domingo, 15 de março de 2015

O Despertar de Rita (Educating Rita, 1983)

Em homenagem ao aniversário de Michael Caine, resolvi escrever uma crítica que tinha me prometido há um bom tempo sobre um filme relativamente antigo dele (dois anos mais novo que eu!) que achei fantástico. Em inglês, seu nome é "Educando Rita" e em português o filme recebeu o nome de O Despertar de Rita, apesar da peça na qual ela se baseia (de Willy Russel) ter sido traduzida como Educando Rita na nossa língua. O filme me tocou muito, não só por ser bastante delicado ao tocar nas questões de relacionamento, diferenças de classes e as trocas de conhecimento na educação, como também por mostrar dois atores excelentes (Michael Caine e a também incrível Julie Walters) contracenando uma peça que, transformada em filme, não perdeu suas características dramáticas.

Julie Walters e Michael Caine como Rita e Prof. Frank Bryant

Sir Michael Caine é um ator de várias facetas, um dos melhores de sua geração, talentoso e com certeza galanteador em seus tempos de Alfie (1966), mas com uma potência teatral incrível, como muitos atores britânicos. Ver filmes com Caine para mim é um prazer. É o tipo do ator cujos filmes procuro assistir, como se tivessem um certo "selo de qualidade". Alguns mais comerciais marcaram sua carreira, mas outros são tão poderosos que você começa a amar a arte de interpretação e se questionar "como pode um ator ser tão brilhante e realista em cena?" Muitos com certeza amaram sua atuação em O Americano Tranquilo (2002, outro filmaço dele), filme relativamente mais recente que ele protagoniza. Outros ainda o lembram em Hannah e suas irmãs (1986), de Woody Allen, que lhe rendeu também um Oscar pela atuação incrível.

Caine interpreta brilhantemente o professor de literatura antipático
 e alcóolatra que se torna tutor de Rita

O Despertar de Rita é um longa que, por se basear em um roteiro de peça teatral, tem como características diálogos intensos entre os dois protagonistas da trama, Frank Bryant (Caine), professor de literatura inglesa, e Rita (Walters), uma cabelereira de origem humilde que busca na universidade aberta se aprimorar nos estudos e na leitura de clássicos da literatura. Com sotaque puxado devido à sua criação em bairro trabalhador (o chamado cockney), e procurando dar algum sentido maior à sua existência que não perpasse as questões práticas e simples do cotidiano, Rita busca o conhecimento, com o sonho de estudar e, quem sabe, se formar em literatura e escrever romances. Na universidade, Bryant, um professor considerado brilhante mas tomado pelo alcoolismo e desiludido com a vida, é praticamente forçado a aceitar a aluna, uma vez que sua atitude irascível é vista com temor pelo departamento e lhe restam poucas opções para continuar ativo no mesmo, como ser tutor de Rita. 

Rita e sua busca pelo conhecimento - e autoconhecimento 

Desta forma se inicia o longa, que vai ganhando a nossa atenção a cada cena contracenada por estes dois protagonistas. Muito comparado a Pigmalião e, claro, My Fair Lady, O Despertar de Rita tem a clareza desta inspiração, mas se propõe a mais que isso. Não há apostas nem obviedades na relação entre os dois protagonistas. As tensões surgem e diminuem com o aumento da afetividade dos dois, e a profundidade dos diálogos tira o aspecto paternalista presente em My Fair Lady. O longa retrata o desenvolvimento de Rita como uma pessoa com maior auto-estima, e de Bryant também, abalado por uma desilusão amorosa e, consequentemente, acadêmica.

Uma parte interessante do longa é decisivamente a vida de Rita fora do campus da universidade. Casada com um eletricista, sua família vive do trabalho para pubs e para casa, e seu pai a pressiona para ter logo um filho. Em um diálogo interessante entre pai e filha, o pai a questiona por ter vinte e sete anos, ser casada há seis e sem nenhum filho, sendo que sua irmã mais nova já estava grávida. Rita ignora os clamores do pai e adia a decisão da gravidez por desejar ainda estudar antes de criar família, e não cair no mesmo círculo vicioso que suas amigas e irmã. 

Walters e Caine passeando pelo campus universitário

Claro que a decisão de Rita propõe uma tomada de consciência de sua vida, em uma atitude autônoma de buscar o conhecimento e crescimento pessoal, e uma visão bastante idealizada de um futuro o qual ela ainda não conhece. Neste conflito pessoal, Rita encontra no professor, que resiste em lhe ensinar, um desafio, pois para ela, ele tem justamente tudo o que ela luta para conseguir, mas não valoriza. Com o tempo, os dois passam a ter um entendimento e compreensão mútua da vida de cada um e a respeitar cada um. Rita percebe que muitas vezes a idealização do futuro pode não trazer a felicidade plena - como não o fez para ele. Da mesma forma, a vida dela passa a ser conhecida por Bryant, que vê as angústias da aluna em tentar se afirmar junto à família, que não vê sentido no interesse de Rita pelos estudos.

