segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Jesus Henry Christ (2012)

Finalmente de volta ao meu blog, aquele que abandonei há tanto tempo...mas nada como voltar. There's nothing like home! E esse espaço deixa eu me sentir como em casa. Pra (re) começar, só mesmo um filme inusitado e legal pra me fazer ter vontade de escrever. E claro, um pouco mais de tempo. Esse filme se chama Jesus Henry Christ, que em português ganhou a triste tradução de A origem da vida. Mais uma vez, porquê? Ninguém sabe. Jesus H. Christ é o nome que a mãe de Henry (Jason Spevack), o personagem principal do filme, clama toda vez que está nervosa ou abismada. No filme, Henry é mesmo comparado a Deus, ou algo inexplicável. O menino, que com nove meses começa a falar e tem QI maior de 200, é filho de proveta e tem uma mãe ativista e feminista, que reluta em deixar que o filho seja tratado de forma diferente. O filme tem uma estética bem diferenciada, bastante impactante até, por assim dizer. Um estilo "Amélie Poulain", mas sem a meta- linguagem de Amélie. Sua mãe, Patricia (Toni Collette), filha de uma família que teve cinco filhos, vê sua família desaparecer aos poucos, deixando-a para cuidar de seu pai, Stan, que é o "guru"de Henry na história. Não satisfeito com as explicações da mãe sobre a sua origem, é com o avô politicamente incorreto que Henry consegue as explicações e passa a entender melhor o porque ele é o que ele é. Consegue o nome de seu verdadeiro pai, um professor de Psicologia, que utilizou a filha como experimento para comprovar se o homossexualismo seria biológico ou social (lançando um livro e expondo a filha com apenas 12 anos, que se torna o alvo fácil de bullying na escola). Entram aí em cena Michael Sheen como o Dr. O'hara e Samantha Weinstein como Audrey O'Hara, filha revoltada do psicólogo que a deixou ser exposta. Henry entra na vida dos dois sutilmente, após conseguir ler o livro em apenas minutos com sua memória não apenas fotográfica, mas "filmográfica". Se conhecer a sua "nova família" o deixa feliz, é a partir desta viagem de auto-conhecimento que Henry passa também a conhecer melhor a mãe e a família dela, entendendo que sua origem é privilegiada nos dois lados da família. Jesus H. Christ é um filme (talvez) adequado para toda a família, com o estilo do Wes Anderson, com personagens carismáticos e reflexões filosóficas sobre a vida e a família. Com certeza ele diverte, seja pelas cenas inusitadas e boa fotografia, seja pela reflexão que traz, sendo uma boa atração para qualquer idade. Com direção e roteiro de um estreante diretor, Dennis Lee consegue segurar o longa mesmo que, ao final, ele mostre que na verdade seu filme é um drama maior do que comédia, mas que traz personagens cativantes e que você não verá em qualquer filme. Pra terminar, Toni Collette, sempre muito bem, segura o filme como se fosse uma pena no ar. Isso me lembra que tenho que rever um dos filmes que mais gosto, O Casamento de Muriel, com a estreante Collette mostrando que veio ao mundo para atuar. E Jesus H. Christ, como que o HD muda a nossa forma de ver filmes! A fotografia é muito boa, e as cores "saltam" da tela, assim como todas as rugas e pintinhas no rosto de Collette. Quem sabe é o realismo fantástico entrando nas salas de cinema (ou na sua sala) :P .

sábado, 26 de novembro de 2011

A chave de Sarah (Elle s'appelait Sarah)




Paris, 16 de julho de 1942. Em um dia quente de verão, dois irmãos brincam em casa, quando de repente são interrompidos pelas batidas na porta. A polícia pede que a família Starzynski a acompanhe até o velódromo da cidade, por ordens superiores. Já acostumada com a atitude da polícia e amedrontada, a mãe chama os pequenos e encontra apenas Sarah, de dez anos, que esconde o irmão Michel em um armário com medo que a polícia o leve. "Irei voltar pra te buscar", diz Sarah baixinho ao trancar a porta do armário de roupas com o irmão junto, guardando a chave na camisola. Após sair de casa, Sarah e sua mãe se deparam com seu pai, que as acompanha ao velódromo de inverno da cidade. As cenas que se seguem são de agonia e terror. O antigo velódromo de inverno de Paris (hoje Ministério do Interior), comportou cerca de treze mil pessoas, homens, mulheres e crianças judias que, sem opção, se enfileiravam nas arquibancadas e permaneceram por dois dias enclausurados no lugar fétido e quente. Quem não se suicidou ou adoeceu, partiu de lá para o campo de concentração de Drancy, para depois ser enviado a Auchswitz e nunca mais ser encontrado.

