domingo, 21 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015)

Dirigido por Tom Hooper, mesmo diretor de O Discurso do Rei, o longa A Garota Dinamarquesa lança um olhar sobre Einar Wegener/Lily Elbe, conhecido pintor dinamarquês que passa por uma transição de gênero, e sua esposa, a também pintora Gerda Wegener, mostrando a história de transformação dele e de amor entre os dois.
Eddie Redmayne como Einar/Lily Elber
O filme estreou como uma sensação no cinema por abordar, principalmente, a transformação de Einar em transgênero na década de 1920. Com a biografia do pintor em mãos, o longa se inspira na sua história, e acaba se tornando não uma biografia histórica, mas uma história de autodescoberta e de amor, que transforma a relação do casal.
A Garota Dinamarquesa impressiona desde o início - um elenco jovem, porém bem escolhido, que mostra um pouco das transformações da juventude nos anos 1920, época do jazz, do ragtime e da revolução nos costumes femininos, comuns em toda a Europa. O relacionamento do casal de pintores desde o início chama atenção: cumplicidade é a palavra chave. O longa vai, entretanto, delineando uma nova realidade com a necessidade de Einar de mudar radicalmente a forma como se via no mundo, porém mantendo a mesma cumplicidade com a esposa que tinha no início. A relação muda e não muda ao mesmo tempo. O amor romântico abre espaço para um amor diferente. Esta é para mim o fio condutor da trama, que conta, na verdade, a história da garota dinamarquesa do título, interpretada por Eddie Redmayne, e sua esposa, interpretada por Alicia Vikander, atriz sueca.
Alicia Vikander e Eddie Redmayne como o casal Lily Elber e Gerda Wegener

Diga-se de passagem, impressiona a atuação de Eddie Redmanyne como Einar e Lily, uma transformação detalhada para o espectador. Um dos grandes trunfos do roteiro é mostrar essa transformação em todos os seus passos. Redmayne transforma delicadamente seu personagem, e quando percebemos, já é Lily. De fato me impressionei com a interpretação, e creio que talvez consiga o seu segundo oscar em seu segundo papel de destaque no cinema, o que é impressionante. Como sabemos que Leonardo DiCaprio historicamente é preterido pela academia, não me espantaria se a estatueta fosse para Redmayne.
A atuaçào de Redmayne impressiona pelas nuances e dificuldade de seu personagem
Em contrapartida, Alicia Vikander não deixa a desejar. A atriz está excelente no papel, e desconhecida do grande público, impressiona pela força de atuação, em um papel dramático e difícil.
Chamo atenção ainda para a direção de arte, fotografia do filme e a trilha sonora. O longa é lindo, considerado particularmente como "um filme artístico" devido à fotografia e direção de arte dele ser exuberante, mesmo mostrando uma dinamarca fria e chuvosa. Não faço spoiler, mas posso dizer que a cena final é de uma beleza impressionante, o que me faz lembrar que Hooper também dirigiu o musical Os Miseráveis, longa que demorei a ver mas fiz crítica aqui no blog, um dos filmes mais bonitos que já vi.
Gerda pintando Lily, sua inspiração
A Garota Dinamarquesa recebeu muitas críticas devido à adaptação do livro do escritor norte-americano David Ebershoff, e por não contar a verdadeira história do casal. O longa, na verdade, é inspirado na história do pintor. Caso contrário, realmente não há como dizer que o filme seria bem recebido, pois as mudanças biográficas foram muitas no romance e na adaptação para o cinema.
Acredito que o filme seja relevante pois traz uma discussão atual, assim como Carol, sobre a liberdade da escolha de gênero e mostra, com muito cuidado e delicadeza, o drama de Einar/Lily, em uma época em que era sua mudança de gênero trazia ainda muito preconceito. Infelizmente, nos deparamos com uma realidade atual que nos faz ver que o preconceito ainda persiste. Por isso, se torna mais que importante o lançamento de filmes que reforcem a liberdade de escolha individual.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Carol (2015)