Escrito por Willy Russel e dirigido por Lewis Gilbert (que fez parceria com Caine em Alfie, sendo indicado a vários prêmios, e com Willy Russel novamente em Shirley Valentine), o longa foi indicado a quase todos os prêmios principais de cinema em 1984, tendo ganhado Bafta de melhor filme, ator e atriz neste ano. Julie Walters ainda ganhou o Globo de Ouro por sua primeira performance no cinema, e foi indicada ao Oscar, assim como Caine. O longa debate um tema interessante e a busca pelo autoconhecimento - de ambos os protagonistas. É um filmaço para ser visto e revisto (eu revi assim que assisti pela primeira vez) , além de não trazer nenhum final convencional como filmes hollywoodianos. 

Mais uma vez os dois protagonistas do longa


O Despertar de Rita é um filme para assistir, refletir e pensar na complexidade da vida e nos caminhos que ela nos traz - e como nós mesmos somos responsáveis por estes caminhos. Pra terminar, em um diálogo emblemático no filme, Rita diz a Bryant, ao falar sobre seus estudos: "estou começando a me achar. Está sendo ótimo" ("I'm begginning to find me. It's great") E esse é o mote do filme, na minha opinião: o caminho para o autoconhecimento, para ambos os personagens.




domingo, 15 de fevereiro de 2015

Whiplash, em busca da Perfeição (Whiplash, 2014)

Com a proximidade do Oscar estreiam vários filmes interessantes nos nossos cinemas, filmes que ao longo do ano raramente entram em cartaz em grande circuito. Whiplash é um desses filmes que, com certeza, não fosse a indicação ao Oscar, entraria em pequeno circuito, devido à sua temática e à forma como foi filmado. Whiplash é um filmaço - e quem é amante da música, especialmente do jazz, vai se deleitar com este longa sobre um jovem baterista tentando se estabelecer como musicista de jazz em uma escola tradicional em Nova York.

Miles Teller interpretando Andrew em Whiplash

O longa, escrito e dirigido por Damien Chazelle, traz no seu enredo, focado na relação conflituosa, tensa e intensa entre duas pessoas (o jovem Andrew, interpretado por Miles Teller, e um renomado professor da Escola Shaffer, interpretado brilhantemente por J.K. Simmons) uma força incrível. O longa retrata um duelo entre o egocêntrico e renomado professor Fletcher, e seu pupilo, fã de Buddy Rich, desconhecido e fascinado com um mundo da música que sempre sonhou em participar.

Damien Chazelle escreve um roteiro extremamente apaixonante, o qual nos faz identificar com os sacrifícios do jovem e nos chocar com o ego exacerbado do professor, que humilha, faz piadas preconceituosas e pressiona seus alunos até eles terem um verdadeiro "breakout" ou "break down": ou se tornam perfeccionistas na arte de tocar instrumentos ou chegam à beira da loucura, em um abismo de depressão.

J.K. Simmons com Teller em um dos ensaios

É importante ressaltar que com um roteiro tão intenso esses dois personagens se destacam bastante, e não podiam ter escolhido melhor ator para fazer o professor carrasco de música Fletcher do que J.K. Simmons. Abocanhando vários prêmios ao longo do último ano, é o nome certo para ganhar Oscar de melhor ator coadjuvante no longa. Sua interpretação é artística, até brilhante, e pode-se dizer quase perfeita. J.K. Simmons arrebata o público demonstrando que o extremismo pode levar as pessoas a uma brilhante perfomance nos palcos, mas também a um fracasso estrondoso. E mostra, também, que esta linha é tênue.

J.K. Simmons, brilhante no papel do Maestro Fletcher
Miles Teller, por sua vez, ator que debutou junto à Shailene Woodley em Spectacular Now, filme extremamente interessante, com bom roteiro e bem dirigido, após alguns filmes mais comerciais demonstra que veio ao cinema escolhendo bons papéis, e pode ser que daqui a alguns anos ele mesmo seja um ator premiado e renomado em Hollywood. Ele está seguro no papel, mas claro, a grande estrela do filme é Simmons (apesar de ser o coadjuvante, e Teller o principal).