Julho de 2009. Julia Jarmond, uma jornalista americana radicada na França, decide fazer uma reportagem relembrando a prisão em massa de judeus na França, em 1942. Ao entrevistar uma senhora que vivia em frente ao antigo velódromo, Julia pergunta : "como foram aqueles dias?" "Horríveis" - responde a mulher - "Nõs não podíamos fazer nada. A situação se tornou ainda pior com o passar dos dias". "Por quê? Por causa dos gritos?" - questiona a jornalista - "Não, por causa do mau cheiro que saía de lá, insuportável. Estava muito quente naqueles dias. Não conseguíamos ficar de janelas abertas".

A partir dessas duas realidades, o filme A chave de Sarah conta a história de duas personagens que se encontram após uma busca frenética de Julia pela verdade: a verdade sobre o que ocorreu naqueles dias de verão em 1942, a verdade sobre a família judia que habitou o antigo apartamento da família de seu marido e a verdade silenciosa que permanece sem muitas explicações na França: a memória sobre o apoio de franceses e do governo ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.

A Chave de Sarah é um filme complexo pela verdade que ele quer mostrar; e pelo que foi encoberto silenciosamente pela memória de muitas pessoas que vivenciaram o holocausto e que se recusaram, até hoje, a falar sobre o que viram ou o que fizeram. Sarah, a menina título do filme, tinha apenas dez anos quando foi tirada do seu estado brincalhão e inocente, para conhecer os horrores da guerra, da morte e da violência.

Julia, uma cidadã americana vivenda na França moderna, tenta entender de perto o que de fato ocorreu, e acaba descobrindo o envolvimento da própria família no acontecimento que permanece esquecido por muita gente no mundo inteiro. Confesso que nunca tinha lido nada sobre o acontecimento - e isso porque sou professora de História, então deveria saber alguma coisa. Porém, a busca de Julia sobre a verdade de Sarah e sua família se torna a busca por uma verdade: a compreensão e reconhecimento do erro que ninguém quer lembrar.

A luta pela memória esquecida é o mote do filme, que em flashbacks, dá uma vantagem ao espectador, que desde o início já sabe a história de Sarah e sua família, enquanto Julia desvenda aos poucos o que ocorreu. Sarah, desesperada por ter deixado seu irmão preso no armário reza para que ele seja achado e se agarra à sua chave, tentando de todos os jeitos fugir e salvá-lo da situação em que o colocou - que, na sua inocência, seria uma forma de proteção. Julia busca desesperadamente a verdade por trás da compra do apartamento da família de seu marido, que pertencia à família Starzynski antes deles se mudarem para lá. Com a reforma do apartamento, a jornalista se depara com indícios de que algo errado aconteceu lá, e por isso sai em busca da verdade.

Os conflitos internos de Julia, que se vê em uma situação difícil com o marido por querer uma gravidez indesejada por ele, contrasta com os conflitos de Sarah (a pequena atriz Mélusine Mayance, excelente no papel), que se arrepende e se angustia em sua jornada para salvar seu irmão, por ter sido inocente e por o ter colocado naquela situação.

Dirigido por Gilles Paquet-Brenner, e baseado no best-seller de Tatiane Rosnay, A chave de Sarah é um filme instigante, bem construído, delicado e ao mesmo tempo forte, que se determina a revelar aquilo que nós escondemos de todos: angústia, medo, arrependimento e desilusão, sob dois pontos de vistas. O filme vale por si só pela atuação de Kristin Scott Thomas e Mélusine Mayance, que agarram seus papéis com todas as forças, delicadamente e, ao mesmo tempo, impactante.

Quanto ao aprisionamento e tortura de famílias judias que ocorreu naquele verão de 1942 na França, cabe a todos nós lembrarmos, e divulgarmos, para que este massacre não fique esquecido na História. Certamente não deve, mas cabe a nós relembrarmos constantemente algo que não queremos repetir na História.

sábado, 19 de novembro de 2011

A pele que habito (La piel que habito)




Vi recentemente o novo filme do Pedro Almodóvar, A pele que habito, com Antonio Banderas, Marisa Parede e Elena Anaya. Gostei muito, explicarei por quê.

A pele que habito é o novo filme do diretor que segue uma linha bem diferente dos seus últimos longas, muito mais dramáticos e sentimentais do que este. Este é um suspense que chega a um ápice um tanto quanto chocante, recheado de cenas enigmáticas e de sexo, é claro, que fazem o espectador sentir o lado mais vil do ser humano e mais apaixonado também, na pele da personagem de Antonio Banderas.