O filme Carol estreou como uma das grandes sensações do cinema de 2015. O filme foi ainda indicado ao Oscar em seis categorias. Sendo um drama ambientado na década de 1950, me indaguei sobre o que faz com que Carol seja um drama que, em geral passaria escondido pelo grande público, ser tão badalado?
O longa lança mão de uma realidade feminina na década de 1950 - preconceito em relação à casais homossexuais - para relatar o drama de duas mulheres que se apaixonam mas não podem ficar juntas, por questões legais, por pressões de ex-marido, ou pela sociedade não aceitar que uma mulher divorciada crie uma criança com outra mulher.
Cartaz do filme Carol
O tema ligado ao universo feminino está em alta ultimamente, o que é fantástico ao percebermos os movimentos coletivos femininos, na internet, nas ruas e na circulação de notícias por pessoas que entendem e enxergam que a mulher é, sim, historicamente, alvo de muito preconceito. Neste sentido, Carol, interpretada por Cate Blanchett, é uma mulher linda, inteligente, bem articulada, amorosa com a filha, que tem um "pecado": ser gay. E entender que, em uma época tão próxima à gente, essa condição era motivo para perder a guarda de crianças e considerada distúrbio psiquiátrico.
Dirigido por Todd Haynes, que descobri que é autor de Mildred Pierce, série premiada da HBO que relata a história de superação de uma dona de casa que se divorcia do marido no mesmo período do filme Carol, o longa tem um ritmo lento e uma fotografia belíssima. Explora não somente a vida da personagem título, mas também da mulher de quem se apaixona, contando, na verdade, a história das duas a partir da realidade de Therese (Rooney Mara), a balconista da loja de departamentos que se torna companheira dela.
Carol e Therese se conhecendo
O longa é ainda muito bonito por contar uma história de romance de forma delicada e realista. Imaginando como deveria ser na década de 1950 duas mulheres namorarem, fico pensando que era exatamente assim - sendo consideradas amigas, viajando juntas, sendo paqueradas em bares...é, até hoje me parece que isso é uma realidade. Mulheres que andam de mãos dadas são apontadas na rua, beijos na rua são motivo de piadas masculinas...é uma realidade dura, mas uma realidade.
O que quero dizer é que Carol, no alto de sua fotografia belíssima, atuações principais comedidas e excelentes, sua caracterização de época muito bem feita, é um drama que pode não concorrer a um prêmio principal ao Oscar, mas com certeza é um dos filmes mais bonitos feitos em 2015.
Ressalto, ainda, que Rooney Mara, creio que propositalmente, está a cara de Audrey Hepburn em Sabrina, de 1954, longa em que a atriz faz o papel da filha do motorista de uma família endinheirada, cujos filhos se apaixonam, e Ann, personagem de Hepburn em A Princesa e o Plebeu, de 1953. Acredito que, de forma intencional ou não intencional, o romance entre Carol e Therese se assemelha também aos longas, mas ao invés do casal tradicional masculino-feminino, são duas mulheres que se apaixonam.
Cate Blanchett fantástica no papel, como sempre
Posso dizer que achei Carol um longa bonito e muito interessante, e creio que faz jus à todas as indicações a que concorre. É, ainda, relevante, pois por mais que os tempos tenham mudado, a nossa sociedade está longe de conviver em harmonia e paz com as escolhas pessoais e orientações de gênero dos outros. Compreender o outro é sempre importante para entendermos que a luta por direitos e tratamentos iguais é uma luta sofrida, diária, histórica e permanente.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Segredos Revelados (Spotlight, 2015)

Após um longo período sem postagens e a pedido de uma amiga, eis que volto a fazer crítica de filmes neste blog. E para comentar um filme concorrente ao Oscar, já que esse período pré-premiação é um período bom pra sentar na sala de cinema/de casa e ver um filme indicado. Apesar das polêmicas envolvendo a premiação (inclusive a deste ano, com zero diversidade nas indicações), os filmes indicados em geral têm muita qualidade.