Sobre o enredo, alguns críticos chegaram a comparar o longa com Cisne Negro. Até mesmo vendo o filme deu para fazer essa comparação. O longa se parece sim, mas ao mesmo tempo traz uma temática diferente por abordar o mundo da música, e especialmente do jazz, que é verdadeiramente um mundo à parte. Envolvido em uma aura erudita (que existe no balé) e, ao mesmo tempo, com criatividade intensa (que não é comum à esta dança), Andrew busca adentrar no campo da música não somente tocando de forma perfeita, mas superando as expectativas de seu professor. A cena final do filme, a mais longa, creio eu, é emblemática neste sentido e de tirar o fôlego.

Whiplash, enfim, ganha o espectador com seu estilo de câmera, especialmente fotografia, montagem e edição, com closes nos instrumentos e nas mãos destruídas de Andrew, além do estilo comum também em Cisne Negro de seguir personagens com a câmera. A solidão de Andrew também é retratada, com longas cenas dele sozinho perambulando por Nova York ou tocando a bateria até a exaustão. Além disso, a solidão é vista no ressentimento a incompreensão que sente com os outros poucos personagens da trama,  nas noites de cinema com seu pai e especialmente na cena em que seus parentes contam histórias de "sucesso" de primos, sem reconhecerem a atuação de Andrew na reconhecidíssima banda de jazz de Terence Fletcher. O jazz, de fato, é um mundo à parte, e Whiplash retrata este mundo de forma precisa, lançando um olhar interessante e curioso (para leigos) sobre um mundo musical fechado e, por sua história musical e técnica, maestral.

Cartaz do filme, lembrando cartazes da década de 1950, anos áureos do jazz



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, 2014)

Faz tempo que não me impressionava com uma comédia. Relatos Selvagens é uma comédia de humor sarcástico e que, ainda, nos permite uma bela reflexão sobre a vida em sociedade. Algumas críticas que li sobre o filme (não é fácil fazer críticas, é preciso estudar!) falam que ele remonta a personagens que estão "à beira de um ataque de nervos". Isso porque o longa argentino é também produzido pelo cineasta Pedro Almodóvar. Outras críticas falam sobre o estresse do cotidiano e da incompreensão em uma sociedade que beira a "barbárie". Um terceiro crítico comenta que o filme é um belo exemplo de pessoas em situação limite (o chamado transtorno explosivo em Psicologia), como bem demonstrado no filme Um dia de fúria, com Michael Douglas enlouquecendo no trânsito - o qual um dos "relatos" do filme, o que achei mais interessante, se inspira completamente.


 Personagens de Relatos Selvagens
Parei pra pensar um pouco sobre estas análises e lembrei de algumas aulas que tive de América e as leituras de Domingo Sarmiento e José Martí, que discutem os conceitos de civilização e barbárie na América Latina. Sarmiento comentava o que era ser civilizado e moderno em um mundo de transformações rápidas e pautado no progressivismo europeu no fim do século XIX. A América Latina permanecia para ele parada, um exemplo de organização social próxima à "barbárie". Porém, o longa do argentino Damián Szifron não trata apenas de um exemplo latino-americano: as situações limites impostas no filme poderiam acontecer em qualquer cultura e sociedade. Por isso nos identificamos - a "barbárie" demonstrada no roteiro pode ser um exemplo de traços culturais latino-americanos? Sim e não. Poderia acontecer em qualquer lugar, afinal, vivemos em um mundo globalizado, com relações de poder, com um Estado fortemente burocratizado, que pode sufocar todos que minimamente se sentem incomodados com as regras sociais que temos que seguir.

Uma das histórias fala sobre as relações no trânsito - caóticas
Agora voltando a Relatos Selvagens, o longa é um exemplo raro de filme despretensiosos, com  um roteiro excelente, que não cai na mesmice e nos surpreende a cada segundo. Foi um sucesso na Argentina, e pelo jeito está sendo no Brasil também, com sessões lotadas. Foi indicado ao Oscar (o que dá um certo status, não é?) e, claro, a diversos outros prêmios no mundo. Uma característica interessante é que como ele é todo formado por relatos, ou seja, contos, não há um ator principal, apesar de Ricardo Darín ser o grande chamariz para o filme. Afinal de contas, é o Ricardo Darín! Mas ele é apenas mais um personagem de um dos contos sobre as relações humanas modernas.

Ricardo Darín no belo conto sobre o cidadão X Estado
Outra atriz que surpreende é Érica Rivas no papel da noiva Romina, que também tem seu "dia de fúria". Achei, inclusive, durante a sessão de cinema que a atriz estava espetacular, e não deu outra: ao acessar críticas havia elogias rasgados à jovem que deu um banho de interpretação, superando, vejam só, Darín como destaque de atuação no longa (não é fácil!).