A história do filme já começa com um suspense, um enigma, que é quebrado ao longo da trama. O cirurgião plástico Robert Ledgard (Banderas) tenta criar uma pele perfeita, que não sofreria ações do tempo e queimaduras. Viúvo e fechado para o mundo, Robert mantém em sua antiga clínica, agora sua residência, uma paciente, cobaia de seus experimentos. Ele vê Vera (Elena Anaya) como sua obra prima. Defensor de novas técnicas de transplante de pele, as quais são proibidas em humanos, Robert esconde em sua grande mansão este segredo: a habitante que sofreu inúmeras intervenções cirúrgicas e que também é a personificação da sua mulher, morta de forma trágica.

O enredo se desenvolve na tentativa do espectador de descobrir, com os constantes flashbacks, de forma pouco linear, quem são essas personagens, se Robert é um grande benfeitor da humanidade, criando uma nova técnica que poderia restaurar vítimas de queimaduras, ou se ele é um crápula que mantém uma paciente como cobaia para fins puramente pessoais e egoístas. Se vocês acham que este é o grande segredo da trama, estão enganados. O filme dá voltas e voltas até você sair da sala "atordoado" com a eloquência da trama, com a relação conflituosa das personagens com elas mesmas, e com a capacidade transformadora do ser humano, como na maioria dos filmes de Almodovar.

Baseado no livro do escritor francês Thierry Jonquet (Tarântula), a ficção, o terror e a mistura de elementos de uma personagem embrutecida pela tragédia (Doutor Robert) e de uma outra, que devido a circunstâncias só esclarecidas no decorrer do filme, se aproxima de Robert, se tornam verdadeiras bombas relógios para o espectador, que espera ansiosamente a resolução do suspense, a explicação para tudo o que ocorre, que se deleita ainda mais com as pequenas dicas e detalhes que o diretor apresenta para desenvolver sua história.

O filme é uma adaptação minimalista, e tem a cara do diretor. Sim, ele é um filme autoral, mas qual filme de Almodóvar não é? Me lembrou muito filmes do início de sua carreira, da década de 1980 na verdade, enfáticos, fortes, com cena após cena mostrando algum movimento brusco, algum elemento forte, uma cor que se sobressai, um diálogo seco e emblemático, cenário marcante, que têm tudo a ver com a estética do diretor.

Li uma crítica (se não me engano do Rubens Ewald Filho) em que o autor dizia que Almodóvar melhorou com o tempo e, por conhecer melhor a estética do cinema, como dirigir os atores, posicionar a câmera e conseguir o enquadramento perfeito, consegue, cada vez mais, se superar. O diretor desenvolve sua trama de forma muito enérgica, e por isso, brilha por trás da mesma. Consegue se sobressair por fazer algo absolutamente diferente do que costuma fazer e, ao mesmo tempo, com elementos comuns e o mesmo impacto que costuma deixar registrado nas telas.

Não dá para contar muito sobre o filme, senão ele fica sem graça. E quem sou eu para contar final de filme. Só recomendo que assistam e depois, se puderem, postem seus comentários, pois cada crítica que li tem um ponto de vista diferente sobre a trama, e sempre interessante. Descreveria o longa como "gutural", outros o descrevem como drama psicologizante. Mas quem sabe, ele apenas lida, mais uma vez, com sentimentos de paixão, ódio, vingança, angústia e sofrimento inerentes ao ser humano, sempre tão bem mostrados pelo diretor? Essa capacidade de fazer refletir e, mais importante, sentir, é algo absolutamente normal no universo do Almodóvar - para nossa felicidade.

domingo, 30 de outubro de 2011

A Condenação (Conviction)


De volta ao blog e assistindo a muitos filmes por sinal. Decidi postar uma crítica sobre um que me fez refletir sobre nossas crenças. A Condenação, drama estrelado por Hillary Swank e Sam Rockwell, conta a história verídica de uma mulher que busca inocentar o irmão acusado de assassinato e e condenado à prisão perpétua em Massachusetts, nos Estados Unidos, na década de oitenta.

A Condenação é um filme de baixo orçamento e atuações contundentes, que tem por objetivo mostrar uma história verdadeira e dramática de uma mulher forte que luta por seus ideais. No caso, Swank interpreta uma mulher de origem pobre e família conturbada, Betty Anne Waters, que de dona de casa se torna uma estudante de direito com um objetivo apenas: libertar seu irmão da prisão perpétua e provar que ele é inocente. Sam Rockwell, por sua vez, interpreta Kenny Waters, o irmãos encrenqueiro de Betty Anne que acaba sendo acusado e condenado, de acordo com ela, injustamente pela justiça.

