sexta-feira, 14 de março de 2014

Blue Jasmine (2013)


Vi Blue Jasmine ontem. Engraçado que não sou fã do Woody Allen de carteirinha, não conheço a trama de muitos dos seus filmes mais famosos e não tenho um filme preferido dele, mas gosto muito de seus roteiros (nem vou discutir a polêmica recente sobre ele, mas sim seu filme). Muitos filmes dele que vi têm roteiros ótimos e que se baseiam em ações do cotidiano que nos fazem refletir bastante sobre as relações humanas. Acho que existem muitas expectativas do público em ver comédias feitas por Allen, mas Blue Jasmine não é um filme engraçado. É um drama que não nos faz rir da protagonista ex-milionária e ex-socialite que perde tudo o que tem. 

Cate Blanchett sensacional como Jasmine
Nos faz sentir pena da protagonista, às vezes raiva, às vezes empatia. As situações tragicômicas que Allen descreve tão bem estão ali no filme, mas tive a impressão que o olhar crítico sobre as diferenças de classe está muito mais aguçado neste filme. Jasmine, personagem título, interpretada por Cate Blanchett, é um ótimo exemplo da premissa "dinheiro não traz felicidade". Tanto dinheiro, tantos remédios, tantas redes de relacionamento, tantas poses de família perfeita na casa de praia, tantas roupas de marca...ter não significa ser feliz. Mas para Jasmine, o dinheiro e a vida de luxo a farão feliz, e ela acredita nisso piamente - mesmo quando as únicas coisas que tem são a compaixão da irmã, de seu namorado e de seus sobrinhos. Em compensação, sua irmã adotiva, pobre, divorciada, cafona, namorada de um mecânico de carros e com dois filhos é muito mais feliz que Jasmine, pois não sonha com aquilo que não tem - ou que não é. 

Jasmine, Ginger (Sally Hawkings) e amigos e Ginger em selfie coletivo 



Engraçado que deu vontade de ver o filme novamente assim que ele acabou. É assim com os filmes de Allen, cada vez que os vejo, dá vontade de refletir sobre outras questões vendo-os de novo. 

É importante ressaltar que Blue Jasmine também não seria a mesma coisa se Cate Blanchett não tivesse uma interpretação tão arrebatadora quanto esta. Pra mim, disparada uma das melhores interpretações de 2013. Ela domina a cena, brinca com o espectador, fazendo-nos sentir empatia e raiva, ao mesmo tempo, por sua personagem. Mas Cate não está sozinha. Apesar da atuação maravilhosa da protagonista, a coadjuvante Sally Hawkins (de A Revolução de Dagenham) também tem uma atuação primorosa. Elas são opostos em personalidade e atitude, e são absolutamente sensacionais na criação desta oposição. Não me surpreendo se Blanchett e Hawkins ganharem o Oscar este ano.


(Publicado 06.02.14 no facebook)

domingo, 20 de outubro de 2013

Gravidade (EUA, 2013)

Vi ontem Gravidade, no Imax da Barra, e não podia ter tomado decisão mais acertada. Gravidade é um daqueles filmes pra se ver em grandes salas com som e projeção impecáveis, pois ele é um deleite para os espectadores. As imagens do espaço são inacreditáveis, e o filme prima pela beleza estética o tempo todo.

 Cena do espaço lindíssima

Dito isso, achei Gravidade, enquanto enredo e história cheia de nuances filosóficas, não aquilo que eu esperava. Se por um lado eu sabia que ia me deslumbrar com o visual, por outro as críticas diziam que o roteiro do mexicano Alfonso Cuarón (que eu conhecia por dois filmes bem díspares, E tua mãe também e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) era impecável e de tirar o chapéu. Sob a direção também de Cuarón, o filme é um belíssimo exemplo de direção de atores, que interpretam de forma belíssima no longa. Porém, o que eu achei que deixou a desejar no filme foi justamente o roteiro, pois parece que ele transita entre 2001 Uma Odisseia no Espaço com uma aventura espacial empolgante, como Apollo 13, me deixando um pouco confusa em relação ao objetivo dos autores: ação Hollywoodiana típica ou filme existencial e desafiador, no que concerne principalmente aos desafios enfrentados no espaço pela Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock).