Cartaz de Spotlight
Spotlight, ou Segredos Revelados, em português, é um filme que surpreende gradativamente e pela fluidez do roteiro, direção, atuação e continuidade se torna um filme fantástico ao espectador. Por isso, provavelmente, não foi uma surpresa sua indicação para melhor filme. O longa tem um tema "duro" para o cinema e para quem está acostumado com ritmo rápido, efeitos visuais ou uma história com final dantesco, o filme deixa a desejar. Porém, para quem gosta de filmes investigativos, jornalísticos e realistas, cuja história se revela aos poucos, o filme é primoroso. Primeiro porque ele se passa em 2001, em uma época em que o jornalismo era feito de forma diferente. Não havia grandes redes sociais e os jornais ainda eram comprados em bancas ou por assinaturas. Hoje o jornalismo vive da web, e cada vez mais sua versão "física" deixa de existir - tempos modernos... o longa mantém um ritmo um pouco mais lento, conectado com o tempo em que a história se passa. É muito interessante ver como o ritmo de vida era outro - mesmo sendo um passado um tanto quanto recente.

O time de jornalistas investigativos do Boston Globe
Segundo, o roteiro - baseado em uma história verídica - se desdobra na investigação do grupo de jornalistas do Boston Globe conhecidos como Spotlight Team, reconhecidos por trabalhar com jornalismo investigativo. A investigação que fez o grupo se tornar conhecido no mundo se relaciona a crimes de pedofilia reconhecidos pela Arquidiocese de Boston e encobertos por acordos fechados na Justiça na cidade, das décadas de 1970 a 1990. Apesar do filme não focar em comentários de abusos ou relatos muito pesados, é possível sentir o peso tanto das pessoas que carregam na vida adulta o trauma do abuso sexual sofrido, quanto dos jornalistas que se deparam cada vez mais com histórias sofridas e dolorosas de serem contadas e ouvidas.

O grupo investigativo no Boston Globe
O filme recebeu um nome em português que tira um pouco a atenção do seu foco:  o foco não é a história em si, mas o "time" de jornalistas investigativos do Boston Globe. A história dos abusos sexuais de padres da Arquidiocese de Boston é contundente e chocante, mas a ação investigativa é o que traz o suspense ao filme e o que o faz quase perfeito. Perfeito em sua proposta e na sua continuidade - a continuidade é impressionante neste filme; perfeito na escolha de seus atores: Michael Keaton finalmente após Birdman conseguiu mostrar sua versatilidade; Rachel McAdams sempre ótima (não consigo achar um falha de atuação em nenhum filme com a atriz até agora, sem esquecer seriados, especificamente vi True Detectives); Mark Ruffalo, mais uma vez impressiona com a dramaticidade presente em gestos contidos, e Stanley Tucci, o qual não teço comentários pela grandiosidade de sua atuação, sempre. O longa é, ainda, excelente nos quesitos fotografia e edição, antenadas ao sem tempo e que nos faz "transportar" para 2001.

Stanley Tucci, interpretando o advogado Mitchell Garabedian
Spotlight conta com a direção de Thomas McCarthy, diretor com boa carreira em Hollywood, mas creio que após este longa irá deslanchar mais ainda na indústria. Posso dizer que vi um filme escrito e dirigido por ele, o primeiro da sua carreira, "O Agente da Estação" (2003), e que é um debut muito interessante para um diretor norte-americano. O filme fez muito sucesso no cenário independente.

Finalizo dizendo que gostei, e muito, de Spotlight. O tema é extremamente relevante, a história deslancha com o passar do tempo e me surpreendi, ao acabar, com a sensação de querer ver mais. O cinema, quando bem feito, dá essa sensação mesmo...filmes nunca acabam, mas permanecem em nossa memória, sendo revisitados de tempos em tempos.


domingo, 20 de setembro de 2015

Que horas ela volta? (The second mother, 2015)

Pela primeira vez escrevo o nome do filme em português e em parênteses em inglês. Faço isso com orgulho porque o novo filme de Anna Muylaert, que vem conquistando público no país, só começou a engrossar sua bilheteria após anúncio de ser o candidato ao Oscar de filme estrangeiro, feito dia 10. O longa faz "carreira internacional" desde o início do ano, sendo lançado em vários países com o nome de "A segunda mãe". Além disso, já recebeu prêmios de melhor atuação para Regina Casé, no Festival de Sundance, de crítica e de público no Festival de Berlim e de melhor filme no Festival de Amsterdã. Não dá pra deixar de nos indagarmos porque uma comédia supostamente despretensiosa anda conquistando tanto público lá fora.