Erica Rivas está sensacional como a noiva Romina
O longa conta com diversas sacadas muito interessantes e críticas. Podem perceber que não quero dar uma de spoiler então não estou contando muito. Mas se lembrarmos das nossas revoltas com a burocracia e com o poder público, que homogenizam as situações cotidianas e irritam qualquer cidadão que queira cobrar respostas sensatas do governo, se pensarmos nas loucuras do trânsito e como a falta de "civilidade" e boas maneiras, além da falta de respeito ao próximo que podem levar a rusgas nas estradas, e se pensarmos nas expectativas da sociedade sobre casamento e felicidade a dois, tão maquiada pelos milhares de "selfies" e posts esbanjando felicidade que vemos em facebooks, instagrams e afins (muitos estão longe de ser realidade), podemos nos identificar com o filme e fazer uma reflexão muito positiva da mensagem que ele quer passar. A mensagem, na minha opinião, é que nosso individualismo exacerbado em uma sociedade como a atual esbarra necessariamente no de outras pessoas, o que pode gerar atritos, e com isso vem a violência, o egoísmo, a vingança, a inveja, a raiva e o medo. Todas essas facetas são exploradas em Relatos Selvagens, em uma sacada genial de seu diretor e roteirista, que explora o tema com um humor sarcástico e reflexivo. 

Afinal de contas, como não se indignar com a corrupção, com o egoísmo e com a falta de educação do nosso dia a dia? Como não se indignar com o outro? Na verdade, Relatos Selvagens nos convida a refletir sobre o outro sim, mas também sobre nós mesmos, que muitas vezes vivemos a vida sem parar para pensar sobre a nossa própria conduta. 

O roteirista e diretor Damián Szafrón e Ricardo Darín
Vou terminar com uma reflexão acerca do conceito de modernidade. Como Anthony Giddens pondera de forma muito interessante, a pós-modernidade causa um sentido de desorientação, de "mal estar". Ela nos conduz desgovernada pelo tempo, desconectada do local e das tradições. Ela foge do nosso controle, e nos faz sentir que estamos em uma situação limite. É assim que devemos perceber o nosso mundo - não apenas um local de constantes mudanças e caótico, mas também que temos um papel nessas transformações e precisamos, cada vez mais, refletir como elas afetam a nós e aos outros. Relatos Selvagens é um pouco assim: parece que os personagens estão desgovernados, caóticos, loucos e confusos. E mesmo assim, acabamos nos identificamos com eles.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Boyhood (2014)

O Oscar está chegando e alguns filmes concorrentes começam a estrear nos cinemas nacionais. Na verdade, já faz cerca de um mês que Boyhood estreou mas eu só consegui ver agora. O filme, que conta a história de um menino que cresce sob os olhos do diretor, equipe e espectadores com o passar dos anos, já ganhou os principais prêmios do Globo de ouro e mais uma série de prêmios mundo afora. Boyhood, na verdade,  é um filme sobre o cotidiano e a vida familiar de um menino que se torna adulto, e pela sua originalidade e simplicidade se tornou o grande vencedor de festivais de cinema.

Ellar Coltrane na cena inicial do filme - com seis anos
Já faz muito tempo que Hollywood busca alternativas para melhorar sua indústria, que saturou por um bom tempo após blockbusters ou grandes produções deixarem a desejar no quesito qualidade de roteiro. Em compensação, filmes com assinatura, seja de atores ou diretores, têm se tornado filmes cada vez mais destacados na imprensa e nas críticas, trazendo uma alternativa à falta de originalidade do cinema nos anos 1990. Essa "absorção" de diretores de cinema independente já acontece há bastante tempo - uns quinze anos, e é justamente quando Richard Linklater começa a filmar a história de Mason (Ellar Coltrane), um garoto texano que mora com a mãe divorciada e a irmã mais velha e vive as desventuras de uma infância normal, mas claro, com problemas e descobertas.

Patricia Arquette interpreta - muito bem - a mãe de Mason e Samantha
Richard Linklater é um diretor bastante conhecido devido ao seu primeiro filme de sucesso - independente - e que contou com diversos prêmios em festivais de cinema: Antes do Amanhecer. Antes um filme desconhecido pela maior parte do público, e especialmente "chato" para os padrões hollywoodianos, pois retrata dois jovens se conhecendo em uma viagem na Europa e conversando todo o filme, Linklater começou a se tornar "queridinho"  na mídia após fazer o Antes do pôr-do-sol e Antes da meia-noite (que eu particularmente achei "mais do mesmo") e se tornar justamente um diretor original, vindo de uma corrente de cineastas independentes dos anos 1990. Sua assinatura é fazer roteiros com diálogos intensos e filosóficos sobre a vida, com a simplicidade de duas pessoas conversando num fim da tarde em um barzinho, ou discutindo os rumos da vida em uma reunião de amigos.

