domingo, 26 de setembro de 2010

O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos)



O segredo de seus olhos é um filmaço. E olha que eu não sou de elogiar filmes dessa forma. Roteiro impecável, simples, redondo, atores excelentes, história envolvente, fotografia, cenário e montagem de época super bem feitos. Tudo bem que ele ganhou um oscar (e convenhamos que hoje o oscar é mais político que qualquer outra coisa), mas o oscar de filme estrangeiro geralmente é bem merecido. Nesse caso é com certeza. Deveria tê-lo visto há muito tempo atrás e não vi. Só decidi vê-lo agora, e percebi que quase perdi um filmaço de bobeira.

Enfim, O Segredo de seus olhos é argentino e dirigido e escrito por Juan José Campanella, super conhecido no seu país e no circuito pequeno de filmes "de arte". Ele é mais conhecido também por O Filho da Noiva (El hijo de la novia), que é um filme excelente que traz Ricardo Darín e Norma Alejandro, uma atriz que é a "Fernanda Montenegro" da argentina, como protagonistas. Campanella é de fato um excelente roteirista e consegue fazer de histórias muito simples histórias muito boas, que envolvem você emocionalmente. Ultimamente, ele tem se dedicado a dirigir seriados norte-americanos, e se destacou ao dirigir House MD nas últimas duas temporadas (que eu adoro, por sinal e dá pra ver com isso também como os seriados americanos têm investimento de peso da indústria cinematográfica).

Ricardo Darín é um excelente ator, que parece que está melhorando com o passar dos anos. Neste filme, ele interpreta Benjamin Esposito, um tabelião da justiça que se aposenta e decide fazer um livro sobre o caso mais importante e que mais o marcou, vinte e cinco anos antes. Na época, ele resolveu investigar junto com seu colega de trabalho, Sandoval, o assassinato de Lilliana, uma jovem recém-casada e brutalmente estuprada e assassinada em casa. Junto com a nova juíza por quem Benjamin se apaixona, Irene Hastings (interpretada por Soledad Villamil), ele decido descobrir de todas as formas quem assassinou a jovem e junto com Sandoval, parte em busca de um suspeito, Morales, um jovem que sempre teve obsessão pela menina desde a época em que era adolescente.

O Segredo dos seus olhos se passa metade nos dias atuais e metade na década de 1970, em plena ditadura militar. Benjamin, no livro, tenta detalhar tudo aquilo da sua memória, de uma época que lhe é muito cara. Nos seus flashbacks, são introduzidos elementos, por meio da cenografia, figurino, tipo de película filmada e até mesmo pela velha máquina de escrever, cuja letra A está faltando (detalhe interessante :P), que trazem detalhes simples mas importantes de um período que Benjamin retém tanto em pensamento e em sentimentos. O assassinato da jovem o marcou muito, não só pelo caso em si, mas pelo envolvimento dele e de Irene no caso e sua aproximação com ela. Por este motivo (na verdade, desculpa) Benjamin procura Irene e juntos eles relembram o momento e os colegas que conviveram no período com eles, trazendo lembranças muito saudosas.

Na verdade, O Segredo de seus olhos é um filme investigativo, mas ao mesmo tempo muito denso e emotivo. Benjamin tem duas fixações claras no filme: os olhos da jovem assassinada e da própria Irene. Os closes estão presentes em quase todas as cenas, e os olhos fazem Benjamin desvendar o assassinato e outras questões relacionadas ao caso.

Quando li sobre o filme a primeira vez, ele havia acabado de estrear no Brasil, antes de ganhar o oscar, e já sabia que o filme prometia. Quem viu O Filho da Noiva sabe do que estou falando. Cenas densas, com poucos diálogos e extremamente expressivas. Porém, nada exagerado. O filme evolui em um ritmo que demora para você acompanhar no início, mas já no meio, você não consegue tirar os olhos da tela e no final, você não quer que o filme acabe. Me chamou a atenção as críticas dizerem que o final do filme era surpreendente. Achei estranho, conhecendo a estética e os roteiros do diretor. Na verdade, não é que não seja surpreendente (e eu não vou contar porque acho isso de jeito nenhum, vejam o filme! :P), a verdade é que o final leva ao ápice de todo o desenrolar da história.