 Bullock no espaço

O filme se inicia justamente com a Dra. Stone e o Comandante Matt Kowalski (interpretado por George Clooney) fazendo reparos na estação espacial norte-americana, quando, devido à uma chuva de detritos provocada por uma destruição de satélite russo pelo próprio país, os astronautas se veem numa situação de risco enorme e começam a se virar para sobreviver à catástrofe, se tornando os únicos sobreviventes nesta viagem.

Visto este roteiro inicial, que já começa de forma bastante tensa, o telespectador se vê envolvido por uma série de situações angustiantes, mergulhando no filme de cabeça. os efeitos visuais aumentam essa situação de angústia, pois a impressão que o filme dá é que de fato, estamos no espaço. Dra. Stone e o Comandante Kowalski são personagens feitos para nós gostarmos deles, um pela simpatia e definição típica do herói, e ela pela angústia de ser "astronauta" de primeira viagem, uma cientista no espaço, que tem dificuldades em estabelecer uma relação de amizade ou camaradagem com a tripulação.


 Sandra Bullock e George Clooney em cena inicial do filme

Os dois personagens foram muito bem construídos e, diga-se de passagem, muito bem dirigidos. Mais uma vez acho que o trabalho do diretor foi brilhante, pois os atores estão tão bem, mas tão bem nos papeis, que em apenas cinco minutos de filme você já tem empatia com eles. O filme tem uma técnica incrível, não à toa Cuarón demorou cinco anos para finalizá-lo, e por si só, seus efeitos especiais já ganharam o Oscar (minha aposta, pois merece). Porém, o filme, na minha opinião, peca pela quantidade de cenas angustiantes e de ação em que os personagens o tempo todo se veem envolvidos, o que faz a gente achar o roteiro um pouco "demais", já que a ideia é que ele seja bastante fiel ao que ocorre com astronautas no espaço.

 Mais uma cena com visual lindo do filme

No final das contas, saí do cinema um pouco zonza (o Imax tem um som altíssimo e a definição das imagens até assusta, mas o filme tem muitas cenas de astronautas girando, cápsulas espaciais girando, objetos espaciais vindo em sua direção, então prepare-se!) e com a impressão de que o roteiro poderia ser melhor trabalhado, analisando mais a condição humana no melhor sentido "nós somos apenas um grão no universo", e deixando um pouco de lado cenas de ação encadeadas que acabam deixando o filme inverossímil demais.

 Uma das cenas mais bonitas do longa, com Bullock parecendo um bebê no útero

Para concluir, aplaudo Gravidade pelos efeitos especiais impressionantes, pela atuação de Bullock, principalmente, que está muitíssimo bem no papel da Dra. Ryan Stone, e pela direção, que só fez o filme ficar melhor. De fato, é um filme que deve ser visto.

domingo, 13 de outubro de 2013

Jobs (2013) & Piratas do Silicon Valley (1999)

                                                  Ashton Kutcher interpretando Jobs

Voltando ao blog! Agora, mais serena e com mais gás, com o objetivo de continuar aquilo que comecei há três anos e amo: falar, assistir, discutir e respirar cinema!

Muitos foram os empecilhos para que eu retornasse: terminei minha tese de doutorado e estou mais descansada depois de quatro anos e meio muito confusos e muito atarefados. Além de, é claro, serem mentalmente estressantes.

Começo esta nova fase do meu movieblog falando sobre não só um filme, mas dois que resolvi assistir logo após o outro. Na verdade, um me trouxe muitas perguntas, e assim busquei o outro atrás de respostas.

Steve Jobs e o grupo de amigos construindo o Apple I na sua garagem

Jobs é um filme novo, bem recente, que fala sobre o Steve Jobs, criador da Apple, e sua vida polêmica no mundo da Informática. Sem dúvida, Jobs foi importantíssimo para a mudança que ocorreu do computador profissional para o pessoal, na década de 1970. Revolucionária, de fato, pois mudou a nossa concepção de mundo. Porém, o filme Jobs deixou lacunas que foram preenchidas, é claro, após ver Os Piratas de Silicon Valley, de 1999, que conta a mesma história mas sob um enfoque bastante diferente.

O filme relata a vida do fundador da Apple de forma intimista e focando na relação dele com Steven Wozniak e as pessoas que o rodearam - namorada, diretores, funcionários, amigos (ou amigo: Wozniak). Steve Jobs foi uma pessoa polêmica porque apesar de toda a revolução proporcionada pelo PC, que foi sim, de certa forma, visionada por ele, ele tinha atitudes bastante desagradáveis com as pessoas que o rodearam. Era reconhecido como narcisista, sádico, tratava mal seus funcionários (criava turnos de 50 horas para o "funcionário que vestia a camisa da empresa", um verdadeiro "Pirata"), e por aí vai.