A fórmula deu certo, e tornou seus filmes muito mais interessantes que as sequências de explosões ou corridas de carros de concorrentes. É claro que Hollywood não se resume a isso - e hoje os roteiristas da indústria do cinema são disputados constantemente pelos estúdios, que buscam cada vez mais inovação como fórmula do sucesso. E com certeza Linklater foi original e inovador em Boyhood - e por isso merece ganhar todos os prêmios que ganhou até agora com o filme.

Ethan Hawke e Ellar Coltrane já um pouco mais velho

Boyhood conta a história de Mason dos seis aos dezoito anos. É muito interessante ver as mudanças que o menino passa em sua vida e os problemas que aguenta calado, por simplesmente não saber lidar, em cenas cotidianas mas que nos fazem nos sentir como ele, sozinho e amargurado. Separação de pais, falta de compreensão da mãe e da irmã, se mudar e perder o círculo de amizades que conquistou com muita dificuldade e ver a puberdade nascendo, com encontros inesquecíveis mas escassos com seu pai, que é a figura masculina no qual ele se ampara.

Mason e sua mãe - já adolescente
O filme tem sim um roteiro ótimo, que nos envolve na trama e nos faz identificar ou gostar mais ainda dos personagens - a mãe trabalhadora, o menino que tem dificuldades de se relacionar, o pai que "fracassa" ao não ter um emprego dos sonhos ou conseguir sustentar sua família, uma família que constrói seus laços com o tempo, respeito e compreensão. E isso tudo faz parte do cotidiano de tantas famílias, e do nosso próprio cotidiano familiar, que nos relacionamos com o tema.

O longa não tem nenhum momento "auge": ele apenas mostra o crescimento de Mason e seus relacionamentos com o tempo. E é incrível ver como o menino e sua irmã crescem e mudam fisicamente com o passar dos anos. Por outro lado, Patricia Arquette muda também, Ethan Hawke muda também, mas não é nada que não tenhamos visto com boas maquiagens, até porque as mudanças da puberdade são assustadoras, enquanto as da vida adulta vêm com mais serenidade. Além disso, todos viram Ethan Hawke mudar em seus vários filmes feitos nos últimos doze anos e Arquette mudar também em Medium, seriado que protagonizou entre 2005 e 2011.

Ellar Coltrane já adulto - com 18 anos
Boyhood merece ser visto - e merece ganhar todos os prêmios que ganhou. Em uma época em que roteiristas bons e originalidade são difíceis de achar, Boyhood nos brinda com um belo roteiro e uma reflexão de que "a vida não basta ser vivida"; é necessário ter sonhos, aspirações, desejos e motivação. E o longa mostra  que a vida é simplesmente um pouquinho de tudo isso.


sábado, 29 de novembro de 2014

Ela (Her, 2013)

O filme Ela é lindo. Quando o vi, algumas semanas atrás, parei estarrecida em frente à televisão pensando justamente isso: que filme bonito. Não só pelo seu roteiro fantástico, feito com bastante detalhe e cuidado por Spike Jonze, também diretor, mas como pelos aspectos estéticos da obra, a direção minuciosa e delicada, a composição dos dois personagens principais, interpretados (sim, interpretados!) por Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, como pelas reflexões que ele deixa no caminho, ligadas ao futuro dos relacionamentos humanos.

Ela conta a história de Theodore, um escritor de cartas por encomenda, uma realidade da futurística Los Angeles do filme (cuja data escapa ao autor). Neste admirável novo mundo, Theodore vive relações esfriadas, tem poucos amigos e amarga uma decepção amorosa que não consegue esquecer. Theodore, aquele que trata de sentimentos no seu próprio ofício, ao escrever cartas de aniversário, de amizade e de amor, não consegue externar sua angústia e seus sentimentos - e vive solitário.
Theodore e o OS Samantha
Até que, um belo dia, é lançado um novo sistema operacional (OS) que, na verdade, é uma inteligência artificial que conversa com você, reconhecendo seu perfil, suas convicções, defeitos e interesses, e rapidamente Theodore começa a utilizar a tecnologia - em um tentativa de buscar um novo relacionamento, mesmo que não humano, que dê algum sentido à sua rotina repetitiva. Desta forma, ele conhece Samantha (Scarlett Johansson), que mesmo sendo apenas uma tecnologia e apenas uma voz, faz ele se sentir confortável com ele mesmo, e começar a ter mais esperança na sua existência humana.