Poderia falar aqui sobre mais detalhes do filme, mas iria perder um pouco da graça e como eu aconselho todos a verem, fico por aqui. Somente lembro de uma das cenas em que Sandoval, colega de Benjamin, fala para ele que o homem pode mudar tudo na vida, menos sua paixão. No caso, Sandoval fala da paixão pelo futebol. Na vida de Benjamin, na verdade, a paixão que ele não consegue deixar é por Irene - e nem ela por ele.

Aí está o segredo de O Segredo: aquilo que não é dito é percebido, e de forma muito sutil, ao mesmo tempo muito clara para o espectador. Porém, não espere ver um filme romântico, ou um filme de investigação, ou um drama pessoal; ele é um pouco disso tudo e muito mais que isso tudo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Labirinto - a magia do tempo (Labyrinth)



Ah, os anos 1980...boas lembranças dessa época em que eu ainda era pequena, mas havia tantas coisas diferentes, inusitadas na televisão, no cinema, na música...e ainda havia David Bowie, que aparecia nos três meios de forma tão natural...

Labirinto, cujo nome em português ganhou aquele "adicional" comum nas traduções brasileiras (sério, porque não só Labirinto?) é um clássico dos anos 1980 e que todos as pessoas da minha geração (repito, todas!) devem ter visto, se não no cinema, na sessão da tarde da Globo (que inclusive não passa mais nenhum filme dos anos 1980, só comédias bobas dos anos 2000...infelizmente. Também não vejo mais... :D) Labirinto está no imaginário da minha geração e assisti-lo novamente foi uma nostalgia total. É claro que quando você assiste um filme desses com dez anos, você imagina que ele é tão legal, fantasioso, divertido, com bichinhos tão engraçados, que não percebe o lado mais "dark" do roteiro de Jim Henson, que também dirigiu o filme, e criou os fantoches de diversos bichos e monstros que aparecem, principalmente aquele "Bando maluco" que fica tirando as cabeças e atirando para todos os lados...(como é que eu não chorava nessa cena???)

Labirinto, para quem não é da minha geração, conta a história de Sarah, uma jovem de quinze anos que vive em um mundo de fantasias criado por ela para se desligar dos aborrecimentos de casa - o casamento de seu pai e o nascimento do meio-irmão, mais especificamente. Diferente de muitas jovens, Sarah vive no seu mundo isolado, onde os livros de magia e fantasia e a criação de personagens são lugar-comum. Porém, numa noite chuvosa, Sarah é obrigada a tomar conta de seu irmão pequeno quando seu pai e madrasta saem de casa, e revoltada com a situação, ela pede para que duendes sumam com ele. Tão cruel...seu pedido é prontamente atendido pelo rei dos duendes, Jareth (sim, Bowie!), e quando Sarah percebe o sumiço do seu irmão, se desespera (acho que mais por achar que os pais vão matar ela do que por achar que vai perder o irmãozinho...) e Jareth dá a ela uma única opção: atravessar o labirinto que leva ao seu castelo numa terra de fantasia (não, não é Fantasia, de História sem fim. Quem é da geração anos 1980 sacou também ;))em um período de 13 horas senão ela nunca mais verá ele.

Bom, até aí, você pensa: poxa, que filme com lição de moral, né, ela tem que amar o irmão, e por causa disso, mesmo rejeitando-o, ela faz das tripas coração para pegá-lo com o rei dos duendes. Será que hoje os adolescentes fariam isso também? :D boa pergunta. Vou deixar em aberto.

A trajetória de Sarah no labirinto é marcada pelo encontro com animais fantasiosos, minhocas falantes, pântano fedorento, um cachorro espadachim...é, por aí vai. Mas tudo muito divertido, pois faz parte do mundo fantasioso de Sarah. No caminho, ela faz também boas amizades, descobre que o rei dos duendes tem uma "queda" por ela, daí fazer ela sofrer (sério, obscura essa parte), e descobre que é mais inteligente e tem mais valor do que achava que tinha. Conflitos adolescentes! Quem imaginava essa temática...

Bom, aqui vão as partes interessantes do filme, que eu não posso deixar de relatar (sério, se você não viu Labirinto, veja!! É um clássico, não vou poupar comentários. Se você tem a minha idade e não viu, se mate).