Regina Casé como Val, a "segunda mãe" de Fabinho (Michel Joelsas)
Receber tantos prêmios e ser lançado em vários países me deixa um tanto quanto orgulhosa, uma vez que são poucos os filmes nacionais que têm tido sucesso de público no exterior e no país simultaneamente. Mas conquistar público nas salas nacionais, quando o filme tem uma estética inovadora ou uma temática social, também é algo para se comemorar, mesmo que sua fama tenha precedido o público. É interessante entender, também, o porquê disso.

O longa conta a história de Val (Regina Casé), que é a empregada doméstica/babá da família de Bárbara (Karine Teles), uma publicitária ou especialista em moda, cuja profissão não fica claro na história. Val é nordestina, vive no trabalho e visita pouco a filha e a família, com quem conversa via telefone quase todos os dias. Val é o retrato de muitas mulheres que trabalham em casas da classe média alta ou alta em São Paulo e no Rio de Janeiro. E é em São Paulo que encontra um "novo filho", o filho da patroa. Não é à toa que na maioria dos países o filme ganhou o nome de "A Segunda Mãe". É Val quem cuida do filho de Bárbara, Fabinho (Michel Joelsas), quem educa, que é cúmplice dele, que pergunta sobre a vida dele e quem o mima antes de dormir. Val é a mãe que Fabinho não teve.

Uma cena simples e bonita do filme - Val tem um cotidiano fechado.
Pegar um sol no quintal é uma das coisas que ela tem prazer de fazer
Com o passar do tempo, Fabinho cresce e se torna um adolescente amoroso. Pouca coisa muda na vida dela e no cotidiano da casa. Um belo dia Val recebe um telefonema da filha dizendo que ela está indo para São Paulo tentar o vestibular. Sem saber ao certo o que fazer com a filha que conhece pouco, Val conversa com a patroa que diz que ela "é praticamente família", e que a filha pode vir à vontade ficar na casa. Compra até um colchonete para ela dormir no quarto de empregada com a mãe. Quando Jéssica (Camila Márdila) chega na casa, os conflitos começam a ocorrer. E não é só o cotidiano separado dos patrões e empregados mostrados na trama que a deixa interessante, mas o conflito gerado por uma menina adolescente que chega em uma casa e é chamada de convidada, mas pela patroa, é vista como empregada. Essa dinâmica de estabelecimento de papéis claros na casa de Bárbara faz com que surjam diversos problemas, e faz com que Val, a grande protagonista da trama, comece também a questionar algo que para ela nunca foi questionável.

Val e a filha, Jéssica (Camila Márdila), discutindo sobre o uso da piscina
O filme traduz, assim, uma situação social que já vimos ou vivenciamos no Brasil. Não dá pra dizer que não vimos. O conflito de classes na relação de subalternidade que se estabelece no país desde as senzalas e a escravidão, permanece em muitos lares, de forma velada, passivo-agressiva e com muito preconceito embutido. Muito mudou na relação empregada doméstica/patroa? Sim e não. Em muitos lares a mesma relação permanece, de forma velada. Só que nos acostumamos com isso. O filme, na verdade, nos faz ver nossa sociedade. Que história é esse que não podemos lavar um copo, é tarefa da empregada ou diarista? E arrumar a cama, é tarefa também da empregada? Colocar o prato na pia da cozinha, jantar na mesa da cozinha...isso tudo reflete uma situação que todos já vimos: a desigualdade social nas casas brasileiras desde o século XIX, que se desenvolve de forma espacial. E esse é um dos motes do filme, como exemplo, na cena em que a própria patroa de Val deixa claro, após ficar irritada com os "abusos" de Jéssica, que subverte a ordem local: ela deve ficar "da cozinha pra lá, pros fundos da casa".