Bom, a história do filme se passa na década de 1990, período em que Betty Anne luta pela libertação do irmão, mas com flashbacks de sua infância com ele e do passado em que ele foi acusado de ser assassinado. Dirigido por Tony Goldwin, o filme tem um leve toque de suspense - devido à dúvida que fica no ar, para o espectador, se no final das contas Kenny teria matado uma senhora alemã a facadas para roubar-lhe ou não. Na verdade, o filme se desenvolve a partir do olhar de Betty Anne em relação ao irmão e à certeza de que ele é inocente do caso, um olhar inocente e apaixonado, captado brilhantemente por Swank.

Apesar de Swank roubar a cena, sendo muitas vezes angustiante a certeza que Betty Anne tem sobre o irmão, que mesmo que improvável, faz com que acreditemos em sua história, por outro lado Sam Rockwell compõe um personagem contido e violento, porém humanizado, o que faz com que tenhamos simpatia também pela sua causa. Sem dúvida a relação dos irmãos é o mote principal da história e Rockwell está ótimo como Kenny, um homem com passado sombrio e perigoso, mas que tenta provar que apesar de todos os indícios, ele não é um assassino.

Kenny e Betty Anne são também frutos de uma família branca empobrecida do interior, chamados de "white trash", com mãe e pais ausentes. Vivendo sozinhos, eles tentavam criar um mundo de fantasia por onde passavam, invadindo casas e vivendo como pessoas "normais", como afirmou Betty quando criança. A realidade dura une os irmãos (mesmo que pouco explicado no filme, que dá a entender que, separados quando crianças pela assistência social, eles permaneceram com fortes laços na vida adulta).

Kenny é um verdadeiro herói na visão mistificada de Betty. Não importa o que fizesse, ele era o salvador de Betty, o "anti-heroi" da história, na verdade, mas o irmão mais velho no qual ela se espelhava. Por isso a Betty adulta não consegue se desvencilhar da imagem fantasiosa do irmão quando ele se torna mais velho, tentando inocentá-lo a todo custo.

O filme faz uma crítica ao sistema prisional norte-americano, assunto bem visto pela filmografia americana, mas por outro lado, o foco está nos laços afetivos entre Kenny e Betty Anne. A junção da luta de uma mulher com poucas oportunidades mas insistente e lutadora, com a importância dada à família são os principais condutores da trama, transformando o "thriller" em um drama complexo, angustiante e ao mesmo tempo, emocionante.

Swank e Rockwell compõem suas personagens de forma tão realista que, a certo momento, o olhar do espectador se desvia da falta de credibilidade da história de Betty para a aceitação da inocência de Kenny, o que mostra que os atores souberem "vender" muito bem suas personagens.

Tudo se torna crível e o espectador começa a torcer para os dois, grandes anti-heróis de um sistema opressor e cruel com as classes mais baixas, principalmente devido às penas de morte e perpétua existentes no país. Mas o filme não discute a crueldade das penas, e sim a injustiça de um sistema que acusa aqueles menos favorecidos, dando poucas chances de recursos em casos como os de Kenny - o júri aceita prontamente os indícios de que Kenny teria matado a senhora alemã, existindo apenas provas circunstanciais sobre o caso, não dando chance nenhuma de defesa.

O filme peca na originalidade e deixa muitos fatos sobre o assassinato mal explicados. Mesmo que apresente traços de suspense, é um drama que promete deixar o espectador em lágrimas, além de ter elementos básicos de filmes dramáticos: luta contra o sistema ou alguma "força" maior, sofrimento das personagens principais, personagem feminina forte e que luta pela família, e ser baseado em uma história verdadeira que, nas mãos do roteirista, se torna uma história extremamente humana e a aproxima da gente, mesmo que as personagens principais não sejam o exemplo perfeito de "good guys" - pois ninguém o é.

Dou meus créditos aos dois atores, que conseguem, muito bem, compor as personagens e apresentar uma história realista e humanizada, sem precisar da ajuda de nenhum tipo de efeito ou orçamento exorbitante, nem a apelação habitual de muitos atores que, na inabilidade de compor suas personagens, pecam pelos excessos. Recomendo o filme para aqueles que estejam a fim de ver um filme sem muitos excessos, com boas atuações, mas com história triste e realista, que nos faz refletir sobre nossas convicções.

domingo, 24 de julho de 2011

Meia-noite em Paris (Midnight in Paris)



O filme Meia-noite em Paris é uma agradável surpresa. Woody Allen é conhecidamente um autor que faz filmes bem distintos da indústria de cinema, simples, com diálogos deliciosos e uma análise psicólogica das personagens - em uma própria releitura dos seus pensamentos. Sua cidade natal, Nova York, deixou de ser cenário exclusivo de seus filmes há muito tempo, desde que ele decidiu utilizar incentivos em outras cidades e trazer um diferencial a seus filmes, que incluem a leveza e sensação de novidade a cada lugar que ele retrata. Em Meia-noite em Paris não é diferente, ele retrata a "cidade luz" de uma forma extremamente elogiosa e, claro, mostrando suas belezas, que são inúmeras.