David Bowie é sempre um prazer, não é? Com aquela peruca espetada e roupas um tanto quando parecidas com o Pequeno Príncipe, ele está ótimo como O Príncipe dos Duendes. Deixando claro que eu adoro ele, mas os anos 1980...enfim. Porém, vou concordar com o colega blogueiro Guilherme (excelente crítica:http://filmesdocaralho.blogspot.com/2008/07/labirinto-magia-do-tempo.html) quando ele coloca que Magic Dance é meio creepy, principalmente na parte em que ele fala que o bebê tem o poder do vudu. Como ninguém nunca percebeu isso? Bowie faz toda a trilha sonora do filme, que é muito legal, aliás, e está sensacional no papel do rei dos Duendes.

Abrindo parênteses (coisa que sempre faço...sorry): queria que trilhas sonoras hoje fossem assim também, feitas especificamente por uma banda ou cantor para o filme, diferente das inserções de músicas feitas pelos produtores das trilhas, e com um baita fundo comercial.

Outro ponto importante: Jareth/Bowie mostra ter uma "quedinha" por Sarah, quando tenta drogá-la (é, ela fica chapada) e a leva a uma bolha de sabão para dançar com ele vestida de princesa dos duendes, tocando "As the world falls down", e chocantemente mostrando que na verdade, ele a faz sofrer porque aaaaaaama ela (As the pain sweeps through/Makes no sense for you/Every thrill has gone/Wasn't too much fun at all/But I'll be there for you-oo-oo/As the world falls down/Falling(As the world)/ Falling down/Falling in love). Aí você imagina, Bowie com uma menina de quinze anos?? Hummmm...

Labirinto é, sem dúvida, um filme de fantasia que por mais que achemos esquisito pelos efeitos especiais atuais, tem um bom roteiro, um bom desenvolvimento e cenas muito bem pensadas (como a cena em que Sarah cai num labirinto de mãos, ou a cena final em que ela tenta pegar seu irmão em um labirinto de escadas que se invertem). Os bonecos e a produção do filme são super bem elaborados, e é claro, parecem mesmo os Muppets (Henson criou os bonecos dos Muppets e Vila Sésamo, daí a semelhança) e Jennifer Connely está linda e fofa no papel. Quem não viu (talk to my hand...)ou não reviu o filme nos últimos dez anos, veja e reveja! Vale a pena.

domingo, 5 de setembro de 2010

Quando me apaixono (Then she found me)



O filme Quando me apaixono tem um nome bobinho em português e faz muito mais sentido quando pegamos o título original, Then she found me (e então ela me encontrou). Dirigido e estrelado por Helen Hunt, ele chegou aos cinemas também atrasado no Brasil, somente três anos (e meio!) após estrear nos Estados Unidos. O que é uma pena, pois o filme estreou em um circuito reduzido e é muito interessante e bem feito - deveria ter estreado em grande circuito. Mas eu já ando perdendo as esperanças no cinema de qualidade por aqui, pois só vejo estrear filmes de ação e comédias bobas no grande circuito e raramente algo de mais substância nessas salas.

Then she found me conta a história de April Epner, uma professora de 39 anos que se casa com essa idade e deseja mais que nunca ter um filho biológico. Apesar de ter sido adotada por uma família que lhe ofereceu tudo em toda a sua vida, April tem praticamente uma obsessão em ter um filho biológico. O problema é que seu casamento não anda muito bem, e ela acaba passando por um momento de crise onde conhece duas pessoas que se tornam muito importantes em sua vida: sua mãe biológica e um novo amor.

O papel da mãe é interpretado por Bette Midler. Aqui ela faz uma apresentadora de talk show, Bernice Graves (não judia, apesar da religiosidade ser um ponto fonte discutido na trama, pois April é judia e bastante religiosa)que depois de quarenta anos quer ter a filha de volta ao seu lado, e faz de tudo para recompensar sua ausência. O marido de April, interpretado por Matthew Broderick, é também um professor, frustrado (novidade...:D) que ainda não sabe o que quer da vida, e não consegue tomar mínimas decisões sobre ela - muito mais com outra pessoa. O terceiro elemento do triângulo amoroso é Frank, interpretado por Colin Firth, que não importa o papel que faça, sempre está ótimo. Ele é um pai solteiro sensível e inseguro que se apaixona pela professora de seu filho e luta por ela apesar de toda a sua insegurança.