Val na cozinha - onde a maior parte das cenas é filmada
Que horas ela volta? traz, assim, um interessante retrato do Brasil, um que achamos que já tínhamos esquecido nesse século XXI, mas que existe na nossa sociedade. O forte do filme, porém, não é só a sua crítica social. O outro forte do filme tem nome e sobrenome: Regina Casé. Ela apresenta uma composição de personagem incrível, marcante, contida e forte ao mesmo tempo, um retrato de uma mulher trabalhadora, humilde, isolada em sua vida penosa, que começa a perceber, nas situações e nos diálogos com a filha, que seu mundo poderia ser maior. Val é extremamente empática, é engraçada, e é uma personagem contida, sem grandes explosões. Casé está brilhante - e não dá pra dizer que não conhecemos o potencial dela pra comédias - neste caso, claramente um drama com pitadas de comédia. O elenco de apoio na trama - todos os membros da família de Bárbara, os empregados da casa, a sua filha e sua amiga, também empregada doméstica, estão todos muito bem também. O trabalho de direção está ótimo, a composição, os diálogos e a continuidade da trama, também. Mas quem é a estrela, sem dúvida, é Casé.

A família de Barbara à mesa, esperando Val tirá-la
Posso dizer que o longa é imperdível, e vale muito a pena ser visto. Não só pela suposta concorrência ao Oscar, mas porque precisamos parar de ter aquela velha visão de que o cinema nacional é inferior ao cinema estrangeiro. Faço ainda uma mea culpa: preciso escrever mais sobre filmes nacionais neste blog, e ver mais os filmes nacionais. Acreditem, estamos fazendo escola, e já há muito tempo.




domingo, 6 de setembro de 2015

Para sempre Alice (Still Alice, 2014)

Ontem vi um filme que estava querendo ver há um tempo. Still Alice, em inglês, ou Para sempre Alice, é um filme dramático que é triste e, ao mesmo tempo, nos faz compreender com bastante profundidade o drama das pessoas que têm Alzheimer. Ou seja, por mais que seja triste, é um filme "must see", que devemos ver, não só pela sua história tocante e realista mas como pela atuação de Juliane Moore que é brilhante no longa.

Juliane Moore é a estrela de Para sempre Alice
Para sempre Alice conta a história de Alice Howland, uma professora de linguística da prestigiada Columbia University que tem uma vida muito boa, ativa, dezenas de artigos e livros publicados, um marido que é professor na mesma universidade com quem tem um relacionamento perfeito, e três filhos crescidos. Tudo está indo bem, ou "normal" na vida de Alice, até ela ter apagões, esquecer nomes, lugares, objetos. Ao procurar um neurologista, descobre que tem Alzheimer precoce, um tipo raro da doença que acomete milhares de pessoas no mundo. A partir daí começa a jornada de Alice de auto-descoberta, na busca por respostas para sua doença e de como lidar com ela.

O longa trata, assim, do drama de pacientes com Alzheimer que têm uma jornada dura de esquecimento de pessoas, de forma degenerativa e gradativa, até muitas vezes esquecer-se de tudo e de todos. Como fazer para manter a sua qualidade de vida? Como fazer para compartilhar boas lembranças ou curtir os entes queridos quando você não consegue mais se lembrar quem é ou quem são eles? E como a família faz para superar a tristeza de perder aos poucos as conversas, memórias compartilhadas, com o ente querido?

Moore e Alec Baldwin, em uma atuação comovente
Claro que todos conhecemos a doença, mas creio que só quem passou por esta experiência com um ente sabe a luta que é conviver com ela. Nunca aconteceu comigo, mas relatos de amigos, informações na internet, além de artigos jornalísticos nos faz ter apenas, creio eu, uma ideia, um relance do que é conviver com pessoas que tem a doença. A luta por tentar criar mecanismos de lembranças, e principalmente, para não se perder e esquecer quem é, se torna uma luta pessoal de Alice.

O longa retrata o drama de forma muito aberta, para falar a verdade, mas muito delicada. O drama de Alice é o drama de muitas pessoas, e ela conscientemente sabe o que vem pela frente. Criar os mecanismos de lembrança, seja com lembretes, com mensagens de celular, buscando voltar a locais do passado, vendo vídeos, são formas de manter viva a Alice que ela se lembra. Mas, como toda pessoa consciente de sua doença, ela sabe que o dia em que não se lembrará de mais nada irá chegar. E nós, os espectadores, também percebemos isso gradualmente na trama.