Como que alguém tão mal vista pela maioria das pessoas que já tiveram trato com ele pode ser tema de um filme na atualidade? Bom, penso eu que a vida dele teve um final trágico mas ao mesmo tempo, de triunfo. Além disso, disse o meu namorado, ele era extremamente midiático - o que o filme deixa transparecer bem.

Jobs e Wozniak com o Apple I

Jobs, entretanto, me deixou algumas dúvidas, que sanei vendo um segundo filme, mais antigo e menos conhecido, de 1999, e que por isso não mostra as mudanças enormes que a Apple passou com lançamento do Iphone, Ipod e Ipad. Os Piratas de Silicon Valley é um filme bem mais interessante, na minha opinião, e muito mais fiel à realidade. Não foca no Jobs, mas na trajetória de vários personagens que viveram o momento de crescimento da indústria da informática e de transformações nas décadas de 1970 e 1980. Nele, são retratados com muito mais ênfase Steve Wozniak (que foi, de fato, o gênio por trás da empreitada da construção do primeiro PC, ele foi o engenheiro que fez toda a máquina!), Bill Gates, Paul Allen, entre outros. Os protagonistas são vários, e não um só.

Os Piratas segue uma linha um pouco mais ligada à meta-linguagem, e deixa bem claro a evolução dos PCs para o espectador que não entende (nem um pouco) estas mudanças operacionais, de sistemas, de hardware.

Noah Wyle interpretando Jobs

Fiquei bastante impressionada quando soube, por exemplo, que a Xerox tinha um centro de pesquisas em Palo Alto que criou o mouse, a interface gráfica, entre outros vááários componentes importantíssimos para o PC que hoje são usados no mundo inteiro, e a empresa rejeitou os mesmos, cujas patentes foram vendidas para a Apple. Fiquei mais impressionada ainda de ver que Bill Gates não foi tão bom moço assim. Era um belo capitalista, se envolveu em uma enorme polêmica por literalmente criar o Windows, um sistema aperfeiçoado, a partir do software da Apple que teve contato devido a um acordo firmado entre a Microsoft e a empresa. No meu entender, ele visualizou algo novo (mais fácil de ser usado e mais bonito esteticamente), e lançou com peso no mercado. Além disso, o filme enfatiza o papel importantíssimo que Wozniak teve nessa empreitada toda e, além de tudo, sua trajetória humilde com as pessoas que o conhecem.

Jobs e Gates

No final das contas, creio que ver os dois filmes é bem mais interessante que um só - quem quiser saber um pouco mais da vida do Steve Jobs, veja Jobs, mas pra entender melhor este momento de transformações na Ciência da Computação, acho melhor ver Piratas. Os dois, na verdade, se completam.

Em relação à estética, creio que Piratas teve um orçamento bem mais baixo, mas com um roteiro bem mais fiel à realidade. No final, gostei de ver os dois filmes e me interessei bastante pois descobri que aqueles objetos que fazem parte do meu cotidiano (internet, notebook, e-mail) foram, um dia, apenas sonhados por várias pessoas - que tornaram isso tudo realidade. O mundo mudou, e vem do desenvolvimento da computação a boa parte das mudanças das quais usufruímos hoje. Uma verdadeira revolução, pois é inegável dizer que vivemos uma nova era com o surgimento do computador pessoal.

PS: Passei a adorar o Steven Wozniak :D

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O casamento de Muriel (Muriel's Wedding)






Bem, falei que ia rever O Casamento de Muriel, e acabei revendo! Era algo que queria fazer há muito tempo, pois é um filme que gosto muito.

O Casamento de Muriel é uma produção australiana de 1994, que tem no papel principal Toni Collette, interpretando Muriel Heslop. O longa pra mim é uma fábula de Cinderela (ou Uma Linda Mulher) ao avesso, pois na verdade, é bem mais consciente e Muriel se descobre, ao invés de atribuir a um homem ou como é vista pela sociedade, as respostas para a sua felicidade, vivendo uma viagem ao seu próprio interior, se valorizando por suas qualidades ao longo do filme.