O filme é um drama que se desenvolve de forma muito agradável e muito delicada também. Ele lembra os filmes de Allen e é claro que se passa em Nova York, com muitas externas rodadas no Hudson e nas ruas de Manhattan, com seus dias cinzentos e chuvosos.

April na verdade aparece na trama como uma mulher que deseja ter todos os seus sonhos realizados e começa a trama pensando os ter realizado - casando-se com seu melhor amigo e tentando engravidar. Porém, seu destino muda rapidamente e de repente ela se vê sozinha, sem pais, sem filhos e acaba conhecendo ela, a do título, sua mãe biológica, que propõe um novo relacionamento complicado, mas que proporciona uma redescoberta dela mesma.

Baseado no livro homônimo de Elinor Lipman, Helen Hunt encontrou muitas dificuldades para levar o romance às telas. Após anos procurando roteiristas e produtoras, ela mesmo co-produziu a história, dirigiu e interpretou April, personagem principal da trama.

O filme talvez tenha de positivo a delicadeza na dosagem de Hunt como atriz e como diretora, além de contar com um bom elenco que conduz bem a trama, em especial Firth e Midler, que estão ótimos em seus papéis.

Entretanto, o filme tem uma narrativa muito lenta e é bem dramático, o que pode levar alguns espectadores a se cansarem. seu título em português e o poster de propaganda não tem relação nenhuma com a trama, o que mostra mais uma vez a mancada das distribuidoras brasileiras que tentam vender uma coisa que ele realmente não é. E eu acho que o espectador se sentirá ultrajado se esperar ver uma comédia romântica e encontrar um drama com temas profundos como maternidade, traição, rejeição, entre outros.

Ele é centrado também na redescoberta de April sobre sua vida e suas prioridades, e isso é passado de forma um pouco superficial em parte do filme (principalmente quando ela fica em dúvidas em relação em continuar com o novo namorado ou voltar para o ex-marido. Poderia ter sido melhor trabalhado esse lado, assim como a participação de Broderick é ínfima no filme).

Then she found me traz, entretanto, aquele gostinho de filme independente que trata de temáticas diversas e principalmente sobre as relações humanas, e não um trama mirabolante, um roteiro intricado e atores maquiados e modelados para o papel, ao que vejo no cinema atual (sei que nos festivais de cinema e no circuito pequeno ainda há luz no fim do túnel, mas moro em Niterói, que só tem salas em dois shoppings. Aqui a situação é complicada, por isso quando dá escapo para as salas em Botafogo e centro do Rio). É um filme emotivo, sim, e talvez as mulheres se sensibilizem mais com sua temática, mas mesmo assim não deixa de refletir sobre assuntos interessantes para todos os públicos, principalmente, que não há uma fórmula para a felicidade.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas)


Carlos Drummond de Andrade escreveu certa vez uma frase que sempre achei muito interessante: "há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons". Essa frase representa para mim o que há de melhor na vida, a inocência e pureza da infância, e a serenidade e simplicidade da velhice. Assim como na vida acreditamos sempre que a infância nos traz tão boas recordações pela falta de compromisso e pela simplicidade, o filme O Pequeno Nicolau me trouxe uma nostalgia dessa época, que vivi também plenamente.

Lembro de minha mãe comprando os livros da série O Pequeno Nicolau quando éramos crianças (junto com as revistas do Asterix). Quando eu era criança ela morou na França e trouxe para a gente boas recordações da literatura e cultura francesa. Já nem me lembrava mais dos livros da série (assim como esquecemos de tantas coisas boas de quando éramos novos), até que me deparei com a notícia no jornal de que havia estreado o filme baseado na série. Não podia ter sido também mais feliz a minha ideia de assistir o filme. Me trouxe muitas alegrias e também muitas recordações.