Alice em uma das suas aulas
A direção de Para sempre Alice ficou a cargo dos seus próprios roteiristas, Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Glatzer faleceu dias após a cerimônia do oscar. Ele sofria de esclerose lateral amiotrófica, doença que paralisa membros e como Alzheimer, é degenerativa. Alguns críticos dizem que Glazer tentou mostrar a perspectiva dos que sofrem com Alzheimer a partir do seu próprio drama pessoal. Outros que o roteiro estava pronto quando ele descobriu a doença, que acabou que ele se dedicasse mais ao projeto devido à rapidez da doença. De um jeito ou de outro, a delicadeza e o realismo presentes no filme ao mesmo tempo se devem tanto ao roteiro fiel dos autores em relação à doença retratada no longa, como pela atuação dela, especialmente, que está perfeita no papel. 

O filme conta ainda com a participação de Alec Baldwin como John, o marido de Alice, Kate Bosworth como Anna e Kristen Stewart como Lydia, filhas da personagem. O destaque está para Kristen, que se torna a filha mais presente durante a doença da mãe, apesar de claras divergências entre as duas mostradas no início do longa. Porém, creio que os personagens da trama são simplesmente arrebatados pela performance de Moore, que merecidamente levou o Oscar de melhor atriz neste ano pelo longa.

Kristen Stewart faz a filha mais nova de Alice, que se aproxima dela na doença
Para sempre Alice é, para mim, um filme dramático bem escrito, bem dirigido, bem feito, e mais que tudo, um filme importante. Importante porque retrata o cotidiano de pessoas que sofrem de uma doença que ainda é tratada como "demência" por muitos, ainda pouco conhecida por quem não a vivenciou em parentes, e esquecida por acometer pessoas com mais idade. Este não é o caso de Alice, ainda nos seus cinquenta anos, mas também não importa a idade que a doença se desenvolve. É importante tratá-la desde o início e compreendê-la com humanidade. Um filme tem um alcance incrível ao relatar dramas sociais, e neste caso, Glazer e Westmoreland conseguiram dar voz a milhares de pessoas com a doença, médicos, parentes e amigos de pacientes com Alzheimer, que não são compreendidos pelo mundo afora. Neste sentido, Para sempre Alice é fundamental para nos conscientizar da necessidade de se entender as pessoas que sofrem de Alzheimer com um pouco mais de clareza e, principalmente, humanidade.

sábado, 15 de agosto de 2015

A Delicadeza do Amor (La Délicatesse, 2011)

Faz tempo que não escrevo no blog. Faz tempo também que não vejo um filme que me chama a atenção por sua história simples e humana, ao definir diversas formas do amor. O filme A delicadeza do amor não poderia ser mais feliz em seu nome - ou, em francês, baseado em livro homônimo de David Foenkinos, La Délicatesse (a delicadeza), que transborda do início ao fim do filme.

Audrey Tauton como Nathalie, personagem principal
 A delicadeza do amor conta a história de Nathalie (Audrey Tauton), uma jovem francesa cuja profissão é desconhecida do início ao fim do longa, e que no auge de sua juventude está perdidamente apaixonada por François (Pio Marmai), seu namorado de longa data. François, por sua vez, também é apaixonadíssimo por Nathalie e os dois formam um par perfeito, até que um dia o destino os desune: François morre em um acidente, e Nathalie se vê perdida e sozinha no mundo.

A partir deste início alegre e em poucos minutos triste, o longa começa a dar a nuance que faz jus ao seu nome: a delicadeza das diversas formas de amor que existem, seja de Nathalie, que se vê perdida sem François e se fecha em seu luto, à mãe dela, que não sabe o que fazer para agradar a filha, à melhor amiga, Sophie (Joséphine de Meaux), que em uma atuação com uma sensibilidade enorme acompanha Nathalie com cautela e muito amor na sua jornada para refazer a vida. Por fim, ainda aparecem no longa outras formas de amor romântico: o chefe apaixonado e não correspondido e, finalmente, o colega de trabalho, Markus (François Damiens), que com muita sensibilidade busca conhecer Nathalie, em encontros e desencontros pouco previsíveis.