Muriel é uma jovem de vinte e poucos anos, que vive em uma família repleta de problemas e em uma vida de marasmo na fictícia Porpoise Spit, na região de Queensland, a "Gold Coast" da Austrália(o nome da cidade é algo como "cuspe de boto", uma brincadeira provavelmente muito divertida para o roteirista, que é o diretor também e que nasceu em Queensland, P.J. Hogan). A cidade é turística e de praia, e não oferece muitas oportunidades além do turismo e do envolvimento político, atividade do pai de Muriel, Bill (interpretado pelo premiado ator australiano Bill Hunter),ex-vereador, ex-deputado e "quase governador". Seu poder local e seu "jeitinho" para resolver as coisas acaba o levando a ser uma das figuras mais emblemáticas do filme, pois ele atribui todos os problemas à família, que chama de inúteis, sem atribuir a seus próprios atos ilícitos e jeito de viver a personalidade que os filho desenvolvem.

Muriel não se veste bem, não é muito bonita, é gordinha, nunca teve emprego fixo por muito tempo, vive de mesada nas casas do pai, nunca teve namorado e sempre sonha acordada em seu quarto ouvindo Abba, seu grupo musical favorito. Muriel vive em uma bolha de conforto e de marasmo, até que suas supostas "amigas", que vivem a botando pra baixo, a excluem do grupo, alegando ela não estar no mesmo nível delas - muito amigas, certo?

Já vou dizendo aqui que a caracterização das amigas e do ambiente em Porpoise Spit é muito legal, pois o local é considerado tão atrasado e cafona que na verdade elas usam uma moda misturada de anos 80 e anos 90, breguérrima. O corte de cabelo, as roupas, a maquiagem exagerada, tudo é bem exagerado mesmo, e hilário para nós hoje, que vemos os anos 1980 como o buraco da moda do século XX.

Assim que Muriel é excluída do grupo, acredita que não tem nada mais para viver e acaba pegando o dinheiro dos pais para conseguir ganhar de volta a amizade das supostas "amigas", que viajaram para uma cara ilha no Taiti. Lá, é ignorada pelas amigas e reencontra Rhonda (Rachel Griffiths), uma ex-colega de escola, que mora em Sidney e conhece uma Muriel legal e divertida. Após o contato com Rhonda, e com medo dos pais devido ao sumiço do dinheiro, Muriel foge para Sidney para dividir apartamento com ela. Lá ela se redescobre, vivendo uma vida feliz e longe de todos que sempre a zombaram.

Porém, a felicidade de Muriel não dura muito. Com seu pai sendo investigado pela Receita Federal e com a repentina doença de Rhonda, Muriel volta a sonhar com aquilo que sempre achou que lhe traria felicidade: o casamento. Assim, acaba respondendo a um anúncio de jornal aonde o técnico de um nadador sul-africano premiado busca uma esposa para que ele fiquei treinando na Austrália e não tenha que retornar à África do Sul. O lindo nadador era tudo o que Muriel queria para realizar seu sonho de casar de branco. Questionada por Rhonda o porque casar era tão importante para ela, ela diz que todas as pessoas que conhece são felizes porque casam, então ela queria mostrar ao mundo que era feliz casando.

No meio tempo de toda a confusão mental na cabeça de Muriel, Muriel acaba redescobrindo o seu valor e o valor da amizade. Um dos papéis importantes do filme é o de sua mãe, uma dona de casa totalmente sem voz e que "vive por viver", na bucólica cidade de veraneio. Sem ser escutada pelos filhos e marido, Betty Heslop (Jeanie Drynan) vê sua filha a roubar, seu marido a trair e sua vida ser reduzida a televisão e afazeres domésticos, ficando depressiva. A depressão da mãe, claramente vista do início ao fim do filme, é um dos pontos fundamentais de mudança de Muriel - ela sempre quis o bem dos filhos, e Muriel a ignorava, como seu pai.