Recordações de quando era criança e achava que se alguém chamasse meu nome era porque tinha feito algo errado e iria ser castigada; recordações também do melhor aluno da turma, que sentava sempre na frente ou do menino gordinho que todo mundo brincava porque comia demais. Acho que todo o mundo já foi criança e já conheceu essas crianças - ou foi uma delas. O filme O Pequeno Nicolau traz uma mensagem importante, que é ver a vida com mais simplicidade, com um olhar mais feliz, de raiva, de medo, de dúvida, mas principalmente, inocente e despreocupado.

A trama de O Pequeno Nicolau é a seguinte: Nicolau é um menino de cerca de sete anos de idade e que como todos os meninos de sua idade, tem um olhar muito pueril sobre a vida. Ele na verdade, é uma criança feliz, tão feliz, como afirma no filme, que tem medo da felicidade ir embora de repente. Eis que surge de repente, por meio de uma curiosa e mal entendida escuta da conversa dos pais por trás da porta, uma notícia que poderia estragar tamanha felicidade: ele estaria ganhando um irmãozinho. Pelo que os amigos dele relatam, um irmão iria tirar toda a atenção da família sobre ele e acabar com sua felicidade. Mais ainda: Nicolau começa a acreditar que seus pais irão largá-lo para cuidar só do irmãozinho que está para nascer. Nicolau não se deixa abater com a notícia e decide bolar (alguns) planos mirabolantes com seus amigos para que seus pais não o abandonem.

Na história do filme, assim como nos livros, todos os seus amigos tem uma peculiaridade. Clotaire tem dificuldades de aprendizado e já está acostumado a ser repreendido pela professora; Alceste é o menino gordinho que come tudo o que vê pela frente; Geoffrey, um menino rico mas que não tem a atenção dos pais; Eudes, o "cdf" que dedura os colegas e que ninguém pode bater porque usa óculos. Esse universo infantil criado por Renné Goscinny (mais conhecido no mundo por Asterix que é de fato uma criação incrível, porém gosto muito também de Lucky Luke, quadrinho sobre um cowboy solitário do velho oeste) e imortalizado pelos desenhos de Jean-Jacques Sempé é um universo vivo em nossas lembranças, pois Nicolau é aquele menino que representa um pouquinho de todos nós.

A história do filme é baseada no primeiro livro da série, O Pequeno Nicolau volta às aulas, mas o roteiro foi feito a três mãos, por Laurent Tirard, Grégoire Vigneron e Alain Chabat (Tirard é também diretor do filme, e pouco conhecido até o momento por ter dirigido As aventuras de Molière). Sempé ajudou na roteirização, assim com a filha de Goscinny, Anne Goscinny, que só aceitou imortalizar o livro na tela do cinema após a promessa de que ele seria totalmente fiel à série de livros.

O filme O Pequeno Nicolau é muito bom em diversos sentidos: trata das aventuras de crianças que vivem e olham o mundo com o olhar de crianças, as situações entre os adultos, que são entendidas pelos adultos não deixam de ser divertidas, a fotografia e adaptação de época para a década de 1950 são excelentes e a trilha sonora sensacional(de Klaus Baudet). No final, fica aquele gostinho de querer voltar a ser criança e ter a felicidade de se preocupar com os problemas dessa fase da vida (sim, foi uma nostalgia total para mim!).

Vale a pena também se deleitar com a abertura do filme, animada por Sempé (baseada nos desenhos do livro). Aqui vai, para quem interessar, o link para assistir a abertura:

http://www.youtube.com/watch?v=H4KMXsSjSL4

PS: tenho tentado colocar links neste blog mas nunca consigo :( fica então o link acima para ser copiado, até conseguir (ou aprender) a postar o link direto...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Nina's Heavenly Delights



Nina's Heavenly Delights é um filme indo-escocês cujo nome em português eu não sei exatamente qual é. Isso porque no cinema estava "Amor e outras delícias", mas na internet já o achei com dois outros nomes: "Índia, amor e outras delícias" e "Uma receita de amor". Eu acho que um dos grandes problemas dos filmes quando chegam ao Brasil é a escolha dos nomes. A maioria tem um nome comercial bobo e que muitas vezes não tem a ver com o título original. O título original é mais bonito,sonoro, interessante e não gera confusões, então vou mantê-lo.