Theodore passeando com Samantha
Samantha, diga-se de passagem, é interpretada pela voz de Johansson, que em momento algum aparece no filme. Interpretada, também, com muito primor. A voz dela é tão reconhecível e a imagem dela é tão comum hoje, que fiquei já com a imagem da atriz na cabeça ao pensar em como Theodore imaginava ela - uma imagem irreal, mas que para nós é incorporada pela atriz reconhecidíssima em Hollywood.

Desta forma, começa o romance de Theodore e Samantha, que para nós é algo inimaginável de pensarmos no mundo atual, mas não impossível de existir no futuro. E se no futuro um sistema de computador pudesse reconhecer pessoas como Samantha reconheceu Theodore, com suas qualidade e defeitos, e ser um companheiro bom em momentos de tristeza? E se o sistema operacional pudesse se apaixonar, como nós, humanos, nos apaixonamos, afinal, eles adquirem características humanas por terem sido criados por nós?

Algumas dessas perguntas são feitas atualmente por especialistas de tecnologia informacional que tentam criar uma inteligência artificial bem parecida com Samantha, porém, ainda falham no famoso Teste de Turing (volta e meia algum desenvolvedor diz que conseguiu criar uma inteligência artificial que se comporta como humano, mas falha - até hoje ninguém passou). Mas cada vez estamos chegando a um nível de complexidade maior e isso pode se tornar uma realidade em um futuro não tão distante.

Ela mostra como uma paixão pode surgir entre um humano e um programa de computador. Porém, mostra mais ainda: como que as tecnologias, como é Samantha, podem evoluir para se transformar cada vez mais em humanos, e romper as barreiras que as tornam dependentes de nós. As transformações que Samantha traz à vida de Theodore são perceptíveis, mas as transformações de Samantha, que aprende com o sentimento compartilhado pelo humano, são bem maiores.

A fotografia do filme é linda
O filme de Spike Jonze pode parecer elaborado demais ou futurista demais, mas ele lembra muito O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov (cujo personagem título é estrelado pelo saudoso Robin Williams). Trazendo uma nova estética e um novo olhar sobre as máquinas, imaginadas por Asimov de uma forma muito diferente quando escreveu o livro em 1976, Ela traz uma reflexão sobre as relações humanas que uma máquina, robô ou inteligência artificial pode ter com seus companheiros - no caso, Andrew, o robô da família retratada em O Homem... é extremamente fiel aos seus donos, mas com o tempo aprende a viver como os humanos e deseja ser igual a eles e ganhar sua liberdade. Ele persegue sonhos, apesar de ser robô, e se apaixona, apesar de ser robô.

A partir desta temática, Jonze tece uma trama muito delicada sobre a relação de Samantha e Theodore, mocinhos pelo qual você se apaixona, esquece os detalhes de sua essência humana ou robótica e acaba torcendo para ficarem juntos.

Um outro fato legal do filme é sua estética - uma direção de fotografia incrível, feita por Hoyte Van Hoytema, holandês que também produziu Interstellar, que ainda não vi mas está na listinha de próximos filmes com as férias chegando. Engraçado que achei a estética bem legal, mas descobri aos poucos que havia uma coisa muito estranha na Los Angeles futurista: havia muitos atores extras asiáticos. Com o tempo, fui prestando mais atenção e achei um erro de continuidade: Theodore, em uma das cenas, desce em uma estação de metrô cheia de orientais e aparece uma plaquinha de indicações de caminho (eu acho!) em chinês. Descobri, ao ver os créditos, que o longa foi filmado também em Xangai.
Ela foi filmado parcialmente em Xangai
Pra terminar esta pequena crítica, acho que Ela entra na lista de filmes obrigatórios de serem vistos em 2014. Não só porque vale a pena, pelo roteiro, pelas atuações e direção, mas por ser um filme antenado com o presente e que nos faz refletir que num futuro não tão distante, essas pequenas máquinas que andam nas nossas mochilas ou bolsos poderão nos trazer ainda mais reflexões sobre o que é ser humano - que no final das contas, essencialmente se volta para a nossa capacidade de sentir o outro e refletir sobre isso, nos transformando com novas experiências e relacionamentos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Último amor de Mr. Morgan (Mr. Morgan's Last Love, 2013)

O último amor de Mr Morgan é um filme que deve ser apreciado lentamente. Eu mesma demorei um dia pensando como iria fazer a crítica deste drama que é tão intenso, que havia momentos que eu conseguia sentir a angústia de Matthew, o Mr. Morgan do título, vivido pelo Michael Caine, e a indecisão de Pauline, vivida pela francesa Cleménce Poésy. O longa é denso, complicado e angustiante justamente porque lida com seres humanos desiludidos, perdidos ou envolvidos em tanto drama emocional que fica difícil você digerir tantas emoções ao mesmo tempo. Porém, decidi fazer essa crítica pois o ponto mais forte do filme foi aquele que me fez ter o interesse por ele primeiramente: Michael Caine.

