simples premissa, em uma simples cidade, em um simples subúrbio, ele cria personagens interessantes e um filme que geralmente eu nem me interessaria em alugar se tornou um filme que eu me interessaria em ver de novo. Me lembrou um pouco também Garden State (Hora de voltar, em português), com Zach Braff e Natalie Portman. Quem não viu, taí uma boa dica. Trilha sonora excelente.

Palavra final sobre Adventureland: recomendo. E acho que vou rever A Primeira Noite de um Homem, filme que você vê e revê e continua sendo interessante (e que eu tenho em dvd, o que facilita as coisas). Pode deixar que depois eu posto a crítica ;)




sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

65 red roses



Este documentário mexeu muito comigo. Estava ontem de noite preocupada com amigos que moram em Friburgo e estão isolados por causa da tragédia das chuvas e muito triste com a situação toda, e na tv a cabo estava passando 65 red roses. Um filme sobre uma menina de vinte e poucos anos que sofria de uma doença rara , fibrose cística, e lutava para sobreviver - mas vivia intensamente cada segundo.

Pensei duas vezes, pois estava triste com a situação toda, e achei o filme triste também, mas...resolvi assistir. E me deparei com um documentário sutil que na verdade, fala sobre a arte de viver. E belo, pois mostra que mesmo na adversidade, o ser humano encontra razões para rir novamente.

Eva Markvoot, uma canadense que nas filmagens tinha 23 anos , esperava por um transplante de pulmão para poder ser livre como sempre quis. Viveu em hospitais a vida toda, respirava com dificuldade, mas mesmo assim, via em tudo e em todos pequenas alegrias para poder continuar. Ela fez um blog, chamado 65 red roses justamente porque quando criança, não conseguia pronunciar o nome da sua doença (cystic fibrosis = 65 red roses). A sua luta contra a doença se tornou uma ode à vida.

Pode parecer que o filme é mais uma tragédia, um drama destes bem clichês que fazem você chorar sem parar. Mas não é. Na verdade, o que 65 red roses faz é mostrar que o ser humano, em qualquer adversidade, encontra forças para viver - e amar. Eva amava profundamente, e sua vida foi marcada pela luta para continuar amando. Ela era jovem, queria viver e experimentar tudo o que a vida podia oferecer.

Esperando na fila de transplante, Eva conheceu duas jovens, norte-americanas, com a sua idade aproximada, que também sofriam da mesma doença. Uma tinha recebido um pulmão e estava se recuperando. A outra não havia recebido, vivia sozinha e lutava contra as drogas. As três se comunicavam pela internet e trocavam experiências. Eva recebeu o transplante de pulmão em 2007, durante a filmagem de 65 red roses. E conseguiu, depois de muitos anos, fazer algo simples, mas que sempre quis: respirar fundo. E também algo difícil, que achava nunca conseguir fazer: praticar canoagem. A vida dela, postada no blog que se tornou conhecido no mundo todo, se tornou um exemplo para jovens que sofrem da mesma doença ou de doenças que impossibilitem uma vida comum. E seu blog se tornou, de fato, uma celebração da vida.

Vendo este filme e pensando nas tragédias que ocorrem agora no Rio de Janeiro, fico imaginando, afinal de que vale você pensar tanto na morte, se ela é algo tão eminente e não escolhemos a hora? E aquilo que realmente fica para a humanidade é o que você fez de bem durante a vida. Eva fez o bem - ela viveu, até o último segundo, na esperança de viver cada vez mais e ser feliz - espalhando essa felicidade por todos que a conheceram, pessoalmente ou por meio de seu blog. Sei que meus pensamentos estão meio confusos no momento, mas esse filme me fez respirar um pouco mais leve - e ter um pouco mais de esperança.

***

Eva Markvoot faleceu em março de 2010 com 25 anos, por rejeição ao órgão que recebeu. O documentário não mostra essa fase, pois foi finalizado em 2008. Seu site hoje é ainda atualizado e sua vida é um exemplo reconhecido de luta contra a rara doença que a padeceu. Quem quiser acessá-lo e conhecer melhor Eva:


Termino com uma frase de Machado de Assis, que sabiamente disse: "a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal". Eva o fez.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Rindo à toa (Laughing at loud)

Estou emocionada! Três posts seguidos assim, algo inédito :) inspiração total no momento. Ou, estando de férias (ou "meia-férias", já que pós não dá descanso), estou tendo mais tempo de selecionar e assistir filmes bons. Mas faço esta crítica com muito prazer. Primeiro porque o filme que vi é bom demais. Segundo porque fiz há poucos dias uma crítica de um filme francês sobre adolescência, bobo, mas divertido, e de repente pego este filme pra assistir e "bum": aquilo que eu esperava do outro está nesse filme.

Divertido, sim, mas LOL (como no original) é um filme também francês que também discute questões sobre adolescência de uma forma muito mais realista e interessante que 15 anos e meio. Terceiro, senti uma saudade enorme dos tempos em que ia nos festivais do Rio e assistia filmes de circuito alternativo no cinema da UFF...preciso voltar a frequentar festivais, uma coisa que amo. Se ainda frequentasse, teria visto esse filme há muito mais tempo.Mas vamos à crítica.

LOL conta a história de adolescentes experimentando as coisas novas da vida: fumar, beber, namorar, fazer sexo, amar...tudo isso é novidade para o grupo de amigos que estuda no Liceu público francês. Lola é uma menina com seus...16 anos? E seu grupo de amigos vive, é claro, na internet, nas baladas, e só quer saber de aproveitar a vida. Mas...você pode culpá-los?

A vida dos adolescentes já é conturbada, e a descoberta de tantas coisas novas é uma coisa sensacional - quem já passou por essa fase sabe do que estou falando. Não acho o filme despretensioso: acho que o filme toca em pontos fundamentais: a relação de Lola com a mãe e o pai divorciado, com seu "caso/ficante" , Mael, a relação do próprio Mael com seu pai controlador, e os problemas de suas amigas, como Charlotte, que está descobrindo os prazeres do sexo, são exemplos disso. Tudo isso ligado às novas formas de comunicação (msn, twitter, facebook, i-phone) faz essa geração aprender de tudo um pouco e experimentar de tudo um pouco.

De novo parece que sou muito velha :P mas isso acontece porque acho as tecnologias de comunicação hoje fantásticas e as redes sociais possibilitam coisas que eu nem imaginava na minha época (celular na minha adolescência era um trambolho que só ricaço da Barra tinha. E não, não sou tão velha assim, apenas vinte e nove aninhos ;)). É claro que os pais dos adolescentes retratados não têm ideia do que eles fazem - e também não dominam todos esses meios de comunicação.

Lola, porém, apesar de todos os seus conflitos internos e problemas com a mãe, é uma menina descolada e responsável. Quem está esperando ver no filme cenas de brigas dantescas, uso de drogas e bebedeira, esqueça, a personagem-título não é bagaceira. Ela é uma adolescente parisiense comum e seus amigos também são adolescente comuns.

Mais ligado ao drama, este filme tem pitadas de comédia, mas no final, o que fica mesmo é um gostinho saudosista e feliz. Com Sophie Marceau no papel da mãe de Lola, o filme fez o maior sucesso na França na época do lançamento (em 2008...como é que eu não o vi antes?) e segue a linha de As melhores coisas do mundo. Filme bonito, interessante e legal de se ver - e com uma trilha sonora muuito boa (incluindo Blur!! Eu tinha que gostar, né?)

Assistam. Filmaço.