Uma segunda coisa que me chamou a atenção no filme (antes de fazer a crítica dele) foi a demora dele chegar às telas. O filme é de 2006! E chega ao Brasil em 2010? Francamente...what a shame.

Bom, Nina's Heavenly Delights conta a história da jovem Nina (Shelley Conn), cozinheira escocesa descendente de indianos cujo pai tem um restaurante (o Taj) e a ensina desde pequena as delícias da culinária indiana. Porém, ao falecer, o pai deixa o restaurante e dívidas, e somente Nina está disposta a tocá-lo. O filme é uma comédia romântica com aquela "puxada gastronômica" que está se tornando comum em muitos filmes e pode-se dizer que não tem uma produção muito apurada - tem problemas sérios de roteiro, edição, filmagem de externas e outras coisas que o fazem ser um filme mediano. Porém, a temática dele é bem interessante: mostrar famílias imigrantes indianas na Escócia (e pode-se dizer que as externas gravadas de verdade em Glasgow são lindas...mas eu sou suspeita, meu sonho é conhecer a Grã-Bretanha, toda ela! :D), além de tratar-se de uma comédia romântica onde o casal principal é gay. É isso aí, Nina é gay e conhece uma jovem, Lisa (Laura Fraser), que a ajuda na cozinha do Taj, e se apaixona por ela e...o resto, bom, não vou contar, mas o filme tem tudo aquilo que você pode esperar de um filme romântico.

Bom, aí vocês me perguntam: qual o problema, filmes com casais gays? Depois de Brokeback Mountain já surgiu um monte... Aí eu digo: bom, não um filme que trata de uma família tradicional, mesmo que imigrante, indiana, e tem o elenco todo indiano, e com produção indo-escocesa, que mostra duas jovens mulheres em um relacionamento gay. Isso não é lá muito comum, não é? Ok, isso faz o filme se tornar mais interessante. Primeiro porque os relacionamentos gays na cultura indiana ainda são um graande tabu (se já é na nossa, imagina na deles). Segundo porque até mesmo hoje em dia, é muito difícil ver filmes (filmes não "adultos", meninos!) que tratam de relacionamentos homossexuais femininos. Quem se lembra de algum, levanta a mão (ou melhor, comente abaixo!:D). As pesquisas já mostram que o relacionamento amoroso entre mulheres é muito menos aprovado pela sociedade do que o relacionamento entre homens. E acho que o filme trata isso com naturalidade, tenta quebrar tabus (o melhor amigo de Nina é um transexual) e diverte como uma comédia romântica que, convenhamos, tem um roteiro fraquinho, mas pelo menos trata de questões interessantes.

O filme peca muito na qualidade e na previsibidade. O orçamento percebe-se de longe que é fraco e os efeitos especiais...bom, teria sido uma boa ideia tirá-los, já que não ficaram bons mesmo! Cenas externas gravadas em estúdios, fantasmas que aparecem e desaparacem em efeito fade, além de falta de uma atuação forte da protagonista que apesar de tentar, não convenceu muito no papel jovem determinada-apaixonada-confusa. A história do romance é bem previsível logo no início e as reviravoltas também. E a comida indiana...bom essa é de dar água na boca! (para quem gosta)

Nina's Heavenly Delights é um filme, porém, bom para ser visto de forma despretensiosa, com amigos, um namorado (desde que ele não seja um preconceituoso de carteirinha e se for, larga ele na porta e vai assistir sozinha!), num fim de tarde ou num dia em que você está de bobeira sozinha passeando pela cidade. Ele também mostra uma realidade interessante da vida de imigrantes em Glasgow (inclusive Nina tem uma irmã que faz dança tradicional escocesa, o que causa um certo impacto à primeira vista, mas que diabos, elas são escocesas, ué!) e tem uma temática interessante.