Por esse e mais vários motivos (que não contarei aqui pois já contei demais partes do filme importantes, e daí vão dizer depois que eu estrago o fim do filme) acredito que O Casamento de Muriel é um filme bem feito e interessante, pois ele não trabalha com estereótipos, mas como superar os tais rótulos que a sociedade geralmente cria para que você seja uma "vencedora na vida". Marido, emprego com status, vida social ativa, amigas bonitas, roupas e aparência magra nos padrões das revistas de moda, tudo isso não condiz com Muriel, que se vê desprezada e ignorada, até encontrar forças nela mesma e descobrir que ela tem sim valor, e mesmo que seja diferente dos padrões da sociedade, tem pessoas que a amam e querem estar ao seu lado. Meio clichê? Pode ser. Mas só sei que de Cinderela e Uma Linda Mulher já estamos todas cheias, né? Nenhuma mulher é perfeita, e nenhum príncipe vai vir te buscar no cavalo branco se no final, você não buscar dentro de si mesma a felicidade.










segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Jesus Henry Christ (2012)

Finalmente de volta ao meu blog, aquele que abandonei há tanto tempo...mas nada como voltar. There's nothing like home! E esse espaço deixa eu me sentir como em casa. Pra (re) começar, só mesmo um filme inusitado e legal pra me fazer ter vontade de escrever. E claro, um pouco mais de tempo. Esse filme se chama Jesus Henry Christ, que em português ganhou a triste tradução de A origem da vida. Mais uma vez, porquê? Ninguém sabe. Jesus H. Christ é o nome que a mãe de Henry (Jason Spevack), o personagem principal do filme, clama toda vez que está nervosa ou abismada. No filme, Henry é mesmo comparado a Deus, ou algo inexplicável. O menino, que com nove meses começa a falar e tem QI maior de 200, é filho de proveta e tem uma mãe ativista e feminista, que reluta em deixar que o filho seja tratado de forma diferente. O filme tem uma estética bem diferenciada, bastante impactante até, por assim dizer. Um estilo "Amélie Poulain", mas sem a meta- linguagem de Amélie. Sua mãe, Patricia (Toni Collette), filha de uma família que teve cinco filhos, vê sua família desaparecer aos poucos, deixando-a para cuidar de seu pai, Stan, que é o "guru"de Henry na história. Não satisfeito com as explicações da mãe sobre a sua origem, é com o avô politicamente incorreto que Henry consegue as explicações e passa a entender melhor o porque ele é o que ele é. Consegue o nome de seu verdadeiro pai, um professor de Psicologia, que utilizou a filha como experimento para comprovar se o homossexualismo seria biológico ou social (lançando um livro e expondo a filha com apenas 12 anos, que se torna o alvo fácil de bullying na escola). Entram aí em cena Michael Sheen como o Dr. O'hara e Samantha Weinstein como Audrey O'Hara, filha revoltada do psicólogo que a deixou ser exposta. Henry entra na vida dos dois sutilmente, após conseguir ler o livro em apenas minutos com sua memória não apenas fotográfica, mas "filmográfica". Se conhecer a sua "nova família" o deixa feliz, é a partir desta viagem de auto-conhecimento que Henry passa também a conhecer melhor a mãe e a família dela, entendendo que sua origem é privilegiada nos dois lados da família. Jesus H. Christ é um filme (talvez) adequado para toda a família, com o estilo do Wes Anderson, com personagens carismáticos e reflexões filosóficas sobre a vida e a família. Com certeza ele diverte, seja pelas cenas inusitadas e boa fotografia, seja pela reflexão que traz, sendo uma boa atração para qualquer idade. Com direção e roteiro de um estreante diretor, Dennis Lee consegue segurar o longa mesmo que, ao final, ele mostre que na verdade seu filme é um drama maior do que comédia, mas que traz personagens cativantes e que você não verá em qualquer filme. Pra terminar, Toni Collette, sempre muito bem, segura o filme como se fosse uma pena no ar. Isso me lembra que tenho que rever um dos filmes que mais gosto, O Casamento de Muriel, com a estreante Collette mostrando que veio ao mundo para atuar. E Jesus H. Christ, como que o HD muda a nossa forma de ver filmes! A fotografia é muito boa, e as cores "saltam" da tela, assim como todas as rugas e pintinhas no rosto de Collette. Quem sabe é o realismo fantástico entrando nas salas de cinema (ou na sua sala) :P .

sábado, 26 de novembro de 2011

A chave de Sarah (Elle s'appelait Sarah)