Sir Michael Caine interpretando brilhantemente Mr. Morgan
Sou fã incondicional do "Sir" Michael Caine, seja no início de sua carreira, interpretando Alfie, o sedutor, seja interpretando maravilhosamente Thomas Fowller em O Americano Tranquilo, de 2002. Porém, o filme dele que mais gostei foi Educando Rita (Educating Rita), de 1983, o qual eu vi e revi imediatamente, de tanto que ele e Julie Walters me fascinaram com duas atuações brilhantes - o qual os dois ganharam o prêmio britânico  BAFTA e o Globo de Ouro pela atuação.

Em O Último amor de Mr. Morgan, Caine faz novamente um professor, de Filosofia, norte-americano, que vive em Paris sozinho após o falecimento de sua esposa. O filme nos apresenta pouco a pouco a rotina solitária do americano (pois é, com sotaque britânico, mas tudo bem) que vive triste pela falta de sua esposa. Eis que Matthew Morgan conhece uma jovem ao acaso em um ônibus, que pelo cuidado e simpatia acaba fazendo com que ele se sinta acolhido, e comece uma amizade que por vezes parece levar a um romance.

Mr. Morgan e sua esposa, Joan (Jane Alexander)
A joven Pauline, interpretada por Cleménce Poésy (mais conhecida pelo papel de Fleur Delacour em Harry Potter), não tem família e demonstra um carinho enorme por Matthew, correspondido de forma maestral e sutil por Caine, que começa a se animar mais após conhecê-la. O amor platônico, porém, é interrompido constantemente pelas lembranças de sua falecida esposa, e o estado depressivo de Matthew oscila em toda a filmagem.

Mr. Morgan e Pauline (Cleménce Poésy) almoçando em um parque em Paris
Outros personagens de destaque na trama são seus filhos, cuja relação com o pai é bastante estremecida. Gillian Anderson, em uma aparição relâmpago, interpreta a filha Karen, egoísta e fútil, e seu filho, Miles (Justin Kirk), protagoniza as cenas mais dramáticas com o pai, que se recusou a vida inteira a demonstrar carinho e atenção a ele. 

A trama começa a se tornar mais densa na medida em que estes personagens trazem o pior de Matthew - suas lembranças da vida difícil em família e de sua esposa, que era o único elo entre eles. Jane Alexander, famosa atriz da Broadway, também brinda o filme com suas poucas aparições nas lembranças de Matthew, como sua querida Joan.

Matthew, seu filho, Miles (Justin Kirk) e Pauline em um momento de discussão familiar
O último amor de Mr. Morgan, apesar do nome, não é uma comédia romântica, e sim um drama, muito bem montado pelos atores e personagens, mas que nos deixa com um nó na cabeça e uma angústia terrível durante o longa, por vê-los sofrer demais. O drama é, porém, muito bem dirigido e filmado - com cenas de Paris e do interior da França lindíssimas.

Creio que o filme vale a pena pelas atuações - não preciso comentar a de Caine, que comanda absolutamente todas as cenas - e pela história extremamente sensível, de como um amor profundo entre um casal acaba levando as pessoas a abdicarem tudo o que tem. O último amor de Mr. Morgan é, sobretudo, um drama familiar, denso e reflexivo, que mostra as nuances de vidas que mesma sofridas após a morte de um ente querido (nesse caso, todos os personagens partilham uma perda) seguem seus caminhos, em um cenário bucólico de uma Paris no inverno.