PS: me sinto meio ultrajada de ter ido ver um filme no cinema de 2006 em 2010! Isso é o que enfraquece o cinema...

domingo, 25 de julho de 2010

Tudo pode dar certo (Whatever works)



Um filme de Woody Allen é sempre um filme de Woody Allen. E é muito difícil fazer uma crítica de Tudo pode dar certo porque o último filme que vi dele foi Vicky Cristina Barcelona. Filmaço. E um dos filmes que está no “top 10” da minha lista de filmes preferidos é A Rosa Púrpura do Cairo (fantástico). Bom, o que me chama a atenção nos filmes de Allen é a agilidade dos roteiros e diálogos em seus filmes e a sua capacidade de contar histórias de relacionamentos – dos mais simples aos mais conturbados. E aí está a graça em seus filmes, pois nenhum relacionamento é perfeito, e a fantasia criada por Hollywood de “felizes para sempre” com certeza não cola para Allen.

Também não sou muito fã de cinema “explosão”. Estou longe também de querer ver só filmes europeus ou de pequenos circuitos. Adoro o cinema americano – mas o cinema inteligente, independente, das novas ideias, de roteiros incríveis. Allen transporta para seus filmes uma aura de simplicidade, com pitadas de comédia e reflexões sobre a vida, mostrando que o ser humano é muito complexo quando se trata de seus sentimentos. Os relacionamentos são complexos e as pessoas tem uma capacidade de metamorfose durante a vida que impressiona. E é isso que Allen faz, mostrar essa metamorfose. Bom, vou parar de devanear sobre Woody Allen e falar um pouco sobre o filme.

Tudo pode dar certo é um desses filmes que faz você refletir sobre a importância dos relacionamentos, mesmo aqueles que você acha que nunca poderiam dar certo, acabando com diversos estereótipos sociais existentes. Ele conta a história de Boris Yelnikoff, um ex-professor de física e "quase ganhador do prêmio nobel", como gosta de dizer, que vive recluso em um apartamento em Nova York e passa os dias ensinando xadrez para crianças. Ou melhor, torturando criancinhas que querem aprender xadrez. A personagem de David tem poucos amigos, reclama muito da vida pois não vê mais sentido no universo e como ele funciona, tenta se suicidar num plano que não dá certo e não crê mais em muitas coisas no mundo, somente em que ele é um local de meros acasos.

Numa bela noite em Nova York (chuvosa e fria, é claro), Boris conhece Melody Saint'Ann Celestine (adoro o humor do Woody Allen :P), uma jovem da Louisiana com cerca de dezoito anos e pouco afeita ao ensino, e a abriga depois de muita insistência em sua casa. A convivência com a menina, que Boris acredita ser o oposto de tudo aquilo que ele já viveu em um relacionamento, o faz questionar sobre as chances deles, de origens totalmente opostas e estilo de vida totalmente diferente, se encontrarem, e acaba percebendo isso como um "sinal", como se o universo tivesse uma capacidade incrível de criar acasos. Na verdade, Boris acaba se afeiçoando a ela, que apesar de toda a falta de conhecimento em física e discussões sobre a relatividade, ri do que Boris fala, ouve e repete suas teorias e aceita as crises de pânico e o TOC que Boris desenvolveu durante a vida.

Tudo pode dar certo trata justamente do inesperado, do novo e da revitalização da vida de Boris - que ele achava que já estava praticamente acabada. Não importa se os relacionamentos são entre pessoas opostas, complicadas ou com idades muito diferentes (bom, não vou comentar muito sobre isso, além de que aqui mais uma vez Allen faz um auto-retrato dele, vide seu relacionamento com sua enteada), eles podem acontecer apesar de todas as leis da física, como diz Boris, dizerem que nunca vão.

No papel de Boris Yelnikoff está Larry David, roterista da série Seinfeld e protagonista da sua própria série Segura a Onda (Curb Your Enthusiasm). Com humor ácido e duvidoso, aparentemente muitos torceram o nariz ao vê-lo protagonizando um filme de Allen, mas Allen queria justamente alguém que tivesse semelhanças com Boris, mesmo que no filme a personalidade dele seja bastante exagerada. No papel de Melody, Rachel Evan Wood, atriz que despontou na adolescência por fazer o filme Aos Treze e ficou mais conhecida pelo papel em Across the Universe (que acho incrível – um musical com músicas do Beatles, podia ser mais genial? :D) e atualmente pela atuação em True Blood.