François Damiens como o desengonçado Markus, excelente no papel
 Audrey Tauton, como sempre, consegue fazer personagens fortes e sensíveis de uma forma especial, o que a transformou em uma verdadeira referência do cinema contemporâneo francês. Por sua trajetória em longas românticos, além do brilhante O Fabuloso Destino de Amélie Poulain que a lançou ao estrelato mundial, Audrey ficou conhecida por ser uma atriz delicada e forte ao mesmo tempo - o que acaba tornando este papel perfeito para a atriz. François Damiens também convence enormemente como o desengonçado e simpático colega de trabalho sueco de Nathalie, que por acaso (e o acaso faz parte do filme desde o início) se vê apaixonado por ela e ela intrigada com ele. Preterido por todos por seu jeito estranho e sua aparência nada galante, François é um homem grande e também delicado, e que se sente apaixonar por Nathalie com muita cautela, com medo da dor que poderia se seguir ao não ser correspondido.

Nathalie, no longo caminho para reconstruir sua vida
 O longa se ancora, assim, nestes dois personagens, apesar de todos os coadjuvantes do filme serem fundamentais para entender melhor estes dois personagens. O longa conta também com um inusitado roteiro, como, por exemplo, o medo constante de Markus que faz com que ele simplesmente fuja dela em uma cena divertida e, ao mesmo tempo, compreensível metaforicamente. Quem nunca teve medo de se apaixonar?

Nathalie e Markus, um casal adorável, mas visto no longa como improvável
 As cenas finais do filme são de uma poética incrível, mas que não vale a pena contar aqui, senão todos perderiam o prazer de ver um filme que, do início ao fim, prima pelo inesperado e pela reconstrução, lenta e gradual, da vida de Nathalie. O longa é uma ode sensível ao amor incondicional, em suas diversas facetas e nuances.

domingo, 15 de março de 2015

O Despertar de Rita (Educating Rita, 1983)

Em homenagem ao aniversário de Michael Caine, resolvi escrever uma crítica que tinha me prometido há um bom tempo sobre um filme relativamente antigo dele (dois anos mais novo que eu!) que achei fantástico. Em inglês, seu nome é "Educando Rita" e em português o filme recebeu o nome de O Despertar de Rita, apesar da peça na qual ela se baseia (de Willy Russel) ter sido traduzida como Educando Rita na nossa língua. O filme me tocou muito, não só por ser bastante delicado ao tocar nas questões de relacionamento, diferenças de classes e as trocas de conhecimento na educação, como também por mostrar dois atores excelentes (Michael Caine e a também incrível Julie Walters) contracenando uma peça que, transformada em filme, não perdeu suas características dramáticas.

Julie Walters e Michael Caine como Rita e Prof. Frank Bryant

Sir Michael Caine é um ator de várias facetas, um dos melhores de sua geração, talentoso e com certeza galanteador em seus tempos de Alfie (1966), mas com uma potência teatral incrível, como muitos atores britânicos. Ver filmes com Caine para mim é um prazer. É o tipo do ator cujos filmes procuro assistir, como se tivessem um certo "selo de qualidade". Alguns mais comerciais marcaram sua carreira, mas outros são tão poderosos que você começa a amar a arte de interpretação e se questionar "como pode um ator ser tão brilhante e realista em cena?" Muitos com certeza amaram sua atuação em O Americano Tranquilo (2002, outro filmaço dele), filme relativamente mais recente que ele protagoniza. Outros ainda o lembram em Hannah e suas irmãs (1986), de Woody Allen, que lhe rendeu também um Oscar pela atuação incrível.