O longa tem sido considerado um dos melhores do autor, que como sempre se sobressai a cada ano com uma novidade que cá entre nós, nos faz ter vontade de ir ao cinema. Já critiquei aqui filmes com efeitos especiais extremos e a falta de roteiros de qualidade no cinema Hollywoodiano. Por isso Allen não é Hollywoodiano - ele se recusa a transformar seus filmes em máquinas de dinheiro. Com poucos recursos, atores que pedem para ter um papel em seu filme - de graça - e com os incentivos das cidades que ele escolhe para filmar, Allen tem total liberdade de falar o que quer, mostrar o lado mais engraçado e interessante de suas personagens sem se preocupar com as críticas. É claro que as críticas são importantes - mas Allen deixou de dar bola para elas há muito tempo. Por isso, é sempre um prazer assistir a um filme de Allen no cinema. E recomendo que todos o façam. Baixar filmes dele...não vale a pena. A experiência do cinema é insubstituível.

O filme retrata a história de Gil (Owen Wilson), um roteirista de filmes na Califórnia que se aventura a escrever seu primeiro romance, devido à mesmice e falta de criatividade que acredita existir na indústria de Hollywood (alfinetada básica). Ele viaja com sua noiva e os pais dela para Paris, entusiasmado com as possibilidades de talvez convencer sua noiva a viver em uma cidade que, como ele mesmo diz, pode ser apreciada na chuva, onde é possível carregar uma baguete debaixo do braço, conversar em bistrôs com estranhos ou simplesmente sentar em um café e apreciar o ar nostálgico e "respirar história". Sua noiva, Inez (Rachel McAdams), por outro lado, sonha comprar uma casa em Malibu, quer que Gil ganhe dinheiro escrevendo roteiros para a indústria de cinema e não suportaria viver numa cidade como Paris. Nesse ambiente de tensão entre as duas personagens, Gil tenta finalizar seu primeiro romance, usando como referência autores americanos consagrados na literatura e que viveram a intensa atividade cultural da década de 1920 em Paris - cidade que abrigou artistas, intelectuais, cantores, e promovia uma cultura inovadora nos chamados "anos loucos" ou "era do jazz".

Cansado dos passeios de compras e culturais com o amigo "pseudo-intelectual" de sua esposa (papel de Michael Sheen, outra alfinetada de Allen a pessoas que tem "verborragia" sobre assuntos culturais mas que na verdade pouco entendem em profundidade do assunto), Gil decide passear em Paris sozinho e uma certa noite, uma antigo limusine modelo Ford para em sua esquina e eis que surgem Zelda e Scott Fitzgerald, o convidando para entrar e ir à uma festa. Estupefato, Gil é transportado no tempo e conhece todos os artistas e escritores que tanto admira do período. Conhece também uma jovem amante de Pablo Picasso, Adriana (Marion Cotillard), a qual começa a se interessar.

Maravilhado pelos encontros com Gertrude Stein (Kathy Bates), que gentilmente lê seu romance, e com as conversas com o novo amigo Ernest Hemingway, além da presença de Adriana, Gil começa, cada vez mais, a viver a cidade, a história e a cultura dos anos 1920. Porém, como Woody Allen bem mostra, o futuro de Gil não está no passado, mas sim naquilo que ele trilha no presente - seu relacionamento com Inez, sua vida como roteirista nos Estados Unidos e sua visão de mundo compartilhada com os novos amigos parisienses.

Meia-noite em Paris é uma história leve, porém que de despretensiosa não tem nada, sobre a vida e as decisões que tomamos - e como em um rápido segundo tudo pode mudar. É inevitável que lembremos da Rosa Púrpura do Cairo, filme de realismo fantástico também de Allen, cuja personagem de Jeff Daniels também se chama Gil. Através da personagem principal de Meia-noite em Paris, Woody Allen pode ser nitidamente percebido. A incorporação de seus trejeitos e forma de falar, cuidadosamente trabalhado pelo Owen Wilson, personagem principal, é impressionante. Talvez, este seja o melhor papel de sua carreira. Rachel McAdams, excelente atriz, está ótima no papel da noiva impaciente e mimada de Gil. O filme conta ainda com pequenas mas marcantes participações de atores como Kathy Bates, Adrien Brody, Marion Cotillard e até mesmo Carla Bruni, que ganhou um pequeno papel no longa (pequeno mesmo - e dispensável também).