Paris, 16 de julho de 1942. Em um dia quente de verão, dois irmãos brincam em casa, quando de repente são interrompidos pelas batidas na porta. A polícia pede que a família Starzynski a acompanhe até o velódromo da cidade, por ordens superiores. Já acostumada com a atitude da polícia e amedrontada, a mãe chama os pequenos e encontra apenas Sarah, de dez anos, que esconde o irmão Michel em um armário com medo que a polícia o leve. "Irei voltar pra te buscar", diz Sarah baixinho ao trancar a porta do armário de roupas com o irmão junto, guardando a chave na camisola. Após sair de casa, Sarah e sua mãe se deparam com seu pai, que as acompanha ao velódromo de inverno da cidade. As cenas que se seguem são de agonia e terror. O antigo velódromo de inverno de Paris (hoje Ministério do Interior), comportou cerca de treze mil pessoas, homens, mulheres e crianças judias que, sem opção, se enfileiravam nas arquibancadas e permaneceram por dois dias enclausurados no lugar fétido e quente. Quem não se suicidou ou adoeceu, partiu de lá para o campo de concentração de Drancy, para depois ser enviado a Auchswitz e nunca mais ser encontrado.

Julho de 2009. Julia Jarmond, uma jornalista americana radicada na França, decide fazer uma reportagem relembrando a prisão em massa de judeus na França, em 1942. Ao entrevistar uma senhora que vivia em frente ao antigo velódromo, Julia pergunta : "como foram aqueles dias?" "Horríveis" - responde a mulher - "Nõs não podíamos fazer nada. A situação se tornou ainda pior com o passar dos dias". "Por quê? Por causa dos gritos?" - questiona a jornalista - "Não, por causa do mau cheiro que saía de lá, insuportável. Estava muito quente naqueles dias. Não conseguíamos ficar de janelas abertas".

A partir dessas duas realidades, o filme A chave de Sarah conta a história de duas personagens que se encontram após uma busca frenética de Julia pela verdade: a verdade sobre o que ocorreu naqueles dias de verão em 1942, a verdade sobre a família judia que habitou o antigo apartamento da família de seu marido e a verdade silenciosa que permanece sem muitas explicações na França: a memória sobre o apoio de franceses e do governo ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.

A Chave de Sarah é um filme complexo pela verdade que ele quer mostrar; e pelo que foi encoberto silenciosamente pela memória de muitas pessoas que vivenciaram o holocausto e que se recusaram, até hoje, a falar sobre o que viram ou o que fizeram. Sarah, a menina título do filme, tinha apenas dez anos quando foi tirada do seu estado brincalhão e inocente, para conhecer os horrores da guerra, da morte e da violência.

Julia, uma cidadã americana vivenda na França moderna, tenta entender de perto o que de fato ocorreu, e acaba descobrindo o envolvimento da própria família no acontecimento que permanece esquecido por muita gente no mundo inteiro. Confesso que nunca tinha lido nada sobre o acontecimento - e isso porque sou professora de História, então deveria saber alguma coisa. Porém, a busca de Julia sobre a verdade de Sarah e sua família se torna a busca por uma verdade: a compreensão e reconhecimento do erro que ninguém quer lembrar.

A luta pela memória esquecida é o mote do filme, que em flashbacks, dá uma vantagem ao espectador, que desde o início já sabe a história de Sarah e sua família, enquanto Julia desvenda aos poucos o que ocorreu. Sarah, desesperada por ter deixado seu irmão preso no armário reza para que ele seja achado e se agarra à sua chave, tentando de todos os jeitos fugir e salvá-lo da situação em que o colocou - que, na sua inocência, seria uma forma de proteção. Julia busca desesperadamente a verdade por trás da compra do apartamento da família de seu marido, que pertencia à família Starzynski antes deles se mudarem para lá. Com a reforma do apartamento, a jornalista se depara com indícios de que algo errado aconteceu lá, e por isso sai em busca da verdade.

Os conflitos internos de Julia, que se vê em uma situação difícil com o marido por querer uma gravidez indesejada por ele, contrasta com os conflitos de Sarah (a pequena atriz Mélusine Mayance, excelente no papel), que se arrepende e se angustia em sua jornada para salvar seu irmão, por ter sido inocente e por o ter colocado naquela situação.

Dirigido por Gilles Paquet-Brenner, e baseado no best-seller de Tatiane Rosnay, A chave de Sarah é um filme instigante, bem construído, delicado e ao mesmo tempo forte, que se determina a revelar aquilo que nós escondemos de todos: angústia, medo, arrependimento e desilusão, sob dois pontos de vistas. O filme vale por si só pela atuação de Kristin Scott Thomas e Mélusine Mayance, que agarram seus papéis com todas as forças, delicadamente e, ao mesmo tempo, impactante.