A partir do encontro de Boris e Melody e da construção de seu relacionamento, outras pessoas surgem nas suas vidas- a sogra, o sogro e um jovem interessado em Melody. E assim é construída a trama de Woody Allen, cheia de reviravoltas e com muito bom humor. Enquanto sua mãe tenta empurrar o jovem galã para a filha, ela mesma começa a rever seus relacionamentos e se interessar em ser ela própria. Melody, por sua vez, é uma jovem determinada e alegre que também amadurece durante o filme e ganhando a confiança e admiração de Boris e sua mãe.

Tudo pode dar certo , ou pela tradução literal, “o que funcionar” em inglês, é um filme para se refletir sobre a natureza dos relacionamentos e mostra que muitas vezes não há muitas explicações, previsões, leis que regulem o amor – simplesmente ele existe e você pode ser surpreendido quando menos espera.

(Talvez me falte um conhecimento maior de Allen para falar sobre sua psiquê, sua relação com as personagens e seu estilo de filmagem, mas para quem se interessar, aqui está uma excelente crítica do filme http://profepedro.wordpress.com/2010/03/14/tudo-pode-dar-certo-whatever-works-woody-allen-2009/ . Como disse antes, esse é apenas um blog sobre as impressões dos filmes que vejo e que eu acho que vale a pena pensar sobre).

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Flor do deserto (Desert flower)


Um cenário árido e ao mesmo tempo colorido pelas burcas femininas voando pelo deserto. Assim começa o filme Flor do Deserto, baseado na biografia da supermodelo somaliana Waris Dirie. Flor do Deserto conta a história de Waris desde o momento em que ela deixa sua tribo nômade no interior da Somália até alcançar o sucesso nas passarelas na década de 1980.

Diversos filmes biográficos contam histórias sofridas e da longa caminhada até a fama. Muitos acabam mal, outros bem. Lembro bem de uma biografia que gostei muito, Gia, também baseado na história da modelo de vida errática e viciada em drogas, que acaba pegando Aids e se torna uma porta-voz também da doença na década de 1980 (filme da HBO e primeiro destaque da carreira de Angelina Jolie). Flor do Deserto não é diferente, a heroína passa por uma longa caminhada de sofrimento e auto-descobertas durante todo o longa, até alcançar a felicidade.

O que marca o roteiro do filme é o drama pessoal vivido por Waris não somente em busca da fama ou de uma vida melhor na bucólica Londres no início da década de 1980, mas também do seu sofrimento devido à mutilação genital que passou, costume comum na Somália e em alguns outros países de origem muçulmana. Waris Dirie ficou conhecida por ter denunciado costumes extremamente tradicionais e pouco discutidos no mundo árabe e hoje é porta-voz da ONU na luta contra a mutilação feminina.

Waris sofreu também um grande conflito interno, mostrado no filme, de ter uma origem muçulmana e uma criação rígida e se abrir aos poucos à uma vida ocidentalizada, estrelando campanhas onde desfilava semi-nua, deixando o véu e a burca de lado. Chegou a fazer tratamentos médicos com médicos homens, algo impensável para os muçulmanos mais ortodoxos. Essa mudança não foi fácil e é neste ponto que o filme se torna um retrato fiel e bem direcionado dos conflitos de Waris. Não é somente a vida de princesa que é focado ou o sofrimento pela mutilação, mas todos os passos que a levaram a mudar sua forma de viver e pensar o mundo.

A também modelo Liya Kebede faz - e muito bem, diga-se de passagem - o papel de Waris. De origem etíope, com certeza ela é uma pessoa facilmente identificável com Waris e alcançou o estrelato também no mundo da moda pela sua beleza ímpar. O filme é praticamente Lyia, e Lyia consegue segurar esse papel de forma sublime, o que é muito difícil para uma atriz que está começando no ramo. É claro que a beleza a ajudou; porém, ela conseguiu se transformar na Waris confusa e na Waris determinada, de uma forma muito delicada.

Flor do Deserto é um drama e portanto, quem for mais emotivo pode ir preparando os lencinhos para ir no cinema. O tema é social e árduo, como já havia dito, mas como qualquer heroína do cinema, Waris consegue alcançar sua felicidade e se tornar uma pessoa com voz, levando ao mundo todo os conflitos que muitas mulheres vivem até hoje em algumas partes do mundo e que nem sempre são discutidos - ou conhecidos.