Meia-noite em Paris, como a maioria dos filmes de Allen, nos deixa feliz ao sair do cinema, esperançosos com os caminhos que a vida nos proporciona e com uma vontade muito, mas muito forte, de visitar a bela cidade que merecidamente foi escolhida como parte, e não apenas como cenário, de seu filme.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da morte - 1 e 2 (Harry Potter and the deathly hallows - Parts 1 and 2)

Harry Potter é o nome de uma série de filmes, baseada em uma saga de livros infanto-juvenis que conta a história de um menino órfão, rejeitado pela família, que descobre que na verdade é um bruxo e super conhecido em um estranho mundo mágico, onde ele pode fazer tudo que sempre quis e conquista carinho e amizade de pessoas que cruzam seu caminho. Bom, quem não conhece a história de Potter? A saga de livros escrita por J. K. Rowling ganhou status de blockbuster mundial ao ser lançada em filmes, e por isso mesmo, acabou gerando uma renda considerável cinemas afora. Se você é fã de Harry Potter - como eu - ou não é fã, pode assistir a todos os filmes e apreciar a história do pequeno bruxo que acaba se tornando um grande homem. E esta é a real história de Harry Potter: se tornar uma pessoa madura. Muitos jovens estão lamentando o fim da saga, pois esta atravessou a vida deles - a infância e a adolescência, justamente o momento em que eles estavam se tornando adultos.

O primeiro livro da saga, Harry Potter e a pedra filosofal, foi lançado em 1997, e o último, As relíquias da morte, em 2007. A geração de crianças de 11 anos, como Harry, em 1997, hoje tem 25 anos. Claro, todas cresceram. Harry Potter marcou época e é inegável que arrebatou recordes de vendas ( 450 milhões de exemplares de livros vendidos) e se tornou uma das maiores sagas contadas nas telas, traduzida pela Warner, que abocanhou bastante dinheiro com isso(cada filme contou com mais de 900 milhões de dólares de renda de bilheteria, além de jogos, produtos e até um parque temático inaugurado na Disney, que rendem também um dinheiro considerável a autora e aos estúdios Warner e Disney).

J. K. Rowling, uma ex-secretária que afundada em dívidas, escreveu o primeiro livro em um café com o carrinho de bebê do lado (pois não tinha dinheiro para pagar aquecimento em casa), é considerada uma verdadeira “self-made woman”: do nada, conquistou um império, se tornando a segunda mulher mais rica do Reino Unido (após a própria rainha). Assim sendo, vamos ao filme.

Harry Potter e as relíquias da morte conta a história do jovem bruxo (Daniel Radcliffe), já com 17 anos, que junto com Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint), seus fieis amigos e escudeiros, pretendem acabar com Lorde Voldemort (Ralph Fiennes), o bruxo que quer matar Harry Potter e dominar o mundo mágico, destruindo os hoarcruxes, que são objetos mágicos que permitem que Voldemort continue vivo. No meio do caminho, Harry descobre o que Voldemort deseja, além de dominar o mundo mágico: os três amuletos (ou relíquias) que podem fazer com que um homem seja imortal. Assim, Harry e seus amigos se lançam em uma jornada para atingir seu objetivo, fugindo dos dementors e caçadores de recompensa, além dos soldados de Voldemort, que os procuram (Harry se torna o procurado número um do mundo mágico), após a morte do diretor da escola Hogwarts, Alvus Dumbledore (Michael Gambon). Dominada pelos mágicos que apoiam Voldemort, e com Severus Snape (Alan Rickman) como diretor, Hogwarts vive dias sombrios: os alunos não podem se expressar e são punidos severamente, além de serem obrigados a ter aula de magia negra todos os dias. Harry, Hermione e Ron desistem do ano escolar, e escondidos em uma floresta, tentam desvendar onde estão os hoarcruxes que restam, além daqueles já destruídos.

No meio do caminho, Harry é ajudado pelos bruxos da Ordem de Fênix que, mesmo sofrendo baixas e com a morte do Ministro da Mágica, permanece escondida apostando em Harry a única esperança que resta para acabar com o exército de Voldemort e para que impere a paz no mundo mágico. Em uma alusão ao nazismo, Harry, Ron e Hermione vêem esse exército sendo treinado cegamente e a propaganda de ordem sendo imposta nas ruas de Diagonal Alley e no próprio Ministério da Mágica, em uma verdadeira ditadura imposta por Voldemort. No decorrer do segundo filme, a situação fica mais difícil de ser controlada, uma vez que Voldemort se torna mais poderoso, matando e prendendo inimigos, e Harry retorna a Hogwarts, para, junto com os jovens alunos, lutar de igual para igual com os mágicos malvados que acompanham o “Lorde das trevas”.