Quanto ao aprisionamento e tortura de famílias judias que ocorreu naquele verão de 1942 na França, cabe a todos nós lembrarmos, e divulgarmos, para que este massacre não fique esquecido na História. Certamente não deve, mas cabe a nós relembrarmos constantemente algo que não queremos repetir na História.

sábado, 19 de novembro de 2011

A pele que habito (La piel que habito)




Vi recentemente o novo filme do Pedro Almodóvar, A pele que habito, com Antonio Banderas, Marisa Parede e Elena Anaya. Gostei muito, explicarei por quê.

A pele que habito é o novo filme do diretor que segue uma linha bem diferente dos seus últimos longas, muito mais dramáticos e sentimentais do que este. Este é um suspense que chega a um ápice um tanto quanto chocante, recheado de cenas enigmáticas e de sexo, é claro, que fazem o espectador sentir o lado mais vil do ser humano e mais apaixonado também, na pele da personagem de Antonio Banderas.

A história do filme já começa com um suspense, um enigma, que é quebrado ao longo da trama. O cirurgião plástico Robert Ledgard (Banderas) tenta criar uma pele perfeita, que não sofreria ações do tempo e queimaduras. Viúvo e fechado para o mundo, Robert mantém em sua antiga clínica, agora sua residência, uma paciente, cobaia de seus experimentos. Ele vê Vera (Elena Anaya) como sua obra prima. Defensor de novas técnicas de transplante de pele, as quais são proibidas em humanos, Robert esconde em sua grande mansão este segredo: a habitante que sofreu inúmeras intervenções cirúrgicas e que também é a personificação da sua mulher, morta de forma trágica.

O enredo se desenvolve na tentativa do espectador de descobrir, com os constantes flashbacks, de forma pouco linear, quem são essas personagens, se Robert é um grande benfeitor da humanidade, criando uma nova técnica que poderia restaurar vítimas de queimaduras, ou se ele é um crápula que mantém uma paciente como cobaia para fins puramente pessoais e egoístas. Se vocês acham que este é o grande segredo da trama, estão enganados. O filme dá voltas e voltas até você sair da sala "atordoado" com a eloquência da trama, com a relação conflituosa das personagens com elas mesmas, e com a capacidade transformadora do ser humano, como na maioria dos filmes de Almodovar.

Baseado no livro do escritor francês Thierry Jonquet (Tarântula), a ficção, o terror e a mistura de elementos de uma personagem embrutecida pela tragédia (Doutor Robert) e de uma outra, que devido a circunstâncias só esclarecidas no decorrer do filme, se aproxima de Robert, se tornam verdadeiras bombas relógios para o espectador, que espera ansiosamente a resolução do suspense, a explicação para tudo o que ocorre, que se deleita ainda mais com as pequenas dicas e detalhes que o diretor apresenta para desenvolver sua história.

O filme é uma adaptação minimalista, e tem a cara do diretor. Sim, ele é um filme autoral, mas qual filme de Almodóvar não é? Me lembrou muito filmes do início de sua carreira, da década de 1980 na verdade, enfáticos, fortes, com cena após cena mostrando algum movimento brusco, algum elemento forte, uma cor que se sobressai, um diálogo seco e emblemático, cenário marcante, que têm tudo a ver com a estética do diretor.

Li uma crítica (se não me engano do Rubens Ewald Filho) em que o autor dizia que Almodóvar melhorou com o tempo e, por conhecer melhor a estética do cinema, como dirigir os atores, posicionar a câmera e conseguir o enquadramento perfeito, consegue, cada vez mais, se superar. O diretor desenvolve sua trama de forma muito enérgica, e por isso, brilha por trás da mesma. Consegue se sobressair por fazer algo absolutamente diferente do que costuma fazer e, ao mesmo tempo, com elementos comuns e o mesmo impacto que costuma deixar registrado nas telas.

Não dá para contar muito sobre o filme, senão ele fica sem graça. E quem sou eu para contar final de filme. Só recomendo que assistam e depois, se puderem, postem seus comentários, pois cada crítica que li tem um ponto de vista diferente sobre a trama, e sempre interessante. Descreveria o longa como "gutural", outros o descrevem como drama psicologizante. Mas quem sabe, ele apenas lida, mais uma vez, com sentimentos de paixão, ódio, vingança, angústia e sofrimento inerentes ao ser humano, sempre tão bem mostrados pelo diretor? Essa capacidade de fazer refletir e, mais importante, sentir, é algo absolutamente normal no universo do Almodóvar - para nossa felicidade.