Caine interpreta brilhantemente o professor de literatura antipático
 e alcóolatra que se torna tutor de Rita

O Despertar de Rita é um longa que, por se basear em um roteiro de peça teatral, tem como características diálogos intensos entre os dois protagonistas da trama, Frank Bryant (Caine), professor de literatura inglesa, e Rita (Walters), uma cabelereira de origem humilde que busca na universidade aberta se aprimorar nos estudos e na leitura de clássicos da literatura. Com sotaque puxado devido à sua criação em bairro trabalhador (o chamado cockney), e procurando dar algum sentido maior à sua existência que não perpasse as questões práticas e simples do cotidiano, Rita busca o conhecimento, com o sonho de estudar e, quem sabe, se formar em literatura e escrever romances. Na universidade, Bryant, um professor considerado brilhante mas tomado pelo alcoolismo e desiludido com a vida, é praticamente forçado a aceitar a aluna, uma vez que sua atitude irascível é vista com temor pelo departamento e lhe restam poucas opções para continuar ativo no mesmo, como ser tutor de Rita. 

Rita e sua busca pelo conhecimento - e autoconhecimento 

Desta forma se inicia o longa, que vai ganhando a nossa atenção a cada cena contracenada por estes dois protagonistas. Muito comparado a Pigmalião e, claro, My Fair Lady, O Despertar de Rita tem a clareza desta inspiração, mas se propõe a mais que isso. Não há apostas nem obviedades na relação entre os dois protagonistas. As tensões surgem e diminuem com o aumento da afetividade dos dois, e a profundidade dos diálogos tira o aspecto paternalista presente em My Fair Lady. O longa retrata o desenvolvimento de Rita como uma pessoa com maior auto-estima, e de Bryant também, abalado por uma desilusão amorosa e, consequentemente, acadêmica.

Uma parte interessante do longa é decisivamente a vida de Rita fora do campus da universidade. Casada com um eletricista, sua família vive do trabalho para pubs e para casa, e seu pai a pressiona para ter logo um filho. Em um diálogo interessante entre pai e filha, o pai a questiona por ter vinte e sete anos, ser casada há seis e sem nenhum filho, sendo que sua irmã mais nova já estava grávida. Rita ignora os clamores do pai e adia a decisão da gravidez por desejar ainda estudar antes de criar família, e não cair no mesmo círculo vicioso que suas amigas e irmã. 

Walters e Caine passeando pelo campus universitário

Claro que a decisão de Rita propõe uma tomada de consciência de sua vida, em uma atitude autônoma de buscar o conhecimento e crescimento pessoal, e uma visão bastante idealizada de um futuro o qual ela ainda não conhece. Neste conflito pessoal, Rita encontra no professor, que resiste em lhe ensinar, um desafio, pois para ela, ele tem justamente tudo o que ela luta para conseguir, mas não valoriza. Com o tempo, os dois passam a ter um entendimento e compreensão mútua da vida de cada um e a respeitar cada um. Rita percebe que muitas vezes a idealização do futuro pode não trazer a felicidade plena - como não o fez para ele. Da mesma forma, a vida dela passa a ser conhecida por Bryant, que vê as angústias da aluna em tentar se afirmar junto à família, que não vê sentido no interesse de Rita pelos estudos.

Escrito por Willy Russel e dirigido por Lewis Gilbert (que fez parceria com Caine em Alfie, sendo indicado a vários prêmios, e com Willy Russel novamente em Shirley Valentine), o longa foi indicado a quase todos os prêmios principais de cinema em 1984, tendo ganhado Bafta de melhor filme, ator e atriz neste ano. Julie Walters ainda ganhou o Globo de Ouro por sua primeira performance no cinema, e foi indicada ao Oscar, assim como Caine. O longa debate um tema interessante e a busca pelo autoconhecimento - de ambos os protagonistas. É um filmaço para ser visto e revisto (eu revi assim que assisti pela primeira vez) , além de não trazer nenhum final convencional como filmes hollywoodianos. 

Mais uma vez os dois protagonistas do longa


O Despertar de Rita é um filme para assistir, refletir e pensar na complexidade da vida e nos caminhos que ela nos traz - e como nós mesmos somos responsáveis por estes caminhos. Pra terminar, em um diálogo emblemático no filme, Rita diz a Bryant, ao falar sobre seus estudos: "estou começando a me achar. Está sendo ótimo" ("I'm begginning to find me. It's great") E esse é o mote do filme, na minha opinião: o caminho para o autoconhecimento, para ambos os personagens.