Destaca-se nesse filme Neville Longbottom (Matthew Lewis), a criança gordinha e desajeitada, que cresce e se torna o líder de Hogwarts contra o exército de Voldemort, o verdadeiro herói do filme. Outro destaque vai para Alan Rickman, que interpreta Severus Snape, em uma atuação emocionante de Rickman e um dos melhores momentos dos filmes/livros de Potter. É claro, não podemos deixar de destacar Ralph Fiennes, o Lorde Voldemort, que também está brilhante no papel, e em toda a saga interpreta de forma perfeita o verdadeiro “mestre do mal”. Outra personagem que é necessário destacar é Dobby, o elfo livre, que se transforma em um verdadeiro herói no final da primeira parte do filme.

Dirigido por David Yates, e com a participação de alguns dos atores mais brilhantes da Grã-Bretanha, como Alan Rickman (Snape), Ralph Fiennes (Voldemort), Helena Bonham Carter (Belatrix, em um papel feito para ela), Julie Walter (Molly Weasley), Robbie Coltrane (Hagrid), Gary Oldman (Sirius Black), a espetacular Maggie Smith (Prof. Mcgonagall), o incrível John Hurt (Ollivander), entre muitos, muitos outros que participaram dos filmes e especialmente destes dois últimos, Harry Potter é um filme que vale - e muito - a ida a um cinema. Não somente pelas interpretações, mas pela história envolvente, bem dirigida e finalização da saga de forma impecável.

O filme As relíquias da Morte é um bom desfecho para a saga do bruxo - quem leu o livro, provavelmente chorou no final (eu não chorei...quase :P). Os fãs de Harry Potter com certeza também ficaram emocionados no desenvolvimento da amizade de Hermione e Harry e no desenvolvimento do romance de Hermione com Ron. O livro é enervante em algumas partes, descritivo demais em outras, mas emocionante no final. Tudo traduzido para as telas de forma excepcional.

Geralmente as traduções de livros pro cinema deixam a desejar, mas aqui, é o contrário: os filmes traduzem em imagens a mágica proporcionada por Rowling, e os detalhes, em exatidão àquilo que é lido. À medida que o filme passa, você relembra os diálogos desenvolvidos no livro, com a mesma intensidade, na trama. É bom reiterar que Ron, Hermione e Harry, mesmo que personagens principais, são ofuscados nesta obra por Neville Longbottom, em um final heróico e espetacular (que é claro que eu não vou comentar aqui, não sou spoiler). Ver a evolução de Neville na saga é emocionante.

Ok, ok, sei que geralmente faço críticas positivas dos filmes e deixo de lado as partes negativas. Mas, neste filme, não há o que contestar: a história flui rapidamente (até por ser uma continuação) e ocorre o fechamento de uma história bem escrita e bem pensada para as telas, com efeitos especiais excelentes (o que era de se esperar) e atuações emocionantes. Não há muito mesmo o que reclamar. Os atores principais são jovens atores que, apesar dos dez anos de filme, ainda estão começando na arte de atuar – por isso, é previsível que sejam ofuscados por atores antigos e premiados. Mesmo dividido em dois que, é claro, gerou lucros imensos para a Warner, seria necessário um filme de quatro horas mesmo para contar a história do livro de 780 páginas, de uma forma bonita e merecedora de atenção.

Eu sou fã de Harry Potter e por isso, assistir as Relíquias da Morte foi uma experiência emocionante - mesmo já sabendo o final há três anos. Não cresci lendo os livros, e por isso acho que o final da saga foi muito mais impactante para os milhares de adolescentes e jovens adultos que, de repente, viram sua infância passar e a idade adulta chegar – acompanhando a vida do bruxinho famoso e vendo que ele, também, como todo o mundo um dia, se tornou adulto.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A Revolução de Dagenham (Made in Dagenham)


Assisti ao ótimo A Revolução de Dagenham, filme britânico de 2010, dica da blogueira Lola (www.escrevalolaescreva.blogspot.com), cujo blog comecei a visitar recentemente. Filmes com mulheres poderosas ocupando lugares dominados por homens sempre pareceram interessantes para mim (vou rever Norma Rae, filmaço, com Sally Fields como ativista sindical, e postarei a crítica aqui). Ainda mais esse filme, que contém depoimentos das verdadeiras costureiras da fábrica Ford de Dagenham no final, cujo roteiro foi baseado no depoimento das mesmas - como historiadora, deu vontade de entrevistar todas elas.