Uma das muitas cenas com fotografia lindíssima do filme, nos arredores de Paris

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Grande Hotel Budapeste (Grand Budapest Hotel, 2014)

Creio que escrever sobre filmes requer uma boa dose de análise pessoal, crítica e encantamento. Por isso neste blog tenho escrito apenas sobre filmes que gosto - uma história que me cativa, que se torna interessante por alguma atuação, estética ou direção, ou que por si só é bela e vale a pena assistir. Os três casos se aplicam ao Grande Hotel Budapeste. O vi no avião voltando de um congresso e a princípio, já sabia que era um filme com vários atores bem conhecidos, com uma estética detalhista e até mesmo surrealista, presente nas obras do diretor Wes Anderson, em uma história que se passa no início do século XX. Mas o que me encantou neste novo filme do diretor de Moonrise Kingdom e Os Excêntricos Tennenbaum foi a história singela e delicada de um mundo que parecia apenas uma ilusão no pós-Primeira Guerra. 

O Grande Hotel Budapeste

A belle époque se tornou um símbolo de uma época de grandes impérios, de crescimento econômico e de uma cultura fervorosa que surgiu na Europa pós-industrial. Os costumes, a estética romântica, o desenvolvimento da ciência em uma época que de fato foi importantíssima para a literatura, para o cinema e para a arte se fazem presentes no filme que retrata um caso de mistério envolvendo um concierge do famoso hotel na cidade ficíticia de Zubrowka, bem parecida com a Hungria do título. O filme conta com elementos estéticos como cores vivas, elementos de cenário que parecem ter sido desenhados à mão, timing perfeito entre música e movimento dos atores que são especialmente destacados na história de assassinato e fuga envolvendo o personagem principal, o concierge Gustave H., interpretado por Ralph Fiennes, e seu fiel escudeiro, o "lobby boy" Zero (Tony Revolori). 

Seu enredo se inicia na visita de um escritor ao antigo hotel, já decadente, na década de 1960, e o encontro com Zero (com certa idade, interpretado por F. Murray Abraham), que o apresenta à história de como conheceu o Hotel Budapeste e seu concierge "mais famoso", Gustave H., que para Zero, "era o hotel".

Zero e o "jovem autor", a quem conta a História de como conheceu 
Gustave H. e do tempo saudoso do hotel

Voltando à década de 1930, com personagens ricos ainda da próspera sociedade da belle époque, o Grande Hotel Budapeste é retratado como cenário de beleza e de sonhos, se tornando ainda um reduto dos valores e costumes anteriores. Gustave H. seria o mais famoso de todos os concierges, o homem que retinha aqueles valores e que mantinha o Grande Hotel impecável e como era há décadas. O "guardião" desta memória transforma seu funcionário adolescente, Zero, em seu escudeiro e pupilo, o qual ele ensina tudo o que deveria saber para se tornar um grande funcionário como ele.

Além de Zero, se destaca na história a jovem Agatha (Saiorse Ronan), a namorada apaixonada de Zero, e uma série de personagens encantandores que perpassam o filme rapidamente e que se destacam também pelos seus perfis bem definidos e carismáticos, dentre eles a Madame D Taxis (Tilda Swinton), seu filho, Dmitri (Adrien Brody), o inspetor de polícia Henckels (Edward Norton), o colega de prisão de Gustave, Ludwig (Harvey Keitel) e o assassino Jopling, interpretado fantasticamente por Williem Dafoe. O longa ainda conta com muitas participações especiais, de atores que trabalham com Anderson há anos, como Owen Wilson e Bill Murray, e outras agradáveis surpresas, como F. Murray Abraham, Jude Law e Tom Wilkinson.

Agatha, a jovem confeiteira de Mendl's

Como juntar um elenco tão "estrelado" em uma história tão inusitada e, ao mesmo tempo, cativante? Provavelmente Anderson tem uma série de atores que gostam de sua estética, bastante original, e que confiam no seu roteiro, que dessa vez foi baseado em alguns livros e escritos deixados pelo famoso autor do início do século XX - um dos mais lidos na Europa nesta época - Stefan Zweig. Pode ter sido essa a chave do sucesso do autor, uma vez que Zweig é celebrado como um dos maiores escritores de seu tempo, também como um profundo crítico das guerras que devastaram a Europa de sua época.

A história flui maravilhosamente e as personagens e o cenário nos encantam - mesmo com a guerra se aproximando. Detalhe para o uso de um símbolo fictício do exército aliado à Hungria na Segunda Guerra, que parece a suástica nazista que na verdade não é uma suástica. Talvez no mundo fictício de Zubrowka, a suástica carregaria uma simbologia pesada demais para uma história leve como esta.

Zero e Gustave H.

Para quem quiser assistir, Grande Hotel Budapeste é um filme excelente, com uma história idílica e passada em uma época que como o próprio Zero afirma, não existia mais na década de 1930, mas que o Monsieur Gustave H. buscava manter viva no maravilhoso hotel dos Alpes que ainda vivia um tempo áureo, mesmo que de forma ilusória.