O filme conta a história das costureiras/maquinistas da fábrica britânica da Ford, em Dagenham, bairro do subúrbio de Londres, que em 1968 ganhavam menos da metade dos salários masculinos e trabalhavam em condições muito ruins, em galpões mal arejados e quentes no bairro. 187 mulheres trabalhavam na montadora no país, que em contrapartida contava com 55 mil homens, e muitos deles faziam serviços considerados skilled (ou seja, especializados), enquanto o trabalho de costura delas era considerado unskilled (não especializado) - o que fazia cair seus salários. A conformidade das mulheres estava prestes a acabar naquele ano: em uma sociedade machista mas que até hoje é pautada na força dos trabalhadores e poder do Partido Trabalhista, elas começaram a reivindicar mudanças. Vale lembrar que em 1968 muitas coisas aconteciam no mundo: corrida espacial, descoberta da pílula e revolução jovem, entre diversos outros movimentos de busca por direitos femininos, de minorias e de liberdade de expressão que ocorreram na mesma época. Assim, as reivindicações das costureiras de Dagenham estavam de acordo com as mudanças culturais que surgiam. Porém, em um mercado de trabalho tipicamente masculino, a luta a ser travada seria difícil.

Liderando as costureiras nas reuniões sindicais (cem por cento masculinas), Rita O'Grady (Sally Hawkins) decide dar voz ao movimento e em uma demonstração que as mulheres deveriam ser consideradas especializadas e com direitos iguais aos homens na fábrica, se impõe de forma inédita como negociadora, renegando o uso de porta-vozes masculinos na reunião. A greve encabeçada pelas costureiras custou caro a Rita (que no filme, é uma personagem fragilizada, que descobre a sua força na luta sindical - não creio que na vida real fosse assim), e ela sofreu retaliações, ameaças e viu seu casamento quase acabar. Porém, as maquinistas da Ford em Dagenham não cederam - e isso começou a incomodar chefões da indústria e o próprio governo britânico, que estava às voltas com uma série de manifestacões e ações grevistas no país.

O filme enfoca o papel de O'Grady na luta das mulheres, mas também mostra diferentes mulheres na luta pela sua própria libertação. Sandra (Jaime Winstone), maquinista que sonhava em ser modelo, em uma cena brilhante resolve usar seu corpo para uma manifestação contra salários desiguais. Outra personagem interessante é Lisa Hopkins (Rosamund Pike), a esposa de um dos diretores da fábrica e que se sente tolhida intelectualmente por ser uma dona de casa formada em uma das mais renomadas universidades do país porém pouco ouvida pelo marido (me lembrou o filme O sorriso de Mona Lisa, que retrata a situaçao vivida pelas alunas de uma prestigiada escola particular norte-americana que se preparam para o casamento e as funções de uma dona de casa, apesar de muitas prosseguirem os estudos na faculdade - isso na década de 1950).

Entretanto, o papel mais interessante - além de O'Grady - é o interpretado por Miranda Richarson, de forma brilhante, como a Secretária de Estado Barbara Castle. Castle foi uma ativista socialista, com princípios e personalidade fortes e papel de destaque na política britânica, que, entretanto, se viu na situação delicada de conter as manifestações das grevistas, além de ter que ouvir comentários machistas à sua volta sobre a incapacidade das mulheres de tomarem decisões. Richardson interpreta Barbara com imponência e firmeza, algo que não é nem um pouco fácil, devido à trajetória de Barbara Castle e sua força política na Grã-Bretanha.

A Revolução de Dagenham, dirigido por Nigel Cole (lembram? O mesmo de O Barato de Grace), é um filme interessantíssimo por mostrar diferentes mulheres e um mesmo propósito - sua afirmação no mercado de trabalho, com igualdade de direitos. Algo que discutimos hoje de forma tão banal, pois é inaceitável você ganhar menos realizando a mesma função de um colega homem, há quarenta anos atrás era um tabu. O filme tem também uma excelente reconstituição de época (como de praxe nos filmes britânicos), uma participação muito boa de Bob Hoskins (mesmo que pequena) e tem roteiro ágil, sutil e divertido, com situações que vão do completo drama (como o suicídio de uma personagem) aos risos (como a atuação do marido de O'Grady tomando conta da casa e dos filhos, enquanto ela participa das reuniões sindicais e manifestações). Vale a pena conferir - homens e mulheres.